Atos 16.16-34
Lídia foi a primeira asiática convertida em solo europeu, assim como Cornélio foi o primeiro europeu convertido em solo asiático. (At 10 e 11)
Foram como que as margens espirituais em que o Evangelho construiu a ponte da graça, unindo europeus e asiáticos numa só família, família de fé no Senhor.
Certa moça, escrava, dotada de poderes malignos de adivinhação, e pertencente a certa companhia comercial que explorava essa sua faculdade de predizer o futuro, ganhando com isso somas fabulosas para os seus senhores.
Acompanhavam todos os dias os missionários (os quais se achavam residindo em casa de Lídia e pregavam todos os dias à beira do rio), dando um testemunho verdadeiro, mas indesejável, do caráter e da missão deles.
Paulo, finalmente, virou-se para a pobre moça e expulsou dela o espírito mau em que existia todo o seu poder de adivinhação. Seus donos, então, lançaram mão de Paulo e Silas e os arrastaram violentamente para o "fórum", a fim de serem julgados.
1. A PRIMEIRA DIFICULDADE
A história e a evolução da obra de missões, tanto apostólicas quanto da Igreja em todos os tempos, exemplificam, quase num ritmo matemático, que, ao lado das oportunidades felizes que se abrem à causa, existe a ação intensa e desesperada do maligno no sentido de obstruir a marcha do Reino Sagrado.
Assim foi em Filipos. Logo que a semente começou a medrar aí, o demônio abriu logo a sua seara infernal de recursos sutis e ocultos para pôr em prática todo o seu arsenal de guerra contra as missões cristãs.
Mas o adversário não quis para logo apresentar-se tal como era e como é. Ao zelo apostólico na prédica da Palavra e na frequência às reuniões de oração, tentou Satanás ajuntar o seu apoio indesejável. E foi assim que, certo dia, surgiu no caminho dos missionários uma novidade.
Certa moça possessa de mau espírito, usada como médium por indivíduos inescrupulosos e exploradores da parte ignorante e supersticiosa da cidade, começou a acompanhá-los e a proclamar que eram realmente "servos do Deus Altíssimo". Isto se repetiu por dias seguidos.
A princípio, Paulo não ligou importância ao caso, tomando-o, talvez, como o ato de uma pessoa com a mente perturbada; todavia, percebeu, mais tarde, que estava em face do grande inimigo de Cristo, quase sempre disfarçado em amigo. E resolveu o problema com energia, expulsando da médium o espírito maligno e curando-a desse mal tremendo.
Note-se que o testemunho da moça pitonisa era, aparentemente, valioso.
Ela, com os seus gritos públicos, chamava a atenção do povo para os missionários. Era um anúncio grátis da obra... Falava em altas vozes um testemunho verdadeiro. Não eram palavras de desprezo, de achincalhe ou de grosseiras tolices.
Dizia mesmo o que eles eram e a missão alta a que se entregavam. De qualquer modo, a moça agitava as massas, atraía a curiosidade pública aos pregadores...
Mas, tudo isso era falso. Era tentação. Era arma do maligno. Repetia o diabo o seu antigo método de alcançar, de algum modo, o direito de aliança, de sócio e de auxiliar da causa santa. Repetia a tentação do deserto: "Tudo te darei se, prostrado, me adorares", se me tomares como colega e companheiro no trabalho...
Paulo, orientado pelo divino Espírito, reconheceu o dedo oculto do inimigo e o repeliu formalmente. Fez muito bem. A causa de Jesus não tem nada com as trevas; mesmo quando se apresentem mentirosamente como luzes de bondade e até de piedade, são armadilhas.
Recebesse Paulo o testemunho da médium, ficaria identificado com aqueles que exploravam a superstição das massas; seria apenas mais um sócio dos ilusionistas e mediunistas da cidade, tão conhecidos... O Evangelho seria equiparado à crença dos pagãos e perderia todo o seu valor e nobreza.
O diabo faz assim. Uma de suas astúcias é vestir-se de ovelhas, de crentes, de amigos, de "pastor", de "defensor da fé", de proclamador gratuito do Cristianismo para, no fim, rebaixar a causa gloriosa.
Sirva o exemplo de Paulo de advertência a todos os que pregam o Evangelho. Alianças fáceis com credos estranhos; amizades com doutrinadores de todas as formas; tolerância a tudo quanto é ensino "de fora"; apoiar grupos que se vão formando mesmo dentro das igrejas, a título de "consciências feridas", tudo isso é o demônio de Filipos, é a mentira do adversário solerte...
2. A SEGUNDA DIFICULDADE
Barrado o inimigo na sua primeira investida contra o Reino em marcha, na grande cidade, "miniatura da capital romana", pôs ele em campo novas forças.
Agora usou a perseguição. De fato, os donos do negócio, que ludibriavam a boa fé dos incautos, usando a pobre moça obsedada, vendo perdida sua fonte de renda, com a cura da jovem adivinhadora, reuniram-se e, com mentiras e calúnias, prenderam a Paulo e Silas e os levaram à justiça romana, tendo o apoio da grande multidão exaltada.
Prendendo os dois missionários, açoitaram-nos vigorosamente e os mandaram para o cárcere, como se fossem dois delinquentes célebres.
Note-se a astúcia dos perseguidores. Antes de tudo, frisaram que os dois presos eram estrangeiros: "estes judeus..." (v. 20). Despertavam, assim, o antigo e inveterado ódio de raça contra os pobres missionários.
Depois, mentindo, arguíram que eram perturbadores da ordem (o maior crime naqueles e nos nossos tempos, contra o regime vigente de uma nação); e, além disso, eram pregadores de "costumes" proibidos, isto é, ritos e crenças que as leis romanas tinham como ilícitos.
Mas, o que havia era o grito do bolso, aberto pelo crime, pela ambição, pelo abuso das desgraças alheias. Era a ociosidade reclamando a sua fonte de misérias.
Na obra das missões, é velho este processo do diabo - a violência, como a perseguição pela calúnia, pela mentira, pelo ódio. Assim é que ele tenta destruir o trabalho da Igreja na terra.
Mas Paulo e Silas não se deixaram vencer pela situação, embora séria e grave. Presos, entregaram-se nas mãos do Senhor, a quem serviam, orando, cantando e, pelo exemplo, pregando a doutrina da fé consoladora.
A ética do Cristianismo sobrepuja maquinações malignas. 'Amor com amor se paga' - é a máxima dos pagãos. O mal com amor se paga" - é o princípio do Cristianismo.
Lembremo-nos de que cárceres não abafam a voz do Evangelho, nem açoites amedrontam os fiéis pregoeiros da verdade eterna.
3. AS BÊNÇÃOS DA VITÓRIA
Não foram pequenos nem obscuros os frutos que colheram os missionários pela fortaleza de ânimo com que souberam defrontar as situações tremendas que tiveram em Filipos.
Foram muitos e foram grandes. O Evangelho é fonte de poder, de bênçãos e de graças contínuas aos que são fiéis ao Senhor, à sua causa e ao seu Reino Santo. Vejamos.
1. Antes de tudo, os próprios prisioneiros, Paulo e Silas, receberam grandes bênçãos.
Receberam o dom de esperar no seu Salvador e de confiar nas suas promessas de não abandonar nunca os seus. Aprenderam a cantar e a orar onde o mundo chora e desespera.
2. Depois, tiveram ali esplêndida oportunidade de proclamar as verdades redentoras.
"Os presos escutavam-nos" (v.25). É que aqueles hinos transmitiam, nas suas palavras, uma verdadeira pregação do Evangelho. E esta pregação era comentada ao vivo pelo exemplo e heroísmo dos apóstolos presentes.
3. Logo a seguir, nova bênção.
Deus mesmo resolveu manifestar-se de modo ostensivo, mediante o milagre de um terremoto especial vindo à hora e a propósito, que abriu as portas do cárcere, soltando as cadeias de todos e despertando o carcereiro.
Era a ação da mão divina, que vinha dar a seus servos em aflição as credenciais de sua autoridade e dispor tudo em favor deles, como se vê no final da história.
4. Em último lugar, deu-se a conversão do carcereiro, com a sua casa, de modo impressionante.
O carcereiro, responsável pelos presos da Penitenciária, ao preço da própria vida, como era o regime legal, tentou matar-se.
Era o remédio de um pagão que, sem as luzes do Evangelho, não queria ver o seu nome e a sua honra manchados por crime de lesa-pátria.
Mas, os dois pregadores, Paulo à frente, vieram em seu favor. Tomou o vigia, então, conhecimento dos fatos extraordinários que acabavam de ocorrer, e não tardou a sua notável conversão.
"Senhores, que me é necessário fazer para me salvar?" É de notar a mudança já operada neste homem. "Tirou-os para fora", levou-os para lugar mais confortável. Tratou-os respeitosamente. Fala a "senhores". Considerou-os como capazes de ajudá-lo a resolver o maior problema da sua vida: "Que me é necessário?..."
Reconheceu, assim, a autoridade ou competência deles em assuntos religiosos. O pavor do terremoto, as palavras que ouvira dos pregadores, a tentativa de suicídio que o teria levado, sem estar convenientemente preparado, para a eternidade, fizeram despertar nele o sentimento de sua pecaminosidade.
Sentindo o seu pecado, sentia a realidade da justiça de Deus e queria escapar da vergonha do pecado e do seu poder.
Tão sincero e angustioso foi o clamor daquele pobre coração, que os evangelistas, de pronto, responderam com as memoráveis palavras do v.31:
Atos 16:31
Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa!
4. PRÁTICA
1. As dificuldades que porventura surjam nos campos de evangelização não devem nem podem trazer desânimo aos pregoeiros da verdade.
Devem incentivá-los a prosseguir na obra com fé e ardor.
2. Os preconceitos de todas as formas e cores são sempre inimigos das missões.
Não os temamos jamais.
3. Têm lugar proeminente na vida piedosa dos crentes e na sementeira da Palavra a oração e os hinos sacros.
4. Só o Cristianismo tem à mão a resposta própria à pergunta angustiosa dos que desejam salvar-se.
"Crê no Senhor Jesus e serás salvo..."
5. A expressão - "Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa" - não significa apenas a profissão teórica da fé, mas da fé que age por amor e para a santificação.
Também não significa simplesmente que, crendo os pais, estão salvos os filhos.
O sentido é que Cristo salva o indivíduo e os indivíduos, e que o lar cristão é elemento capaz de salvar os que o compõem, desde que cada um creia pessoalmente. Vê-se que o carcereiro, antes de professar sua fé, foi instruído nas doutrinas, e creu, e sua casa também creu (vv. 32-34).
Não se transfere a fé a ninguém. Pode-se, pela graça de Deus, ser instrumento capaz para induzir alguém à fé. Mas, cada um tem que crer por si, para sua salvação pessoal.
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
