Paulo contra a deusa Diana: A fúria que abalou Éfeso - Estudo Bíblico sobre o apóstolo Paulo


Atos 19.23-41

Partindo da cidade de Antioquia da Síria, mais ou menos em 53-54 A.D., já na sua terceira grande excursão missionária, o apóstolo Paulo resolveu visitar as igrejas da Galácia e da Frigia, prosseguindo até chegar a Éfeso, importante cidade à margem do rio Caístro, chamada o "primeiro olho da Ásia".

Era o principal centro comercial da Ásia do ocidente, gozando o privilégio de ser a capital da província. Éfeso era uma fortaleza viva do paganismo, onde medravam todas as superstições. 

Era particularmente afamada pela prática de artes mágicas e pelo célebre culto da mitológica deusa Diana, uma das doze divindades supremas dos pagãos.

Tinha o nome de Luna (Lua), no céu, de Diana, na terra, e de Hecate, nos infernos. Era adorada como a "Nossa Senhora" do povo, com vários nomes, de Lucina, Prosérpina, Trívia, e assim por diante.

Ora, era representada vestida de caçadora, com um crescente na cabeça e um arco de caça em mãos; ora, como uma dama de três faces, trazendo instrumentos de flagelação, e, ainda, como uma boa mãe, cheia de seios maternais, símbolo de suas bênçãos fecundas, na opinião dos seus adoradores.

O templo de Diana estava situado no fundo da baía. Adornado com os mais ricos tesouros de todas as nações, e exibindo um esplendor arquitetônico verdadeiramente assombroso, era considerado uma das sete maravilhas do mundo de então.

Éfeso, politicamente, era uma das cidades livres do Império Romano. O povo amava o luxo e a dissolução. Mas entre eles Paulo passou três dos mais ricos anos de seu ministério.

Noite e dia pregou ele, com lágrimas, o Evangelho em casas particulares, na sinagoga e na escola de Tirano. Já próximo do fim de um ministério fiel e eficiente nesse lugar, talvez no ano 57, o Apóstolo encontrou oposição tenaz e tumultuosa.

Mas, assim que serenou a tempestade, partiu para a Macedônia em prosseguimento dos seus planos na propagação do Evangelho.

1. O TUMULTO EM ÉFESO

O ministério promissor de Paulo na grande cidade, onde coisas impressionantes estavam ocorrendo (19.20), despertou tremenda perseguição, degenerada em furioso tumulto, por parte dos fabricantes de santos e verônicas e medalhas e santuários em miniatura, da deusa da cidade - a padroeira local, Diana.

Os joalheiros e ourives foram os originadores de tudo, tendo à frente o chefe deles, segundo parece, de nome Demétrio.

Com o êxito da pregação do Evangelho na cidade, era visível e notável o decrescimento da idolatria. Em consequência do ministério de Paulo, o negócio da fabricação de ídolos em Éfeso estava declinando sensivelmente.

Os ourives da cidade notaram a queda no mercado de nichos de prata, e determinaram livrar-se de Paulo.

Demétrio, o presidente do Grêmio, convocou uma reunião quando astuciosamente advertiu que a fonte de sua prosperidade estava sendo paralisada por Paulo, cujo trabalho tendia a fazer com que o templo perdesse completamente a sua fama e a roubar a grande deusa de toda a sua glória. A multidão, indignada, gritava: "Grande é a Diana dos efésios!"

A explosão de fúria colocou a cidade em absoluta confusão. Correndo para as ruas, e talvez com o auxílio da polícia, agarraram dois companheiros de viagem de Paulo, Gaio e Aristarco da Macedônia, e lá se foram para o anfiteatro, onde se acotovelavam com grande algazarra, dispostos a desarraigar de Éfeso o Cristianismo e o seu apóstolo.

Sabendo do que se passava, Paulo procurou entrar no anfiteatro e aparecer diante do povo, mas foi impedido pelos irmãos e por alguns oficiais amigos, os quais lhe rogaram que não corresse tal risco.

Enquanto isso se passava, a confusão era tamanha no anfiteatro que ninguém se entendia, porque uns gritavam uma coisa e outros, outra, e a maior parte não sabia por que estava ali.

Depois de algum tempo, os judeus, procurando eximir-se de qualquer responsabilidade que lhes pudesse ser atribuída pelo que Paulo fizera, apresentaram Alexandre, um dos membros do seu partido, para falar à multidão. Mas, quando viram que ele era judeu, rebentou novamente o tumulto, e durante duas horas não fizeram outra coisa senão gritar: "Grande é a Diana dos efésios!"

O escrivão da cidade, finalmente, conseguiu aquietar um pouco a multidão para se fazer ouvir. Seu discurso foi judicioso e obteve bom êxito. Garantiu ele a lealdade dos efésios para com a sua deusa, do que ninguém duvidava, e por conseguinte não deviam ficar excitados por causa disso.

Aqueles dois homens que foram arrastados ao anfiteatro não são acusados de sacrilégios nem de blasfemadores de Diana; e se contra eles Demétrio e os seus companheiros de ofício têm alguma acusação mais específica, que o façam por meio dos tribunais, legalmente.

Ou, se o povo está interessado em outras questões, pode tudo decidir por meio de assembleias regulares. Um concurso como este, sem causa, certamente poria em perigo os direitos e liberdades dos efésios, se fosse levado à atenção das autoridades de Roma.

Dispersou-se assim a multidão, acalmados os ânimos, sem deixar cair sobre Paulo o golpe que lhe prepararam.

2. CRISTO, OU O QUÊ?...

É evidente, no tremendo conflito suscitado por Demétrio e seus sequazes e colegas, contra Paulo, o símbolo inegável do constante e histórico conflito que há entre o Cristo de Deus, com a sua doutrina perfeita, e os interesses subalternos dos homens, na terra.

Não é possível jamais consorciar-se o Evangelho com as Dianas e os ourives e joalheiros das coisas erradas. Ou Cristo, só Cristo, com todas as gloriosas exigências de sua pureza e de sua religião, ou o Mundo, o Dinheiro, a Religião falsa. Os dois juntos, jamais!

Demétrio é o tipo clássico do religioso nominal, negocista, aproveitador das crenças populares e das superstições da gente ignorante e de má instrução religiosa. Demétrio ficou zangado e furioso, e suscitou uma injusta revolução só quando viu que as doutrinas de Paulo estavam deitando abaixo o seu comércio ilícito e avarento.

Mas o Evangelho não fazia mal aos negócios direitos e legítimos, à vida normal da cidade. Se atacava agora os interesses de Demétrio, é que seu negócio era mau, era errado, era pecaminoso.

O Evangelho não podia concordar com aquela exploração da ignorância do povo. A riqueza dos joalheiros de Éfeso era mal adquirida. A sua arte, por mais completa que fosse, e perfeita na sua técnica, era uma arte de demônios. Trazia consequências funestas à cidade e ao povo todo.

É que entre Paulo e Demétrio havia diferença fundamental dos alvos em vista. Aquele procurava o bem das almas, a espiritualidade das massas, a pureza da fé e dos costumes.

Este visava manter a superstição, para garantir seu lucro, seu interesse, seu bolso, sua bolsa. E qual valeria mais para o mundo? A resposta não é nem mesmo discutível. Entre luz e trevas, aquela é sempre preferível.

Paulo ensinava uma religião de altruísmo. Demétrio explorava a crença do egoísmo e da avareza cruel. Paulo pregava a fraternidade que produz sinceridade. Demétrio, ao contrário, negociava com o destino de seus clientes.

Para Paulo, o importante era o caráter renascido em Cristo. Mas, para Demétrio, era o dinheiro o móvel de tudo. O dinheiro é inferior ao caráter. Sempre foi e será assim eternamente.

Paulo defendia o culto de Deus em espírito e em verdade. Os adoradores de Diana defendiam o culto de um ídolo que os capacitava a prosperar no seu ofício. Há ainda hoje, no nosso meio, ambas as qualidades de adoradores.

O trabalho de Paulo, conquistando os homens para Cristo, arrancava-os também das garras da cobiça e da escravidão a Mamon. Os ourives de Éfeso organizaram-se contra a interferência no seu ofício. Trabalhavam pelo dinheiro que queriam acumular. Paulo trabalhava pelos homens a fim de que eles se salvassem.

Paulo espalhava o Evangelho da salvação e do serviço, porque amava a Deus e aos homens. Os ourives engrandeciam Diana, porque amavam o dinheiro.

O Evangelho de Cristo é o poder maior que existe neste mundo. A glória de Diana já passou há muitos séculos. Vejam as pessoas que figuraram na história do motim de Éfeso. Classifiquem-nos nas relações com Deus e Mamon. É assim também nos governos hoje, uns são pelo ouro, outros por Deus.

Aplacou-se o motim. Um alvoroço nunca tem influência edificadora.

Dizem que o dinheiro é poderoso. Talvez; mas só Deus é todo-poderoso. O progresso do mundo é causado mais pelo caráter são do que pela moeda, mesmo sã.

Éfeso perdeu mais quando Paulo partiu do que quando o seu grande templo foi destruído. O Cristianismo está à frente da civilização.

3. PRÁTICA

1. O pecado embrutece o homem e insensibiliza o seu coração.

Evidentemente, essas são as duas mais dolorosas consequências do pecado. Nesse estado de embrutecimento, o homem não vê a Deus nem o teme; chafurda-se na lama das abominações do mundo. Com a insensibilidade da alma, não sente os seus erros nem percebe a profundeza do abismo em que se encontra.

2. Tudo quanto os homens podem investir sobre religião, para beneficiar os pecadores, não vai além de crendices.

A passagem de nossa lição deixa nítida essa verdade.

Na Éfeso afamada, cujo templo erguido em honra a uma deusa pagã, Diana, constituía uma das grandes maravilhas do mundo, a religião não passava de simples crendice. Imperavam no meio do povo os feiticeiros, os mistificadores religiosos, a superstição em todas as suas modalidades.

E os efésios eram um povo grandemente pecador. Em muito se assemelhavam ao que se dá nos dias atuais. Não obstante vivermos em século de progresso material e de civilização, o pecado campeia por toda parte.

3. É necessidade imediata e urgente a obra de evangelização no mundo neo-pagão moderno.

É preciso que as igrejas abram em toda parte novas e bem organizadas Escolas Dominicais e pontos de pregação, como centros ativos de evangelização.

Precisamos de enfrentar corajosamente o problema religioso dos nossos dias e levar a cabo a nossa nobre missão de evangelistas. O texto nos diz que um dos resultados obtidos pelo apóstolo foi o de ver que "a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia". É possível tal coisa hoje? Depende de mim? Depende de você? De nós todos?

Autor: REV. GALDINO MOREIRA


Lista de estudos da série

1. Paulo antes de Paulo 
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