Atos 17.1-14
Deixando Lucas em Filipos, Paulo, Silas e Timóteo prosseguiram o seu caminho para o oeste, pela grande estrada romana conhecida por Via Inácia.
Depois de viajarem cerca de 53 km, chegaram à cidade de Anfípolis, situada perto da foz do rio Estrimão.
Continuando por mais uns 48 km, chegaram a Apolônia, que atravessaram, chegando ao objetivo da sua viagem, Tessalônica, metrópole da Macedônia, 59 km de Apolônia e cerca de 160 de Filipos.
1. EM TESSALÔNICA
Chegando a Tessalônica com os auxiliares, Silas e Timóteo, Paulo, como costumava praticar, procurou descobrir se havia na cidade alguma sinagoga ou ponto de pregação.
Achando uma congregação organizada, dos judeus, iniciou com vigor e com muita esperança o trabalho em Tessalônica (I Ts 1.4-10; 2.7-12).
Durante um mês mais ou menos, em cada sábado, que era o dia de guarda e de folga dos judeus, o apóstolo expunha aos patrícios, com a Escritura em mãos, as doutrinas cristãs, especialmente as que diziam respeito às profecias messiânicas, procurando documentar que Jesus, o Crucificado em Jerusalém, era o Cristo, o Rei e Salvador de seu povo e de todos os que nele creem.
Como fruto dessa pregação fiel, creram alguns dos judeus, os quais se uniram aos missionários, bem como grande número de prosélitos gregos e não poucas mulheres de distinção. Organizou-se uma igreja como um princípio esplêndido de trabalho cristão numa grande cidade.
A causa, porém, não havia de prosperar sem perseguição. Os judeus que não quiseram crer empregaram, na sua inveja, um grupo de vagabundos que, levantando em pouco tempo um grande motim, e com enorme algazarra, cercaram a casa de Jason, hospedeiro de Paulo e Silas, a quem esperava maltratar e talvez até matar.
Não encontrando lá os missionários, arrastaram Jason, a fim de apresentá-lo às autoridades, gritando a sua acusação (Leia-se At 17.6,7).
Se bem que o povo e seus governadores achassem grave essa acusação, nada fizeram senão exigir satisfação de Jason, que era sem dúvida cidadão respeitado e rico, bem como dos seus companheiros, sendo depois postos em liberdade.
Diante de tal excitação popular, tornou-se impossível a Paulo e Silas continuar o trabalho em Tessalônica. Os irmãos, pois, os enviaram de noite a outro campo de trabalho mais favorável.
2. EM BERÉIA
Assim, após uma excursão forçada de cerca de 96 Km, chegaram a Beréia, tendo vindo em outro dia também Timóteo (17:14).
A cidade de Beréia ficava em posição geográfica invejável, perto das montanhas Citanes, que ficavam em frente ao belo vale de Haliacmão.
Os judeus aqui eram também em grande número, embora os gentios ultrapassassem a eles, o que era natural. Paulo foi logo à sinagoga e iniciou sua pregação com êxito magnífico.
Os bereanos excederam os tessalonicenses na recepção generosa da mensagem apostólica, examinando, porém, por si mesmos, as Escrituras, diariamente, para ver se chegavam à mesma conclusão que os missionários.
Como resultado da fiel pregação de Paulo e Silas e do avivamento pelo estudo bíblico, houve muitas profissões de fé entre os judeus. Acharam-se também mulheres gregas distintas e muitos homens.
Quando souberam em Tessalônica que Paulo e Silas estavam trabalhando em Beréia, aliás com bastante sucesso, foi para lá uma delegação de judeus tessalonicenses com o fim de excitar o povo para destruir, se possível, o trabalho dos missionários.
Embora não houvesse tanta violência como em Tessalônica ou Filipos, não deixaram, contudo, de ter êxito na sua oposição, que parece ter sido dirigida principalmente contra Paulo.
Este, enviado pelos irmãos bereanos, partiu dali para a costa, escoltado por amigos, embarcando para Atenas, numa jornada de uns 38 Km de Beréia.
Enquanto isso, Silas e Timóteo permaneceram em Beréia para edificar a igreja ali, até que os irmãos que foram com Paulo a Atenas voltaram com uma mensagem do apóstolo para que se reunissem com ele o mais depressa possível naquela cidade.
3. UM PREGADOR MODELAR
Tanto em Tessalônica quanto em Beréia, como em todas as regiões onde teve a bênção de anunciar as verdades de nosso Senhor, o apóstolo e missionário Paulo deixou sempre o exemplo modelar do verdadeiro pastor, do genuíno evangelista, do dedicado e sábio pregoeiro da Palavra Santa.
Antes de mais nada, o grande campeão só conhecia um livro de valor e de autoridade - as Escrituras, na ocasião o Antigo Testamento. Era neste volume, e só nele, que Paulo baseava a sua pregação.
A cultura do apóstolo nas ciências, letras e artes de sua época era posta ao serviço de Deus, mas à luz da Palavra, retificada por ela, dirigida pela Revelação escrita.
Paulo cria na Bíblia toda, sem excetuar parte alguma. As profecias eram para ele a história escrita de antemão, e era nestes tópicos maravilhosos que ele firmava seu ensino sobre Cristo, sua encarnação, vida, obra e exaltação como Filho de Deus e Salvador.
Seja isto exemplo às gerações modernas dos pregoeiros da Palavra, a fim de que aprendam com o gigante do apostolado cristão a não andar à roda de doutrina e doutrinadores que ignoram a Palavra.
Ainda é a Bíblia, e será até ao fim, o nosso livro de regra, de prática e de fé.
Paulo também sabia descobrir oportunidade. Logo que chegava a um local, ia ver onde estava a igreja e o povo que, ao menos de nome, adotava a Palavra - os judeus.
Usava o tempo que estes punham de parte para seus cultos - os dias de sábado. Assim, o missionário colocava os alicerces da obra com relativa facilidade e tino, evitando, de propósito, criar divergências evitáveis entre os ouvintes.
Paulo, portanto, procurava reunir, e não dividir o povo de Deus. Jamais era seu propósito criar congregações diferentes, com princípios denominacionais diferentes, mas unir todos que cressem numa só família, na Igreja de Deus.
Outra característica linda na vida de Paulo, o pregador. Era a sua mensagem una, maciça, firme: "Cristo, o Rei e Salvador". Ele não sabia pregar outra coisa. Aliás, dissera ele, mais de uma vez, que sabia só "Cristo, e Cristo crucificado" (1 Co2.1-3).
Em Tessalônica os perseguidores, sem saber, prestavam aos apóstolos excelente testemunho, embora dessem às suas palavras sentido falso e para explorar-lhe a situação. Disseram que o apóstolo "transtornava o mundo" (virando-o de baixo para cima, é o sentido da frase), e "que dizia haver outro Soberano, o Cristo".
Realmente, o Evangelho transtorna o mundo, abala-o, vira-o todo para destruir os seus erros e pecados.
Também o Evangelho só conhece um Rei único, no mundo - o Filho de Deus. Mas, é um Rei que não vem tratar de coisas políticas e terrenas, de guerras e de diplomacias hipócritas. É um Rei espiritual de um Reino ético.
O Brasil precisa de pregadores que o "transtornem", que conclamem à Nação que Cristo salva e redime para o tempo e para a eternidade.
4. OUVINTES TÍPICOS
Aparecem nesta lição três classes de ouvintes, e cujas atitudes são perfeitamente discriminadas: os judeus descontentes, que, cheios de inveja e de ódio, "não creram" e perseguiram os missionários de modo lamentável; os nobres de Tessalônica, judeus e gentios prosélitos, que receberam a Palavra com bom coração e ficaram convertidos; e os mais nobres de Beréia que ouviram o Evangelho, examinaram as doutrinas com carinho e professaram sua fé viva no Senhor.
Podemos sintetizá-los assim:
1. Os descrentes
Ouviram a Palavra. Ficaram zangados. Promoveram grande perseguição. Atacaram os missionários. Procuraram dificultar a pregação onde estava sendo abençoada.
2. "Nobres de Tessalônica"
Ouviram a Palavra. Ficaram persuadidos da verdade. Tornaram-se crentes. Protegeram os missionários.
3. Os "mais nobres" de Beréia
Ouviram a Palavra. Examinaram as Escrituras. Receberam o Evangelho. Professaram a fé.
As palavras "mais nobres", no texto, são, literalmente: "eu-genesteroi", isto é, "bem nascidos" ou "os mais bem nascidos". Originalmente, o termo refere-se à nobreza pelo nascimento, pelo sangue, pela linhagem; mas, aqui no texto, significa antes uma qualidade moral e intelectual, um estado de alma, de coração.
Quer dizer que os bereanos foram "mais nobres" no sentido de serem mais generosos, mais cândidos, mais cordatos e mais sinceros e honestos na recepção da Palavra do que os judeus de Tessalônica. Foram, no sentido moderno, "mais liberais e distintos" no ouvirem a mensagem e em receberem-na.
A pregação da Palavra exige exame, raciocínio, juízo e pesquisa dos bons ouvintes. A fé é pelo ouvir, e o ouvir é pela Palavra revelada - único Padrão que resolve doutrinas e credos.
Os "nobres" ouvem e examinam tudo com atenção, cuidadosamente, com método, diariamente, tendo a devida coragem para aceitar e professar a verdade adquirida pelo exame feito.
5. PRÁTICA
1. A Bíblia é o livro por excelência do Cristianismo, a Bíblia lida, anunciada, examinada e crida com bom coração.
2. A recepção ou recusa da mensagem evangélica não é simples problema de índole, de temperamento, de situação geográfica, de civilização ou de cultura ou incultura de alguém ou de um povo.
É problema espiritual. Tessalônica e Beréia eram cidades que ficavam perto uma da outra; eram cidades cultas; possuíam sinagogas; os judeus, em ambas, ouviram a mesma mensagem; os pregadores eram os mesmos; usavam os mesmos métodos e dias para a pregação.
Todavia, os judeus de Tessalônica, na sua maioria absoluta, não receberam a Palavra, ao passo que os de Beréia aceitaram-na com nobreza.
3. As perseguições, com a graça de Deus, promovem a difusão do Reino divino.
Os tessalonicenses rebeldes e maus, que tentaram abafar a obra, se serviram do instrumento a uma maior e melhor expansão da causa, que deitou raízes permanentes em Beréia.
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
