1 Coríntios 10 e 13
Da cidade de Atenas, centro de cultura, seguiu o apóstolo Paulo até Corinto, centro de comércio e de mundanidade.
Aqui esteve o ilustre missionário e, num fecundo ministério de ano e meio, estabeleceu uma forte igreja evangélica. Corinto era a capital da Província Proconsular da Acaia, situada no estreito e movimentado istmo de Corinto, ligando o Peloponeso à Grécia.
Em Corinto havia duas baías famosas, que dominavam todo o comércio do norte e do sul, recebendo por mar carregamentos ricos da Europa e da Ásia. Cerca de 400.000 almas eram a sua população, toda cosmopolita. Havia judeus em bom número, expulsos de Roma pelo Imperador Cláudio.
A primeira carta aos Coríntios foi escrita à Igreja aí pelos anos 56-57 A.D., de Éfeso, tendo como objetivo principal dar respostas a vários problemas que os crentes de Corinto haviam submetido às decisões do apóstolo.
Para maior conhecimento dos assuntos versados por Paulo nesta epístola, damos a seguir um breve, mas claro esboço dessa carta, adotado pelo piedoso erudito Dr. Robertson:
Introdução - 1:1-9.
(1) A divisão na igreja - 1:10; 4:21.
(2) As péssimas práticas dos membros da igreja condenadas - caps. 5 e 6.
(3) Questões relativas ao casamento - cap. 7.
(4) Carnes oferecidas aos ídolos - caps. 8 a 10.
(5) Alguns abusos no culto público - caps. 11 a 14.
a) O toucado de homens e mulheres na igreja -11.1-16.
b) Comportamento na ocasião da ceia do Senhor -11:17-34.
c) O orgulho e a inveja em comparação com os dons brilhantes - caps. 12 a 14.
(6) Erros concernentes à ressurreição, corrigidos, e a doutrina da mesma explicada - cap. 15.
(7) Vários assuntos práticos e pessoais -16.1-18.
Saudações e despedidas -16. 18-24.
1. O AMOR (1 Coríntios 13)
1. A vida sem amor é vazia.
(1) A conquista sem o amor é vã. Faz com que o cobiçado poder da oratória em muitas línguas, embora o que o conseguisse excedesse a todos na elevação do pensamento, na elegância do estilo e na eficiência da dicção, não passasse de um ruído sem valor algum.
(2) Os dons sem amor não têm valia. Tornam inútil o mais alto poder interpretativo, a penetração enigmática, o conhecimento variado e até a fé que opera maravilhas.
(3) A beneficência sem o amor para nada aproveita. Em vão fará alguém o maior sacrifício a ponto de se despojar das suas riquezas pelos pobres e sofrer o martírio por um princípio, se for inspirado por um falso orgulho, por uma glória pessoal ou pela esperança mal dirigida ao invés de pelo amor a Deus e aos homens.
2. A vida de amor resplende no espírito e no serviço.
(1) Sua caridade é fundamental. Negativamente, inspira clemência para com as falhas de outrem e sofrimento paciente para com as ofensas deles. Positivamente, é plena de bem praticado aos outros.
(2) Seu contentamento é belo, pois não conhece nem a inveja nem o ciúme.
(3) Sua humildade compreende um quadro de virtudes gêmeas: não se gloria de si mesma e nada a pode impelir a isso; não é nunca descortês aos outros e não exige tudo a que tem direito; domina o mau gênio e na sua benignidade faz todas as concessões possíveis; não se compraz com a tagarelice, mas regozija-se com a proclamação e progresso da verdade; vai ao encontro da dificuldade com paciência, da descrença com amável confiança, do desespero com a esperança, do desastre com perseverança.
(4) Sua interminabilidade está em contraste palpitante com os dons e graças temporários, a saber: o poder e cumprimento de profecias, o dom de línguas e as verdadeiras formas de linguagem; e o próprio conhecimento que, aqui mesmo na terra, é substituído por outro ainda mais elevado e na eternidade pelo conhecimento mais sublimado possível.
3. A vida mais ampla coroa e continua a vida de amor.
(1) Será uma vida perfeita. Nosso melhor trabalho e mais altos feitos são apenas fragmentários, imperfeitos e isolados. Mas o perfeito há de vir; o amor, então, completado na alma liberta, atingirá a mais alta medida da sua doçura e glória.
O cristão aqui é como uma criança; mas lá será um homem. Agora, olha no espelho e vê-se a si mesmo em reflexos obscuros; mas, então, terá uma visão desempanada, de como quem vê face a face, conhecendo como de todos é conhecido.
(2) Será uma vida permanente. As três graças sobrevivendo ao choque e à mudança pela morte, são imperecíveis, e se expandirão para sempre na bem-aventurança da glória. E a maior delas é o amor, pois é a soma de todas as virtudes (Moore).
2. AMOR PRÁTICO (1 Coríntios 10)
Neste capítulo Paulo discute com clareza várias dúvidas que, certamente, lhe foram propostas, com o desejo de solução, pelos crentes corintienses.
Estas questões versavam sobre se era lícito aos crentes assistir, a convite de amigos gentios pagãos, nos seus templos, às suas festas, comendo das iguarias aí servidas; se era lícito aos crentes adquirir nos mercados públicos carnes que eram antes sacrificadas aos ídolos pagãos por seus cultuadores; se, visitando os lares dos pagãos, era lícito aos crentes aceitar iguarias deles, sacrificadas também aos ídolos de seus cultos.
Como se vê, tratava-se do uso reto da liberdade cristã. Havia crentes que se ofendiam com quaisquer práticas pagãs, por mais inocentes ou neutras que fossem; outros, ao contrário, julgavam isto pura questão secundária, visto que os ídolos pagãos não existiam de fato nem eram deuses.
Estas duas correntes agitavam a Igreja. E Paulo, agora, dá os princípios básicos com que deviam todos orientar a sua liberdade cristã e a sua conduta perante os pagãos e seus costumes.
Na primeira parte do cap. 10 (1-22) Paulo insiste no perigo de caírem na apostasia, abusando da nova liberdade dos seus ricos dons e bênçãos dados por Deus, por isso que a ligação e a amizade com os pagãos e suas práticas tendiam a tentá-los a cair nos erros deles.
Assim, mostra como, embora ricos de dons e de bênçãos, os israelitas caíram, apostataram e foram condenados por Deus (10:1-13). Evidencia, a seguir, a necessidade de fugirem da idolatria pagã.
Qualquer aliança com os pagãos era aplauso à crença deles, como a aliança dos crentes na ceia implicava aceitação destes na sua conduta religiosa (10.14-19). O que os pagãos sacrificam não é a ídolos, diz o apóstolo, mas a demônios, e os crentes não podiam concordar com tão horrível condição de fé (10:20-22).
Chegando à segunda parte, cap. (10:23-33), Paulo estabelece com nitidez os princípios que, mesmo na hipótese de serem secundárias e inocentes as relações com os pagãos nos seus mercados públicos, deviam orientar os crentes.
Assim, o apóstolo dava golpes de morte às dúvidas dos crentes e anulava as duas correntes de opinião suscitadas entre eles. Estes princípios são os mesmos para nós, hoje, e têm a mesma força, extensão e valor quanto tinham na época apostólica e nas circunstâncias de seus dias.
Que princípio estabeleceu Paulo para estes casos tidos como admissíveis e secundários? Estes:
1º - O princípio da edificação espiritual, visando o bem de cada um e de todos ao mesmo tempo (10:23-24).
O sentido do v.23: "todas as cousas são lícitas" - não é que tudo neste mundo é lícito, porque isso não é exato; e o mesmo Paulo, um pouco antes, já havia vedado a prática dos costumes idolátricos como ilícitos de origem (10:14-22).
O sentido está dependendo do contexto. Paulo está, no capítulo, analisando as duas correntes da época, e estudando-as. Tendo concordado que qualquer aliança consciente com os pagãos nos seus costumes idolátricos era em si apoio à idolatria, Paulo entra na hipótese de que tais alianças eram lícitas, inocentes, secundárias.
E é este o ponto aqui: "Todas as cousas" referem-se às relações com os pagãos; e "são lícitas", para admitir a hipótese só para discuti-las.
Paulo, então, fixa o princípio invulnerável da edificação cristã. É conveniente e é edificante essa aliança com os pagãos? pergunta. Tal princípio deve nortear-nos também nos problemas mal definidos da conduta cristã em qualquer tempo.
2º - O segundo princípio estabelecido foi a candura da consciência visando só e em tudo a glória de Deus (10:25-31).
Ao crente não fica bem estar bisbilhotando problemas nem intrigas de opiniões. Se for à casa de alguém e aí tiver de tomar refeições, receba o que a cordialidade fraternal de outrem, mesmo pago, lhe oferte, sem entrar em pesquisas religiosas.
Mas, tendo ciência de que alguém se escandaliza vendo-o à mesa do pagão e comendo suas iguarias dadas a ídolos, evite então de usá-las, não só para a glória de Deus, mas para evitar a amargura da consciência sincera de outrem.
Por exemplo, uma pessoa do mundo, que é dada ao jogo, oferece boa oferta à igreja. Pode esta recebê-la? Sim, se o ofertante ou alguém não dissera origem do dinheiro ofertado. Isto é com o doador, diante de Deus.
Mas se o doador mesmo ou outrem tiver escrúpulos e revelar à igreja que o dinheiro foi ganho ilicitamente na banca do jogo, já a Igreja não deve nem pode receber a oferta.
3º - O terceiro princípio é o de tudo fazer visando ao proveito de outrem, seja crente ou não, com a intenção de salvar a todos (10.32-33).
Assim, qualquer prática, mesmo tida como secundária e inocente, que ferir o senso de terceiro, escandaliza-lo, servindo-lhe de tropeço espiritual, deve ser evitada em absoluto.
Por exemplo, há crentes que acham não haver mal em irem assistir ao futebol no dia de domingo. Admita-se; mas o crente não deve ir, porque seu exemplo vai servir de tropeço a muitos outros e porque não glorifica a Deus com semelhante hábito.
O amor cristão é, pois, um refletor poderoso, que lança luzes no caminho da conduta dos filhos de Deus. Por amor a Deus e ao próximo, renunciam-se privilégios, prazeres, coisas em si inocentes. É uma honra fazê-lo.
A religião boa é a que leva a cruz com prazer, para honra e glória do Senhor e o bem dos outros.
3. PRÁTICA
1. Todos os dons são grandes. Mas, o amor é o dom máximo.
2. O amor não tem lei, porque o amor é a consumação da lei.
3. "Não amemos de palavras nem de língua, mas de fato e de verdade".
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
