Atos 9.1-31
Exteriormente, Saulo ainda era o judeu ortodoxo e o Rabi, fanaticamente amante da Lei, fanaticamente opositor do Cristianismo e de Jesus Cristo. Porém, interiormente, o espírito de Saulo travava furiosa batalha e uma crescente tensão.
É provável que Saulo fizesse a si mesmo a pergunta: "Seria o caso de Jesus Cristo estar certo e eu, errado?"
Em tal situação mental, Saulo fez o que tanta gente tem feito: tentou aplacar suas dúvidas mergulhando-se numa cada vez mais furiosa atividade. Tentava abafar a voz da consciência, que outra não era senão a ação eficaz do Espírito de Deus no seu interior, agindo e conduzindo-o àquele ponto designado pelo soberano plano, que não pergunta se pode ou se alguém quer.
O Cristo ressurreto não lhe dava trégua, porém sacudia toda a sua estrutura.
1. ATIVIDADE MAIS ACIRRADA
Lendo Atos dos Apóstolos, nas entrelinhas, percebemos que, após a morte de Estevão, Saulo se tornou mais furioso e perseguidor.
Pediu autorização às autoridades e saiu no encalço daqueles que considerava uma "seita maldita" - os cristãos (At 26.10-12). Aqui se percebe o quanto Saulo alimentava no seu íntimo uma fúria incontida contra o povo de Jesus Cristo.
Assim, ele se tornou o furioso enviado (= apóstolo) das autoridades judaicas, antes de ser o ardoroso enviado (= apóstolo) do Nazareno.
2. RUMO A DAMASCO
Saulo se investiu de autoridade para uma perseguição sem fronteiras. Damasco fica a cerca de 220 km de Jerusalém.
Relacionando a nossa modernidade com as condições tecnológicas daquele tempo, é fácil imaginar o tipo de viagem que Saulo encetou: 220 km a cavalo, a camelo, a pé ou num carro romano puxado por uma parelha de cavalos, suas estradas arenosas, com a duração de uma semana.
Quanto tempo teve ele para meditar sobre os cristãos, particularmente sobre o mártir Estevão! O Espírito de Cristo o preparava para o desfecho final.
3. UM ENCONTRO INUSITADO (AT 9.1-31)
O encontro de Saulo de Tarso com o glorioso e sublime Nazareno pode ser analisado assim:
(1) Planos Humanos (9.1, 2)
Saulo toma uma decisão extremada, revelando um interior tempestivo:
a) "Respirando ainda ameaças e morte..." Ele era uma panela de pressão. Era preciso pôr termo a esse pesadelo.
b) "Dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco." Faz seus planos e se reveste de autoridade legal. Assim, ninguém o poderia impedir. Saulo era um profundo conhecedor do Antigo Testamento, porém a revolta contra Cristo o cegava para as palavras de Salomão:
Provérbios 16:1
O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor.
Por que é assim? Porque "todo caminho do homem é reto aos seus próprios olhos, mas o Senhor sonda os corações" (Pv 21.2).
(2) Planos Divinos (9.3-9)
a) A luz celestial (v.3). Saulo e sua comitiva são surpreendidos por uma luz singular. Essa mesma luz já assustou muita gente ao longo da história. E a luz de Deus.
b) A voz celestial (v.4). Tão potente quanto à luz, essa voz faz uma pergunta: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" E uma censura e, ao mesmo tempo, uma acusação. Saulo, perseguindo o povo de Jesus, estava perseguindo ao próprio Jesus.
Mateus 25:40
...sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos a mim o fizestes.
Mateus 25:45
...sempre que o deixastes de fazer a um destes meus mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.
Essa é a lei; esse será o julgamento. Maltratar um verdadeiro cristão é ofender ao próprio Cristo. Ele irá cobrar... com juros e correção monetária: "Vinde benditos", ou: "Apartai-vos malditos" (Mt 25.34, 41).
c) Diálogo Decisivo (vv. 5, 6). "Quem és tu, Senhor?" "Eu sou Jesus, a quem tu persegues." Diálogo curto e franco, face a face, voz a voz. Saulo viu o Senhor? Ele afirma que sim: "Não vi a Jesus, nosso Senhor?" (1 Co 9.1). "E, afinal, depois de todos, foi visto também por mim..." (1 Co 15.8). Não só ouviu sua voz, mas o viu de corpo inteiro. E se curvou rendido.
d) Coração Quebrantado (vv. 6,9).
- Recebe ordem do Senhor, outrora perseguido: "Levanta-te; entra na cidade; lá te dirão o que fazer."
- "Nada podia ver."
- Guiado pela mão.
- Três dias sem ver e sem comer e beber.
Ele desceu até ao fundo do poço. Era preciso, antes que começasse a subir, como o maior dos apóstolos do Senhor. Como Saulo, não ficaria na história da humanidade; como Paulo, ele se tornou um canal de bênçãos para milhões no caminho da vida eterna.
Por que "três dias"? Tempo para pensar; para passar em revista o seu passado e presente; para se conhecer; para se comparar com o seu Senhor perseguido. E agora?
3. COMISSIONAMENTO (vv. 10-19)
a) O Senhor e Ananias (vv. 10-16)
A maneira como o Senhor da Igreja conduz seu plano à plena realização, concernente a Saulo, é algo por demais belo e comovente.
Saulo, uma vez em Damasco, espera, cego, a determinação do Senhor que lhe aparecera no caminho. O Senhor está agilizando os meios conducentes a um glorioso fim. Não sabemos nada mais sobre Ananias. Aparece e desaparece.
É apenas um instrumento divino com respeito a Saulo de Tarso. O Senhor manda Ananias fazer algo muito difícil. Saulo já era bem conhecido. A notícia da autorização já tinha chegado a Damasco.
Os cristãos estavam tensos. Ananias apresenta ao Senhor a dificuldade. Era dificuldade para os homens, não para o Senhor. Há dois pontos em síntese nos vv. 15 e 16: era (1) um instrumento eleito, e (2) sofreria no próprio corpo as consequências de se fazer confissão pública do Nome de Jesus Cristo - o que vale para todos os cristãos, em ponto menor.
b) Ananias e Saulo (vv. 17-19)
Ananias nada podia fazer, senão obedecer ao mando da soberania celestial, do Deus que comanda os destinos da Igreja do Cordeiro.
Primeiro, impõe as mãos sobre o quebrantado Saulo. É a comunicação da bênção divina.
Segundo, chama Saulo de irmão. O perseguido é agora irmão.
Terceiro, transmite o recado de Jesus: (1) Recuperação da vista; (2) plenitude do Espírito. Dois elementos primordiais. Imediatamente após a promessa veio o cumprimento: tornou a ver e ficou cheio do Espírito.
Em seguida, ficou de pé, submisso, e recebeu a aspersão da água, pois já recebera a aspersão do sangue de Cristo - estava perdoado.
Mais duas coisas vêm na preparação desse extraordinário apóstolo:
(1) Quebra o jejum. Assim como jejuar de vez em quando é bom para o espírito, comer é bom para o corpo.
(2) Esteve na presença dos discípulos. Não é difícil entender o porque. Agora, com um novo coração, Saulo, humilde, procura se informar acerca da fé que outrora destruía. O obreiro que não quer ser instruído deveria fazer outra coisa que não exija maiores preparos.
4. UMA GUINADA DE 180° (vv. 20-30)
Não é de se admirar que tantos sábios tenham dito que nenhuma outra conversão se compara à de Saulo de Tarso.
a) Ele visita as sinagogas, não mais como "terror por todos os lados", mas como irmão e mensageiro do Cristo que é o Filho de Deus (v.20). A obra é de Deus, antes que nossa!
b) Este fato espanta a todos: crentes e descrentes (v.21). O exterminador é agora servo do Nazareno perseguido. Saulo não parava; não se detinha. Cada vez mais forte, confundia os judeus e provava que Jesus é o Cristo (v22).
c) Se Cristo, o Filho de Deus, foi vítima da ferocidade dos judeus, e Saulo de Tarso? Pior ainda! Jesus foi sempre encarado como inimigo dos judeus, enquanto que Saulo foi uma grande autoridade judaica. Era o homem de confiança, o braço direto do Sinédrio, assim podemos dizer. E agora "quinta coluna", traidor, "persona non grata". Precisa ser eliminado (vv. 23-25).
d) Ao regressar a Jerusalém não procura o Sinédrio, e, sim, os discípulos do Senhor (vv. 26-30). Naturalmente que ele espanta tanto aos discípulos quanto aos judeus. Os discípulos são convencidos de que mais um milagre ocorrera na Seara; os judeus são convencidos de que teriam de destruir um ex-companheiro de judaísmo. Assim, Saulo é enviado a Tarso, sua cidade natal.
O v. 31 é riquíssimo e igualmente extraordinário. Começa com a frase: "A Igreja." Ora, com a conversão de um algoz do calibre de Saulo, não é natural que a Igreja (1) gozasse de paz? Principalmente paz interior para cada crente. Mas havia paz exterior também. O inimigo estava abalado e confuso.
(2) Ela se edificava. E o modelo da igreja viva que cresce espiritualmente e se agita como as ondas do mar.
(3) Ela caminhava no temor do Senhor. O que falta na maioria das igrejas modernas. O temor do Senhor é o que caracteriza uma igreja totalmente incontaminada do mundo.
(4) Ela recebia continuamente o conforto do Espírito Santo que a habitava em plenitude. Ele não é o "outro Consolador"? Confortar inclui toda disciplina que uma igreja precisa receber e nela viver.
(5) Ela crescia em número. Ora, para uma igreja com tantos requisitos, é possível esperar outro resultado? E assim, a Igreja não só é vencedora, mas, sim, mais que vencedora, por meio daquele que a amou e se entregou por ela, para fazê-la sua noiva eterna.
Autor: REV. VALTER GRACIANO MARTINS
