Atos 28.16-22
É interessante ligar a lição de hoje com os fatos que ocorreram com Paulo entre sua estadia em Cesaréia, preso, e sua vinda para Roma, a fim de ser julgado por César, para quem apelara. Segundo as melhores cronologias, os acontecimentos foram estes: Paulo saiu de Cesaréia navegando para o norte até Sidônia.
Seguiram daqui a leste de Chipre, e, costeando a Ásia Menor, chegaram em Mira e Lícia, onde tomaram outra embarcação. Em seguida, aportaram em Cnido; daqui foram até Creta, tendo alcançado Bons Portos, onde o navio ficou detido à espera de ventos favoráveis. Em seguida, procuraram o rumo de Fenice.
O navio sofreu muito com os ventos contrários, dando-se o naufrágio perto da ilha de Malta, onde conseguiram ficar salvos os tripulantes e passageiros. Estavam já agora no Mar Mediterrâneo, 37 léguas do ponto mais meridional da Itália, a sudoeste.
Em Malta ficaram durante três meses. Finalmente, puderam seguir de novo rumo da grande cidade de Roma. Viajaram numa nova e boa embarcação. Passaram por Sicusa, capital da Sicília, daí foram a Rhégio, primeira terra italiana que Paulo tocava, e, pela costa, aportaram em Puteole, porto principal da Itália, ao sul de Roma. Aqui, irmãos encontraram-se com o apóstolo.
Enfim, agora por terra, Paulo chegou a Roma. Nero era o Imperador reinante. Sêneca era, também, nessa época, o maior e o mais culto estadista romano, que um ano depois abandonava a vida pública. Paulo chegou à "cidade eterna" pela Via Apia, tendo atravessado a Via Sacra, a Rua do Fórum, perto do célebre Monte Capitolino.
À esquerda deste, achava-se o vasto palácio, que era a "Casa de César" (Fp 4.22). Provavelmente foi aqui onde Paulo teve o fim de sua acidentada excursão, quando o centurião entregou os presos ao comandante-chefe dos exércitos romanos.
Depois de tantas peripécias, surpresas e providências, cumpria-se o ideal de Paulo e realizavam-se as promessas divinas. O maior missionário cristão estava em Roma, perante o Imperador, no coração do mundo.
1. A RESIDÊNCIA EM ROMA
Roma era o centro do império, que se estendia do oceano Atlântico ao oeste através da Europa, e além até ao rio Eufrates, na Ásia. Os limites ao norte eram os rios Rheno e Danúbio, e ao sul, o deserto do Saara, as cataratas do Nilo e o deserto da Arábia.
A população do império, no tempo de Paulo, era de 120.000.000 de habitantes. Tinha César domínio sobre quase o mundo todo, então conhecido; e havia preparado o caminho do Senhor por um governo forte, pelas excelentes estradas de rodagem que ligavam entre si todas as partes do vasto império, pela unidade de língua, pela introdução de costumes estrangeiros e uma cultura elevada entre as nações.
A cidade de Roma nessa época estava no auge de sua glória. Augusto costumava dizer que achara uma cidade de tijolos e deixara uma de mármore. O estado moral do povo era péssimo. Por toda parte imperavam os vícios, provenientes do luxo que fora introduzido de muitas nações conquistadas.
Temos o quadro vivo desse atoleiro de corrupção e foco de morte espiritual no primeiro capítulo da Epístola de Paulo aos Romanos.
O imperador Nero estava muito ocupado com os seus vícios e excessos para fazer caso do preso ou das acusações trazidas contra ele pelos judeus; e passados dois anos, em que lhe foi permitido pregar o Evangelho aos guardas e a todos quantos o vieram ver, Paulo foi posto em liberdade.
Durante seu primeiro encarceramento, Paulo teve bastante liberdade, embora guardado por um soldado e provavelmente prendido a ele, mas residia em casa que alugara, e pregava o Evangelho a quantos vinham ouvi-lo. Paulo teve por companheiros em Roma os cristãos que se achavam aí: Timóteo, Epafras, Onésimo, Marcos, Lucas e outros que ministraram às suas necessidades.
2. A CONFERÊNCIA DE PAULO (vv. 17-29)
"Passados três dias, convocou os principais dos judeus". Paulo queria expor a sua própria posição a seus patrícios, a fim de pregar-lhes Cristo e a salvação mediante a fé.
Ele declarou então que, embora preso, nada fizera contra sua nação, nem contra os costumes de seus pais; que os romanos, depois de tê-lo examinado, quiseram soltá-lo, não havendo achado nele crime algum; que tinha apelado para César a fim de salvar a vida e não para acusar em nada o seu povo; que estava preso porque aceitara a Jesus como o Messias prometido à sua nação.
Eles responderam que não tinham recebido nenhuma carta que falasse de Paulo, nem tinham visto nenhum irmão de Jerusalém. É fácil entender isto, porque Paulo fora enviado logo depois de seu apelo, e os Judeus em Jerusalém não tiveram tempo de informar os irmãos em Roma sobre o seu caso.
Os judeus de Roma quiseram ouvir o que Paulo "sentia". Sabiam que "esta seita" em toda parte era impugnada. A palavra seita é, aqui, heresia e quer dizer partido; e quando os judeus de Roma aplicavam o termo aos cristãos, o sentido é que os consideravam como uma divisão do judaísmo, como os fariseus, os saduceus e os essênios.
Sem dúvida, os judeus de Roma sabiam alguma coisa do Cristianismo. Alguns de Roma estiveram presentes em Jerusalém no dia de Pentecoste e levaram o Evangelho a Roma. Havia uma igreja cristã ali.
Os judeus que vieram ter com Paulo falaram com certas reservas e em palavras conciliadoras, dizendo que desejavam saber mais a respeito do Caminho.
Tendo, pois, marcado com Paulo o dia da conferência, muitos vieram ouvir as suas razões. Vieram à sua morada (vv. 23-30). A estes, Paulo expôs todas as doutrinas da religião de Jesus Cristo, dando testemunho do Reino de Deus. Já lhes havia declarado que fora pela esperança messiânica de Israel que se achava preso. Agora, mostra-lhes que tudo fora cumprido em Jesus Cristo.
Ele tirou o seu argumento da Lei de Moisés e dos profetas, as Escrituras dos judeus. Falou das coisas que Félix e Festo não quiseram ouvir; e alguns dos seus auditórios ficaram impressionados e creram no que ouviram.
Outros, porém, não creram, e a estes, ao saírem, Paulo falou as palavras do profeta Isaías, 6:9. Também este mesmo conceito citou-o mais de uma vez nosso Senhor contra os judeus incrédulos (Mt 13:4; Mc 4:10; Lc 8:10).
"Seja-vos, pois, notório, que aos gentios é enviada esta salvação de Deus, e eles a ouvirão, como vós tendes ouvido". Paulo cumprira a obrigação que Jesus lhe impusera de começar em Jerusalém. Pregou primeiramente aos Judeus em Roma, o centro do mundo, e agora queria que os gentios ouvissem a mensagem de paz e salvação.
As palavras, acima citadas, não querem dizer que Deus queria que os judeus não cressem e se salvassem, mas que eles próprios endureceram os seus corações e fecharam os olhos, de sorte a não poderem sentir o amor de Deus nem ver a luz benéfica do Evangelho de seu Filho.
Eles caminhavam obstinadamente para a perdição. Menos de dez anos depois, Jerusalém foi completamente destruída, o templo derrubado e os judeus não foram mais nação. Tudo isso podiam ter evitado, podiam ter constituído o verdadeiro Reino de Deus, o centro da luz e da salvação para o mundo. Mas, não quiseram.
3. SEU TRABALHO EM ROMA (vv. 30-31)
Dois anos inteiros permaneceu Paulo nos aposentos que alugara, pregando o Reino da Vida a todos os que vinham ver e ouvir. Pregava e ensinava as doutrinas do Cristianismo com toda a liberdade e confiança.
Paulo, diz Stalker, "sempre pensava de Roma como um general vencedor considera a cidadela central do país que está ganhando". Paulo se empenha na conquista do mundo para Cristo, e Roma foi o último forte que esperava vencer em nome de seu Mestre. E, conseguiu conquistá-lo.
Quatro das Epístolas de Paulo foram escritas durante estes dois anos em Roma: aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses e a carta a Filemon. A escritura destas Epístolas foi parte importante dos trabalhos de Paulo em Roma...
"A Epístola aos Efésios", diz o Professor Stalker, "é talvez o mais profundo e o mais sublime livro do mundo, e foi na prisão que Paulo achou vagar para ir até à profundidade das verdades expostas na Epístola, donde brotam rios que ainda estão alegrando a cidade de Deus".
4. LIÇÕES PRÁTICAS
1. Quando Deus determina algum plano na vida de seus servos, realiza-o sem dúvida, sejam quais forem os embaraços que tendem a dificultá-lo.
2. O Evangelho é uma doutrina eficaz e poderosa para todos os corações, seja nos navios, ou em água ou em terra, seja em ilhas e em continentes, seja em Malta ou em Roma.
3. O que importa na experiência do crente não é o lugar, ou estar preso ou livre, ou ser rico ou pobre. É ser cada um fiel ao Senhor seu Rei.
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
