Texto básico: Marcos 6.34-44
Os milagres que foram realizados por Cristo e registrados na Bíblia não são apenas uma demonstração do poder de Deus para embevecer e extasiar as pessoas e as multidões. Os milagres têm conotação pedagógica e didática.
Existem realidades que nos são ensinadas através desses portentos e que estão além de tais atos em si mesmos. Jesus curou um cego de nascença e ensinou: "Eu sou a luz do mundo” (Jo 9.5).
Ressuscitou Lázaro e afirmou: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11.25). Multiplicou os pães e proclamou: “Eu sou o pão vivo que desceu dos céus...” (Jo 6.51).
O milagre da multiplicação dos pães e peixes traz consigo muitos elementos importantes para a edificação da Igreja, no que diz respeito a compromissos que temos como discípulos de Cristo.
Vamos, portanto, levantar estes imperativos que necessitamos evidenciar em nosso viver diário como seguidores de Cristo.
1 - RESPONSABILIDADE (ν. 37)
As multidões afluíram para ouvir os ensinos do Mestre. Esse ajuntamento permaneceu até à tarde, o que trazia dificuldades, pois, chegando a noite e sendo o lugar sem casas ou comércio, tornava-se difícil conseguir provisões adequadas para aquela gente.
O problema não podia ser mais adiado, e a inquietação tomou conta dos discípulos que rogaram ao Mestre:"... despede-os...".
Esta seria a atitude mais cômoda e tranquilizadora para os discípulos. Não queriam nenhuma responsabilidade com todo aquele pessoal; assustava- lhes a ideia de permanecerem ali por mais tempo.
O que parecia prudência era apenas medo, receio e incredulidade. A resposta de Jesus se faz de forma inesperada e coloca a todos contra a parede: "Dai-lhes vós mesmos de comer". A reação foi imediata, afirmando não haver fundo suficiente para alimentar todo o povo.
Para os discípulos a multidão seria responsável por seu próprio sustento, sua própria provisão. Mas Jesus afirmava que a responsabilidade recaía sobre os companheiros: "Dai-lhes vós mesmos de comer..."
Embora o texto fale de pão material para sustento físico dos que ali estavam, entendo que se pode ter um sentido amplo do texto, ou seja, dar-lhes “o pão vivo que desceu do céu".
Este é um compromisso sério e tremendo do discipulado cristão: dar de comer aos famintos da Palavra de Deus. Há os que sustentam que devemos deixar as pessoas proverem sua própria alimentação, não importando o que estejam comendo, desde que estejam ingerindo algo. Isto é um absurdo.
Alguém (bilhões deles) pode estar ingerindo comida deteriorada, tendo alimentação envenenada, que poderá resolver, de imediato, o problema de sua fome, mas o levará à intoxicação, ao envenenamento e à morte.
Assim, é responsabilidade nossa dar às pessoas o pão que alimente para a vida eterna. Há milhões de pessoas se alimentando com comida espiritual que as está conduzindo à morte eterna.
Não podemos assistir a isto tudo passivamente, pois as multidões estão necessitadas do "pão do céu", estão carentes da Palavra de Deus, e cabe a mim e a você dar- lhes de comer.
Outras propostas do cardápio religioso podem oferecer um alimento que não satisfaz a fome espiritual e se posicionam contra os ensinos da Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus.
“Há morte na panela, ó homem de Deus" (II Rs 4.40), gritaram apavorados os companheiros do profeta Eliseu. Há morte na panela de ensinos que não apresentam as verdades eternas do Santo Evangelho de Cristo.
Não podemos deixar que milhões continuem famintos ou alimentando-se na panela onde há morte. "Dai-lhes vós mesmos de comer" - é o desafio de Jesus a cada um de nós como seus discípulos, no sentido de nossa responsabilidade em alimentarmos as multidões desnutridas.
2 - DESPRENDIMENTO (v. 41)
Sendo este o único milagre registrado pelos quatro evangelistas, faz-nos crer na sua importância especial.
A narrativa empreendida por João nos oferece alguns subsídios de real valor neste ponto, ou seja, os elementos usados na multiplicação: “cinco pães de cevada e dois peixinhos". (Jo 6.9).
De onde surgiram tais elementos? A narrativa diz que um rapaz estava com essas provisões que lhe serviriam de lanche.
Era uma quantidade ínfima para um ajuntamento tão grande, e os próprios discípulos exclamaram:"... que é isto para tanta gente?”. De fato era muito pouco; quase nada.
Mas, apesar da significação tão diminuta destes alimentos frente à demanda de tão grande multidão, o rapaz entregou seus pertences para, nas mãos do Senhor, serem multiplicados em favor de milhares. Há alguns elementos dignos de referência nesse ato.
a) O rapaz não era obrigado a dar suas provisões - Por direito, aquilo lhe pertencia, e ele não precisava dá-lo a ninguém. Ele fora prudente e cauteloso levando seu sustento, e agora tinha o direito de usufruir dele sem verse obrigado a dar alguma coisa a quem quer que fosse.
b) O egoísmo o levaria a considerar-se inútil - O senso de inutilidade invadiria aquele rapaz ao começar a comer, tendo os demais famintos ao seu redor. Não queria sentir-se um inútil, e entregou o que possuía àquele que poderia usar a bem de todos.
c) O desprendimento e o desapego daquele jovem para com suas coisas são um desafio a mim e a você. Ele compartilhou, dividiu, repartiu, tendo sido também alimentado. Não lhe faltou sustento ou provisão e, além disso, seu coração estava feliz, pois todos comiam de seus pães e peixes multiplicados pelo Senhor.
É mister que aprendamos a desprender-nos daquilo que temos recebido, a fim de que muitos outros sejam também abençoados.
Alguns comentaristas de linha liberal, na tentativa de negar o milagre realizado por Cristo e tentar estabelecer apenas a coletivização dos víveres, propõem que o ocorrido ali foi apenas a quebra do egoísmo de todos os presentes naquele lugar.
Alegam que as pessoas possuíam suas provisões, mas por medo de compartilhá-las com quem não tinha, negavam-se começar a comer. O rapaz quebrou essa barreira, então Jesus pôde proceder ao milagre da multiplicação.
Isso não é verdade. Não havia provisões. O milagre realizado não é um despertar de sentimento de solidariedade das pessoas, mas a multiplicação de cinco pães e dois peixes doados pelo rapaz, alimentando milhares de pessoas.
Que atitude virtuosa e profunda deste jovem ao ensinar-nos o desprendimento daquilo que temos, entregando ao Senhor para que Ele mesmo multiplique em bênçãos a favor de muitos. Este é um dos nossos compromissos como discípulos do Senhor: desprendimento.
3 - APROVEITAMENTO (v. 43)
Os pães e os peixes foram multiplicados, a multidão alimentada, e imaginamos que tudo está terminado. Mas os discípulos são levados a recolher os pedaços que somaram 12 cestos.
Chega a ser estranha essa atitude quando se pensa em termos práticos e funcionais. Por qual motivo recolher os pedaços? Guardá-los? Comê-los? Distribuí-los mais adiante com carentes?
Ensinar aos discípulos que a provisão de Deus é muito mais do que "pedimos ou pensamos" (Ef 3.20), ou para ensinar um princípio de limpeza pública tipo: "mantenha nossos campos limpos"?
Vejo aqui um ensino que reflete a verdade de Pv 27.7: "A alma farta pisa o favo de mel, mas à alma faminta todo amargo é doce".
Trata-se do uso criterioso do que Deus nos deu, do que colocou em nossas mãos, sem permitir desperdício das bênçãos que Ele nos tem concedido. O desperdício em nosso meio é tremendo.
Basta lembrar as reportagens sobre o desperdício de alimentos em grandes centros urbanos ou eventos, em que se podia encontrar grande quantidade de comida em perfeitas condições sendo descartada.
Poderíamos multiplicar os exemplos de desperdício com os quais convivemos diuturnamente como reflexo de uma filosofia consumista e com ênfase no "descartável".
Somos, como cristãos, desafiados por Deus a aproveitar com critério o que Ele, em sua graça, nos tem e concedido.
Veja como seu tempo tem sido desperdiçado ou mal aproveitado. Não há falta de tempo, mas mau uso dele.
Quando pensamos que há cristãos em algumas partes do mundo que copiam à mão trechos das Escrituras Sagradas para mantê-las em seu poder.
Quando ficamos sabendo que há apenas um exemplar da Bíblia para uma congregação inteira de centenas de pessoas, em contraste com a nossa situação em que se deixam Bíblias esquecidas nos templos e em casa (relegando-as a um uso domingueiro), ou as entregamos a crianças que as destroem e rasgam sob o olhar complacente (conivente?) dos pais.
Não há problema, pois podemos comprar outra e outra e mais outra, desperdiçando assim o nosso dinheiro.
A fartura é uma situação tentadora para o desperdício. Nosso contato tão frequente com o sagrado nos leva à sua não valorização e ao não aproveitamento devido e adequado de tão sublime privilégio.
Por vezes ficamos lamentando que não temos muitas coisas na vida e que não conseguimos quase nada porque o Senhor não deu.
Porém, não percebemos que Deus já nos deu tanto, mas temos desperdiçado, não temos poupado, não temos economizado, não temos usado com prudência e sabedoria o que Ele nos deu.
Os anos das "vacas gordas" não são apenas para serem consumidos, mas também nos preparam para os anos das “vacas magras”.
O cristão tem esse compromisso com o aproveitamento correto daquilo que o Senhor lhe tem concedido, não é alguém que fica lançando pela janela as bênçãos que do Senhor tem recebido.
É inadmissível ficar desperdiçando 12 cestos cheios quando há tantos que não têm coisa alguma.
CONCLUSÃO
São muitos e não apenas esses os compromissos do discípulo cristão. Mas, apenas os três nos interessam agora. Você é responsável por dar de comer às multidões famintas, pois “há morte na panela” deles.
Você é chamado por Deus ao desprendimento a fim de colocar em suas mãos o que tem recebido para ser multiplicado em bênçãos para milhares, mesmo que sejam cinco pães e dois peixinhos.
É o desafio de Deus a você para que aproveite e use com sabedoria o que tem recebido, sem desperdícios ou esbanjamentos inconsequentes, pois. “O que ajunta no verão é filho entendido, mas o que dorme na colheita é filho que envergonha” (Pv 10.5).
Autor: PAULO AUDEBERT DELAGE
Lista de estudos da série
1. A voz que preparou o Rei – Estudo Bíblico sobre João Batista em Marcos
2. O segredo para vencer no deserto – Estudo Bíblico sobre a Tentação de Cristo
3. O poder de Deus nos pequenos detalhes – Estudo Bíblico sobre a Cura da Sogra de Pedro
4. O toque que quebra todas as barreiras – Estudo Bíblico sobre a Cura do Leproso
5. O guia infalível para a batalha espiritual – Estudo Bíblico sobre Suplantar o Valente
6. Do caos à paz: O passo a passo da libertação – Estudo Bíblico sobre o Endemoniado Gadareno
7. Encontrando esperança quando tudo desmorona – Estudo Bíblico sobre a Filha de Jairo
8. O toque de fé que libera o milagre – Estudo Bíblico sobre a Mulher do Fluxo de Sangue
9. As 3 responsabilidades que todo discípulo precisa saber – Estudo Bíblico sobre a Multiplicação dos Pães
10. 5 Lições de vida com quem o mundo despreza – Estudo Bíblico sobre o Cego Bartimeu
11. Só folhas? O aviso de Jesus que você não pode ignorar – Estudo Bíblico sobre a Figueira que Secou
12. Dono, trabalhadores e herdeiro: Qual seu papel nesta história? – Estudo Bíblico sobre a Parábola dos Lavradores Maus
13. O substituto improvável: por que a morte dele garantiu sua vida – Estudo Bíblico sobre Jesus e Barrabás
