1 João 1.5-10; 2.1-6
Pecado é, hoje, palavra que muitas pessoas, consideram vazia de conteúdo. Diante das luzes que a ciência e a técnica têm feito jorrar sobre a vida em muitos dos seus aspectos, é antiquado, é prova de ignorância e demonstração de mediocridade mental aceitar a ideia de pecado.
Duas causas, a nosso ver, explicariam esta atitude:
a) o falso conceito que certas formas de teologia têm elaborado a respeito de pecado;
b) a sensação de autossuficiência que as conquistas da ciência e da técnica introduziram na mente e no coração dos homens. Que é pecado, afinal de contas? É o que estudaremos na lição de hoje.
1 - CONCEITO BÍBLICO DE PECADO
a) No Antigo Testamento, a palavra hebraica hatá (lê-se hatah) - traduzida para o português, em muitos textos bíblicos, pela palavra pecar, significa o seguinte:
1) errar;
2) errar o alvo;
3) desviar-se da rota.
Pecar, pois é errar, é errar o alvo, é desviar-se da rota, é abandonar o caminho de Deus e enveredar pelos descaminhos das injustiças.
Mencionando as palavras ímpio, pecador e escarnecedor, o Salmo 1.° nos dá a gradação progressiva do pecado que vai dominando o homem:
Ímpio - sendo o oposto de pio (= pius, piedoso), é o termo mais genérico do Antigo Testamento, para designar o homem que não tem preocupação religiosa, que não tem temor de Deus;
Pecador - é aquele em quem a experiência do pecado é mais profunda, e, por isso, é levado a ofender habitualmente a Deus;
Escarnecedor - é o homem que atingiu o estado mais avançado de degeneração moral e espiritual e, tendo prazer no pecado, tornou-se cínico e zombador das coisas santas.
b) No Novo Testamento, a palavra grega hamartáno (= pecar) tem sentido mais ou menos idêntico ao termo hebraico atrás mencionado. Significa:
1) tomar caminho errado;
2) ter opinião falsa.
Na sua Epístola aos Romanos, Paulo, no cap. 1.29-31, usa a expressão páse adikía (= toda injustiça), querendo significar com esta frase toda espécie de imoralidade e, portanto, toda forma de pecado.
Desviando-se do Senhor, vivendo alienado de Deus, o homem aproveita as oportunidades para revelar a sua ponería (= malícia, disposição para o mal), a sua pleonexía (= avareza, cobiça), a sua kakía (= maldade, pusilanimidade).
A seguir, na segunda parte do v. 29 e no v. 30, Paulo menciona algumas formas concretas de pecado: phthónos (= inveja, maus feitos), phónos (= assassínios, homicídios), éris (= discórdia, desavença, fraude), kakoethéia (= malignidade).
A lista prossegue, mas o que já dissemos é suficiente para dar ideia das consequências do pecado na vida do homem.
c) Quando Paulo declara que todos pecaram (Rm 3.23), está afirmando que todos se desviaram de Deus, que todos Lhe voltaram as costas, buscando outros caminhos, outros objetivos, outros alvos. Alienado de Deus, o homem se perverteu e, como resultado da sua perversão, as suas obras, os seus feitos, trazem a marca indelével da sua maldade.
Mesmo nas chamadas boas obras que o homem faz, antes de ser redimido por Jesus Cristo, o seu coração não opta, não escolhe entre o bem e o mal, mas, na verdade, entre um mal maior e um mal menor.
Vivendo nos descaminhos da injustiça, o homem, por si mesmo, é incapaz de fazer alguma obra que o habilite para a salvação.
Sobre este assunto, vejam-se, entre muitos outros, os seguintes textos: Ef 2.8-10; Rm 3.24; 2 Tm 1.9; Rm 3.20,27,28; 1 Co 1.29-31. Como pecador, o homem está em atitude de permanente rebelião contra Deus e vive servindo às suas próprias paixões.
2 - O PECADO NO SER HUMANO
a) No capítulo primeiro de sua Epístola aos Romanos, Paulo fala cruamente a respeito da perversão moral do homem, perversão que se reflete no procedimento dele, por ter mudado a glória do Deus incorruptível em semelhança de homem corruptível, de aves, de quadrúpedes e de répteis (Rm 1.23).
Sobre esta perversão, vejam-se os seguintes textos: Dt 4.16; Sl 106.20; Is 40.18-25; Jr 2.11; Ez 8.10; At 17.29.
As consequências deste estado moral e espiritual do homem transparecem nos frutos que ele produz como pecador: Prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias (Gl 5.19-21).
O fato de o homem perverter todas as coisas boas e úteis - como, por exemplo, aplicar para o mal os admiráveis recursos que a ciência colocou em suas mãos - revela a sua desorientação profunda e a sua incapacidade para realizar o bem, no sentido cristão do termo.
b) Atualmente, quando a Psicanálise já alcançou acentuado grau de desenvolvimento, podemos distinguir em benefício do homem entre o complexo de culpa e a consciência de pecado.
Aquele resulta de enfermidade, constituindo anomalia psicológica, estado mórbido da mente; esta, isto é, a consciência de pecado, revela consciência sensível, que responde aos apelos da justiça e do amor de Deus, e vai até ao arrependimento total, desaparecendo a tristeza que o reconhecimento da culpa real havia produzido.
O psiquiatra ou o psicanalista, infelizmente, nem sempre distingue entre uma coisa e outra, especialmente se ele é incrédulo.
Por isso, frequentemente, ele vai ao extremo de querer eliminar a consciência de pecado, que é sentimento perfeitamente normal no homem, como foi o caso de Davi, no Salmo 51, e o de Agostinho, nas Confissões, para só citar dois exemplos.
O estado de tristeza que a consciência de pecado produz, desaparece com a confissão de pecado que fazemos a Deus, e com a certeza de perdão que nos enche o coração de alegria.
c) Os textos fundamentais da lição de hoje nos apresentam o ideal da vida cristã: manter comunhão com o Pai, andar na luz e praticar a verdade. Só os verdadeiros cristãos estão em condições de fazer estas coisas e, mesmo assim, de modo muito relativo.
A experiência nos mostra - e a Palavra de Deus o confirma - que, enquanto estivermos na carne, o ideal de perfeição é inatingível, pois, no presente, vivemos em estado de pecado.
Vejamos o que é que João diz: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós". A quem é que João se está dirigindo? Não é aos cristãos?
Não obstante, são eles pecadores. Porém, os cristãos que reconhecem os seus pecados - sabem a quem recorrer para obter perdão: "Se confessarmos os nossos pecados, ele (Jesus Cristo) é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça".
A nossa esperança, pois, está na fidelidade e justiça de Deus que, exercendo a Sua misericórdia em Cristo, nos perdoa e nos ajuda em nossa santificação.
Se permanecermos nele, andaremos como Ele andou, porque o nosso amor fonte de energia espiritual para a nossa vida - será aperfeiçoado na comunhão com Ele.
3 - O PECADO NA SOCIEDADE
a) Quando analisamos os Dez Mandamentos, o Decálogo (Êx 20), verificamos que Deus, ao promulgá-lo, visava orientar o homem não só na sua relação para com Ele, Criador, mas, também, na sua relação para com o seu semelhante.
Os quatro primeiros mandamentos estabelecem relações e deveres do homem para com Deus; os outros seis, no entanto, estabelecem relações e deveres do homem com o seu próximo.
Entre os dois grupos de mandamentos, porém, há perfeita harmonia e unidade, e eles se interpenetram para estabelecer ligação direta entre Deus e os homens.
Para poder observar o que prescrevem os seis últimos mandamentos os que estabelecem os seus deveres para com o seu próximo - o homem precisa, antes de tudo, observar os quatro primeiros, ou seja, os mandamentos que o obrigam diante de Deus.
Em outras palavras - e já na era cristã - João diz a mesma coisa: "Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê" (1 Jo 4.20).
b) As condições em que vivem os homens em pleno século vinte, estão a nos mostrar que a dissociação entre Deus e os homens responde pela desintegração da civilização moderna.
Os homens querem se entender entre si, querem estabelecer condições de justiça sobre a terra, querem proclamar a paz, mas sem reconhecer o governo de um Deus justo e soberano, a quem devam obediência, a quem se submetam.
A paz social virá somente como consequência da paz com Deus. Sem respeito a Deus, não pode haver respeito aos homens.
Não há condições, pois, para se estabelecer relação de fraternidade entre os homens, se estes mesmos homens não se reconhecem como irmãos.
c) O pecado labora contra as melhores iniciativas do homem, mesmo contra aquelas iniciativas pelas quais ele pretende resolver os problemas humanos. Hoje, fala-se muito em ciências sociais. Para muita gente, nestas ciências, na sua aplicação às necessidades do homem, está a salvação do mundo.
O valor destas ciências está no fato de elas nos ajudarem a ver os problemas e a descobrir o modo mais inteligente de resolvê-los.
Quando, porém, se trata da solução de fato, de pôr em prática as medidas que os técnicos sugerem ou prescrevem, aí, então, surge o impasse terrível: é preciso mexer com dinheiro, é preciso gastar para trazer benefício, é preciso fazer despesas que não visem ao lucro. Surgem as objeções ditadas pelo egoísmo, e a obra não se realiza!
É o problema da fome no mundo: não há carência de alimentos nem de recursos para comprá-los. O que há, é má administração, má distribuição - não por ignorância - mas por egoísmo, por causa do pecado humano.
CONCLUSÃO
A experiência humana confirma a doutrina bíblica do pecado. Aos que negam a existência do pecado e a sua influência sobre os homens, perguntamos: Como se explica que em pleno século vinte, no apogeu da idade atômica, o homem não tenha ainda resolvido os seus problemas básicos?
Deem o nome que quiserem a este mal que perturba o homem: a Bíblia, mui apropriadamente lhe chama pecado!
Lista de estudos da série
01. O segredo para confiar plenamente no cuidado de Deus – Estudo Bíblico sobre Deus Pai02. A verdade oculta sobre o mal que bloqueia suas orações – Estudo Bíblico sobre o Pecado
03. O único caminho infalível para alcançar a paz com Deus – Estudo Bíblico sobre Jesus Cristo
04. Como ser guiado pelo poder sobrenatural do Consolador – Estudo Bíblico sobre o Espírito Santo
05. A chave secreta para um novo recomeço com Deus – Estudo Bíblico sobre Arrependimento e Fé
06. O método simples para se tornar um cristão maduro e forte – Estudo Bíblico sobre Crescimento Espiritual
07. Encontre o seu propósito e se sinta útil em sua igreja – Estudo Bíblico sobre Serviço Cristão
08. Como descobrir e usar seu talento especial no Reino – Estudo Bíblico sobre Dons Espirituais
09. O significado profundo que poucos entendem sobre Batismo e Ceia – Estudo Bíblico sobre Batismo e Ceia
10. Por que a Bíblia ainda é o livro mais poderoso do mundo – Estudo Bíblico sobre as Santas Escrituras
11. O mistério da promessa antiga que mudou a história humana – Estudo Bíblico sobre o Natal
12. O que acontece de verdade no momento depois da morte – Estudo Bíblico sobre a Vida Futura
