Atos 21.27-40
Tendo estado em Mileto com os presbíteros da Igreja, viajou o apóstolo Paulo no vapor em que tomou passagem, para Jerusalém, objetivo deliberado de seus planos na ocasião.
Tendo saído de Mileto, passou por Cós, Rodes, Pátara, Tiro, onde o vapor se deteve durante sete dias; Ptolemaida, Cesaréia, indo, então, por terra, a Jerusalém, onde deve ter chegado às véspera da Festa de Pentecoste, que se deu num sábado (At 21.1-16).
A viagem durou, pois, umas quatro semanas. Terminava aqui a terceira excursão missionária de Paulo. Devia estar o apóstolo, agora, com 56 anos de idade. Com esta visita à cidade de Jerusalém, fazia ele sua quinta excursão aí, desde que se convertera.
Nero governava o império romano e Félix jurisdicionava a Judéia. Ao que parece, vieram também com o ilustre viajante todos os companheiros que, de princípio, se reuniram a ele: Lucas, o bom médico, Trófimo, de Éfeso, Aristarco de Tessalônica, e os demais irmãos mencionados em At 20:4.
Paulo ficou hospedado em casa de um crente, decerto abastado e bondoso, de nome Mnason. Quando o apóstolo chegou com os companheiros, vários discípulos os receberam com alegria e prazer.
Sete anos já tinham decorrido desde que Paulo tinha estado em Jerusalém, e podemos imaginar a alegria e a gratidão que encheram os corações dos crentes e dos missionários ao contarem uns aos outros as suas respectivas experiências.
Houve, ao que parece, no dia seguinte ao da Festa de Pentecoste, outra importante reunião recepcional. Os anciãos e chefes da igreja, dos quais Tiago, o irmão do Senhor, era o principal, reuniram-se e Paulo contou as grandes coisas que o Senhor tinha feito em favor de seu povo, entre os gentios, desde o dia em que Paulo dera o relatório da outra viagem.
A reunião provavelmente foi pública, de sorte que todos os crentes puderam assistir. Nada se diz dos outros apóstolos, mas, sem dúvida, estavam trabalhando em diversas partes em prol do Evangelho. Foi, com muita probabilidade, nesta reunião que Paulo deu aos chefes da Igreja as ofertas gentílicas em prol dos irmãos pobres de Jerusalém (At 24:17).
Mas, uma semana depois, as coisas mudaram. E veremos como Paulo passou dias amargos na grande cidade...
1. FRUTOS DA MALEDICÊNCIA
Na recepção fraternal oferecida a Paulo, os irmãos que o ouviram se alegraram com as maravilhosas bênçãos que, pelo mundo gentio, especialmente, havia realizado o santo Evangelho.
O que o apóstolo fizera estava de acordo com o que fora votado pelo concílio em Jerusalém, havia sete ou oito anos antes.
Todavia, a resolução oficial daquela época, referente à guarda da Lei Cerimonial pelos gentios, não mudara a opinião de muitos crentes.
Muitos destes eram zelosos pela observação rígida da Lei Cerimonial, porque, diziam eles, era divina essa lei e o fundamento de suas esperanças como nação. As promessas diziam que da descendência de Abraão todas as nações da terra haviam de ser abençoadas.
Sião seria a alegria de toda a terra. Por outro lado, por ocasião da festa pentecostal, achavam-se presentes na cidade muitos judeus de todas as partes, ainda não crentes, e estes olhavam o Cristianismo com desconfiança e grandes suspeitas.
Assim, começaram a correrem Jerusalém boatos a respeito de Paulo e de seu ensino, e que perturbaram os espíritos dos crentes. Dizia-se que o apóstolo ensinava que nem os judeus eram obrigados a guardar a lei de Moisés. A alguns parecia que semelhante ensino devia destruir os alicerces do Reino de Deus e todas as esperanças da nação.
Os fatos, entretanto, em resumo, eram os seguintes:
1º - Paulo observava a lei cerimonial dos judeus, simplesmente como um rito que pertencia à raça, e não como condição de salvação.
2º - Ensinava que os gentios não precisavam de tornar-se judeus, nem obedecer ao ritual judaico.
3º - A lei não era meio de salvação, nem para os gentios nem para os judeus. As formas e cerimônias não podiam salvar a ninguém, fosse judeu ou gentio, mas somente o Senhor Jesus Cristo recebido pela fé. Os ensinos de Paulo traziam, tanto aos judeus como aos gentios, a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
Estes ensinos fazem do Cristianismo a religião universal, e tornam possível o cumprimento das promessas divinas para com todos os que creem.
Diante dos boatos malévolos que fervilhavam, os irmãos, principais da Igreja Cristã, tentaram solucionar a crise, esboçada com aviso de zelo religioso, aconselhando ao apóstolo evidenciasse de modo público que não rejeitava na sua própria vida a lei judaica, mas que era verdadeiro judeu, bem como verdadeiro cristão.
O plano foi o seguinte: Paulo havia de se unir a quatro homens que tinham vindo a Jerusalém para cumprir o voto de nazireu e pagar as despesas dos sacrifícios, por eles, e executar as cerimônias prescritas pela regulamentação do templo.
Convém frisar, aqui, que Paulo, ao consentir no plano proposto, nada fez contrário a seus princípios e convicções. Pessoalmente, Paulo cria que os ritos e as cerimônias nada valiam em si; mas, como era seu hábito não embaraçar a causa sagrada com exigir coisas secundárias, "fazer-se tudo para todos, para salvar alguns", ele consentiu em fazer o que os irmãos lhe aconselharam nesta emergência.
Como se vê, as suspeitas geradas em Jerusalém deram trabalho a Paulo, alvoroçaram a Igreja e perturbaram a serenidade das convicções apostólicas.
E os frutos dessas suspeitas foram ao seu fim. O plano foi mal visto e mal interpretado, malignamente interpretado, e não surtiu o efeito que se esperava. As suspeitas são sempre cegas, ilógicas e absurdas. Criam fantasmas e suscitam lutas inúteis...
2. AÇÃO VIOLENTA
Corriam os dias da semana em que Paulo fazia a sua demonstração de liberalidade cristã e respeito às consciências mais sensíveis. Quando estavam já a terminar os sete dias do voto feito pelos quatro homens, agora reunidos e suportados por Paulo, ocorreu um incidente que agitou toda a cidade.
Assistindo à festa, havia muitos judeus da Ásia romana, alguns sem dúvidas de Éfeso e consequentemente bastante conhecedores de Paulo naquela zona.
Reconheceram o apóstolo nas ruas de Jerusalém e observaram com ele um dos seus patrícios, Trófimo, que, como gentio, não teria os privilégios do uso do Templo, legais só para os judeus.
Quando, pois, esses visitantes da província da Ásia viram o apóstolo e seus quatro companheiros no Templo, concluíram que Paulo estava profanando o santuário, introduzindo gregos incircuncisos nos recintos sagrados.
Levantaram então a grita falsa e cruel: "Varões israelitas, acudi! Este é o homem que por todas as partes ensina a todos, contra o povo, contra a lei e contra este lugar; e, demais disto, introduziu também no templo os gregos e profanou este santo lugar!"
Reuniu-se imediatamente o povo de todas as partes do Templo e seus arredores, crescendo o tumulto de momento para momento. Se não fosse pelo seu respeito hipócrita do Templo, os cabeças do motim teriam matado Paulo ali mesmo.
Arrastaram-no, por isso, do recinto sagrado e fecharam as portas, esperando realizar em plena rua o seu propósito sinistro.
Repare-se no modo injusto e temerário como os inimigos trataram a Paulo. Sem saber ao certo os fatos, usaram aparências para executar seus desejos maus. A acusação era das mais tremendas, e foi feita com clamor público. O alvo era excitar o ódio do povo, o que conseguiram.
A violência é sempre irrazoável. Para chegar a seus fins, age de todos os modos, inventa, torce a verdade, cria "fatos", grita, faz cenas e prepara-se para o seu assalto mortal...
3. LIVRAMENTO PROVIDENTE
O barulho propositadamente feito pelos inimigos de Paulo, a gritaria, as acusações e tudo quanto tinham combinado executar, tiveram efeito providencial.
A notícia de tais coisas para logo chegou aos ouvidos do tribunal militar, responsável pela ordem pública, nos arredores do Templo e circunvizinhanças. A notícia foi alarmante: "Toda Jerusalém está em revolução!" (21.31).
Nestas condições, o centurião, tomando soldados, correu à cena do tumulto. Os judeus, vendo o Tribuno e os soldados, deixaram de ferir a Paulo, e o Tribuno deu ordem que fosse preso e atado com cadeias, e perguntou-lhe quem era e o que havia feito.
Quando Paulo chegou à escada, os soldados, vendo a violência do povo, tomaram-no, para o levarem à cidade - lá, aos gritos da população: "Mata-o! Mata-o!"
Chegando ao alto da escada, Paulo pediu licença, falando grego, para dirigir umas palavras ao povo.
O Tribuno, com surpresa, perguntou ao preso se ele sabia falar grego, julgando ser ele um certo egípcio que, havia pouco, tinha feito um motim, declarando-se o Messias prometido dos judeus.
O tribuno, havendo dado licença, Paulo fez sinal com a mão, e tendo feito grande silêncio, falou em língua hebraica, e expôs com clareza quem era, o que fazia e o que ensinava. No cap. 22, temos o que ocorreu e como, afinal, o apóstolo foi salvo do perigo.
Tudo conspirou, nestes momentos trágicos, para encaminhar Paulo a seus sonhos - ir a Roma. Estava iniciada a sua odisseia impressionante, que culminaria em Roma. "Deus escreve certo por linhas tortas". É exato. O Senhor guarda os seus e os leva salvos até ao fim.
4. LIÇÕES OPORTUNAS
1. O verdadeiro servo do Senhor tem de enfrentar, na sua carreira religiosa, duas experiências comuns:
uma, o apoio, a amizade, a confiança e a simpatia de irmãos fiéis e realmente preparados na vida espiritual; outra, a suspeita, a maledicência e o ódio de morte dos maus, dos incrédulos e dos falsos cristãos.
2. A maledicência de um grupo, mesmo pequeno, pode alvoroçar uma multidão, quase uma cidade toda.
Os que suspeitam são malignos; os que se deixam levar por eles são descuidados e insensatos.
3. "Pensavam que..." (21.29).
Eis a fonte de muitas amarguras sem razão e de lutas sem motivos. Os inimigos de Paulo "pensavam" isto e aquilo, mas estavam enganados em suas suposições temerárias. Falsas hipóteses são o fato de grandes incêndios morais.
4. "Chegando o Tribuno..." (21:33).
Felizmente, Deus criou a lei e os defensores da ordem, que são bênçãos aos que sofrem injustamente. Os crentes patriotas e sadios na sua fé devem prestigiar e respeitar os homens da lei, quando agem em boa ordem e pela ordem.
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
