Atos 9:21
Não é este o que exterminava... aos que invocavam o nome de Jesus?
O verbo exterminar é o mesmo usado para um exército que saqueia uma cidade.
Assim como um exército entra numa cidade, a destrói, matando a grandes e a pequenos, com cruel brutalidade, deitando-a ao pó da terra, em total assolação, assim Saulo procurava destruir a Igreja de Cristo.
1. DOLOROSAS RECORDAÇÕES
Paulo, em suas cartas, revela como a lembrança dos dias de perseguição aos cristãos ainda apunhalava sua consciência. Ele escreve aos Gálatas:
Gálatas 1:13, 23
...como sobremaneira perseguia eu a igreja de Deus e a devastava. Aquele que antes nos perseguia, agora prega a fé que outrora procurava destruir.
Suas palavras aos Coríntios são mui comoventes:
1 Coríntios 15:9
Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus.
Enquanto escrevia a Timóteo, novamente amargas lembranças lhe vinham à mente:
1 Timóteo 1:13
... a mim que noutro tempo era blasfemo e perseguidor e insolente.
Este último termo é por demais vívido, e significa que Saulo de Tarso se constituiu em juiz e executor da igreja cristã.
Essas lembranças emergem não só de suas cartas, mas também de suas pregações. Ao enfrentar um tumulto em Jerusalém, que queria matá-lo, ele declarou: "Persegui este Caminho até à morte, prendendo e metendo em cárceres, homens e mulheres" (At 22.4).
Em seu discurso ao rei Agripa, ele afirmou: "...A mim me parecia que muitas coisas devia eu praticar contra o nome de Jesus, o Nazareno... Encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matava... obrigando-os até a blasfemar" (At 26.9-11).
O coração de Saulo era dominado pelo ódio, fúria e amarga hostilidade contra Jesus e contra tudo quanto se achasse relacionado com o nome de Cristo.
2. POR QUE TANTO ÓDIO?
Esta pergunta é oportuna e importante: Porque Saulo de Tarso odiava de tal maneira, assim a Jesus como a seus seguidores? A resposta é dúplice:
(1) Porque Jesus reivindicava o título: "Messias de Deus."
Os judeus sempre se julgaram o povo escolhido de Deus, os possuidores de uma posição extremamente privilegiada e singular em relação a Deus.
Sonhavam com o dia quando seriam o maior povo do mundo. Mas sua história não parecia conduzi-los a esse grande dia: sujeitos aos babilônios, aos persas, aos gregos e agora aos romanos.
Eram tão poucos e seu território tão pequeno que, humanamente falando, parecia impossível que seu sonho de grandeza se concretizasse.
No entanto, eles criam nas promessas divinas, por meio dos profetas antigos, de que um dia surgiria no cenário da história um personagem especial para libertá-los e conduzi-los por um novo e perene caminho, sendo o seu Chefe.
Messias (na língua hebraica) e Cristo (na língua grega) são títulos equivalentes a Ungido (Sl 2.2), pertinentes à mesma pessoa Jesus Cristo. Os reis, ao serem coroados, eram ungidos com óleo; assim, Messias ou Cristo significa "Grande Rei de Deus".
Havia diferentes ideias quanto ao que esse Grande Rei faria quando viesse. Alguns pensavam que ele viria como herói conquistador, a guiar os exércitos judeus pelo mundo fora, sujeitando primeiro os romanos, e a prosseguir de conquista em conquista, até subjugar o mundo inteiro.
Às vezes isto envolvia total destruição dos gentios de todo o mundo; às vezes envolvia a redução dos gentios à posição de escravos dos judeus; às vezes envolvia a conversão do mundo gentílico ao amor de Deus. De qualquer forma, este Rei-Messias seria o poderoso conquistador. E por que, pois, este Jesus - este pretenso Messias! - acabou seus dias numa cruz como criminoso?
Pior ainda: a lei judaica diz que este homem - Jesus -, que fora pendurado numa cruz, é "maldito de Deus" (Dt 21.23). No conceito de Saulo, a blasfêmia máxima que um homem, que acabara de ser crucificado, podia sustentar é ser ele o Filho de Deus e o Rei-Messias.
Traduzindo a ideia em termos modernos, é como apresentar um condenado, sentenciado à morte por algum crime grave e revoltante, e pedir ao povo que creia nele como o único a dizer a plena verdade universal, confiar nele como o único senhor da vida e a segui-lo como o único caminho da eternidade feliz.
Para Saulo, a base toda do Cristianismo não passava de uma crassa mentira perniciosa e blasfema, a qual devia ser eliminada tão completa e rapidamente quanto possível.
(2) Porque, se Jesus estava certo quanto a Deus e à verdadeira vida, então Saulo e os demais ortodoxos estavam errados.
As bases do pensamento judaico ortodoxo era que se o homem guardasse a Lei, estaria então agradando a Deus.
Se orasse todo dia, às seis, às nove, ao meio - dia, às quinze e às dezoito horas; se observasse a lei do sábado com todos os seus triviais detalhes; se lavasse suas mãos do modo correto e no tempo certo; se desse a Deus os dízimos das menores ervas da horta; se não tivesse nada a ver com aqueles que não guardassem estas leis - então tal pessoa estaria agradando a Deus.
Ora, Jesus quebrou estas leis cerimoniais de todas as maneiras imagináveis. Permitiu que seus discípulos, no sábado, debulhassem espigas e comessem; ele mesmo curava as pessoas doentes no sábado; era amigo de pessoas indesejáveis.
Ter Jesus curado os doentes, confortado os tristes, trazido de volta as ovelhas desgarradas e ensinado o dever de se amar reciprocamente era tolice para um homem como Saulo de Tarso, cuja paixão era a Lei.
Os rabis tinham a seguinte opinião: se Israel puder guardar a Lei de maneira perfeita, pelo menos durante um dia, o Messias viria.
Ora, para quem sustentasse tal crença, Jesus não passava de um grande pecador; pior ainda, estava trazendo à nação incalculável prejuízo ao impedir a manifestação do reino de Deus, tão sonhado, o qual fora sempre motivo de muita oração e de estímulo para uma vida disciplinada, segundo os princípios da Lei.
Não se deve entender que Saulo quisesse destruir o nome de Jesus só porque pensava ser Ele mau; ele odiava a Jesus por pensar que ele, Saulo, era um homem bom diante de Deus, e que fazia corretamente tudo o que a Lei mandava.
Jesus era transgressor da Lei; Saulo era irrepreensível cumpridor da Lei. Jesus tinha que ser eliminado, bem assim seus seguidores, para que ninguém mais fosse enganado. E assim, Saulo de Tarso estaria contribuindo para o adiantamento da vinda do Messias!
3. O COMPORTAMENTO DOS PERSEGUIDOS
Saulo teve que enfrentar vítimas decididas que, ao serem presas ou ao morrerem, se comportavam de maneira singular, levando, quem sabe, Saulo a pensar: "Deve haver algo importante neste Cristianismo. Ninguém pode sofrer e morrer por uma ilusão ou uma mentira." Não temos muitos detalhes a esse respeito, a não ser na pessoa de um diácono.
Estevão é um nome grego, que quer dizer: grinalda ou coroa. Foi um dos sete diáconos eleitos pela Igreja de Jerusalém para atender aos pobres (At 6.1-7). As qualificações de Estevão (bem como dos demais) são registradas: boa reputação, cheio de fé, cheio do Espírito Santo, cheio de sabedoria, de graça e de poder (veja-se At 6.3, 5, 8, 10).
Pelo contexto, podemos acrescentar mais uma virtude muito necessária no crente: coragem, ousadia, intrepidez. Depois de eleito, empreendeu um amplo trabalho de evangelização, revelando-se grande pregador e profundo conhecedor do Velho Testamento.
A sua atividade foi de um dinamismo tal que provocou forte impacto entre os judeus de fala grega. Foi preso e julgado. A acusação que pesava sobre ele era a de blasfemar contra Moisés e contra Deus, bem como a de dizer que Jesus havia de destruir o templo e mudar as tradições mosaicas (vv. 11-14).
A argumentação de Estevão é uma das mais belas da Bíblia. O comportamento e as palavras deste grande homem foram tão fortes que tiveram de lançar mão de dois expedientes: contratar testemunhas falsas e matá-lo. Antes, porém, é digno de nota o seguinte:
(1) Seu Aspecto Físico.
"Todos os que estavam assentados no Sinédrio, fitando os olhos em Estevão, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo" (6.15). O ímpio, ao ter uma visão como esta, terá que decidir entre, pelo menos, três atitudes: a) fugir; b) crer; c) destruir (7.54-60). E claro que os inimigos decidiram pela terceira.
(2) Sua Acusação (7.51-53).
Ele acusou os judeus de: a) ter coração de pedra; b) resistir ao Espírito Santo; c) imitar seus pais, assassinos dos santos; d) matar a nosso Senhor; e) transgredir a essência da Lei.
(3) Sua Execução (7.54-60).
a) Ele declarou: "Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé à destra de Deus." Isto foi forte demais para aqueles homens de coração endurecido. Estevão associa Jesus com Deus Pai, um dos pontos que, para os judeus, eram uma grande blasfêmia.
b) A oração de Estevão, pedindo que Deus recebesse seu espírito (v.59), quando estava sendo executado como blasfemo e herege.
c) A oração de Estevão, pedindo que Deus não levasse em conta aquele ato de crueldade, perdoando seus algozes, mostrando sua superioridade moral e espiritual. Era tudo muito estranho para aquela geração, e para Saulo de Tarso.
O capítulo 8 começa com a frase: "E Saulo consentia na sua morte." Esta frase, em si mesma, não revela que Saulo estivesse presente. Ele poderia dar ordens à distância. Porém, no v. 58 do capítulo 7, temos outra frase mais reveladora: "As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem, chamado Saulo."
Ele assistira tudo! Vira o Aspecto Angélico de Estevão; ouvira sua tese, sua acusação e suas orações, para estar com Jesus e pelo seus algozes. É impossível que Saulo não tenha se impressionado com o testemunho deste santo.
Autor: REV. VALTER GRACIANO MARTINS
