Paulo em Atenas: A chocante verdade sobre o Deus desconhecido - Estudo Bíblico sobre o apóstolo Paulo


Atos 17.15-34

Deixamos Paulo e seus companheiros, Silas e Timóteo, na cidade de Beréia, no nosso estudo passado. Aí, dias após vieram grupos de perseguidores de Tessalônica e intentaram levantar também, neste novo ponto de pregação, o ânimo do povo contra os obreiros.

Assim, irmãos prudentes e conhecedores da situação julgaram não ser conveniente que Paulo enfrentasse a maligna trama judaica em Beréia e resolveram fosse ele à culta cidade mais próxima, a cidade de Atenas. Levaram o apóstolo e, sem detença, retornaram, com ordem de Paulo, para que Silas e Timóteo viessem encontrá-lo na nova sede.

Foi nesse tempo de espera que o zeloso missionário, ao invés de repousar ou fugir ao bulício das ruas, da afamada "luz da Grécia", cidade orgulhosa de Atenas, iniciou pesquisas no sentido de encontrar portas abertas às missões.

Passando pelas ruas e praças, notou o apóstolo, com grande sentimento de comiseração e dor, como havia na cidade a mais intensa atividade popular em torno de ídolos e mais ídolos, que enchiam os templos, as praças e até as casas particulares. Diz Plínio que havia em Atenas, naquela ocasião, nada menos de três mil estátuas públicas de deuses, semideuses e heróis.

Acrescente-se a isso o sem número de imagens nas residências particulares e em casas de negócio; e não é de admirar que o coração de Paulo se confrangesse, "vendo a cidade tão dada à idolatria".

Parece que não pôde esperar pelos companheiros para começar o trabalho. Seu primeiro esforço foi entre os prosélitos judeus, que o ouviram na sua sinagoga, se bem que, aparentemente, sem aceitar a sua doutrina. Para a praça pública foi ele e apresentava diariamente a mensagem a todos os que apareciam para ouvi-lo.

Breve, como era de esperar, apareceram para discutir e rebater as suas ideias os mestres das duas grandes escolas filosóficas que então floresciam em Atenas: os epicureus, amantes do prazer, que sensualizaram os ensinos de Epicuro: e os estoicos, panteístas, discípulos de Zenon, o filósofo fatalista.

O resultado das discussões foi negativo, pois alguns dos filósofos perguntavam cinicamente: "Que quer dizer este tagarela?" Estava o apóstolo lançando a semente da verdade no solo mais espinhoso do mundo.

Os filósofos, contudo, ficaram tão impressionados com o homem e a sua mensagem, que levaram Paulo ao famoso fórum da colina de Marte (o areópago), onde lhe pediram que explicasse a sua nova doutrina aos mais brilhantes intelectuais do mundo lá reunidos para ouvi-lo.

1. UM SERMÃO NOTÁVEL

O piedoso missionário Paulo já havia muitas vezes pregado o Evangelho a grandes e pequenos auditórios com sabedoria admirável; mas, aqui em Atenas, perante os maiores mestres da filosofia greco-romana da época, enfatuados e orgulhosos, embebidos de uma idolatria quase inacreditável, o apóstolo mostrou o seu gênio cristão, o seu poder de dialética sadia e a sua inspiração vinda do Alto.

Vejamos como Paulo contornou as dificuldades e realizou a sua esplêndida conferência evangélica.

(1) Foi, inicialmente, um sermão feito com grande habilidade.

Se era necessário ter um texto básico para a doutrinação a oferecer aos ouvintes, Paulo não ficou confuso nesta parte.

Aos judeus ele citava o Antigo Testamento, que eram as Escrituras que aceitavam. Aqui em Atenas, o Antigo Testamento não era reconhecido pelos pagãos idólatras, e seria perda de tempo basear o sermão em tópicos dessa Escritura.

Mas o apóstolo, guiado pela mão divina, habilmente descobriu o texto para a sua pregação dentro da própria trincheira pagã, usando o que seria o ponto de contato entre o orador e a assistência. Ele tomou a expressão que se encontrava num dos altares públicos da cidade - "Ao Deus desconhecido". Este foi o texto, o motivo, a base do sermão.

Além disso, Paulo abriu o sermão com um exórdio fraternal e respeitoso (vv. 22-23), próprio a atrair a atenção de seus ouvintes. Estava já vencido o maior obstáculo. O resto, Deus guiaria a bom termo.

(2) Foi um sermão doutrinário, profundamente cheio de coerência e lógica inatacáveis.

O apóstolo iniciou o seu argumento apresentando o caráter do verdadeiro Deus, esse Deus ignoto de quem falavam os altares atenienses, um Deus uno, espiritual, Criador, Senhor, Pai e Juiz (v.24).

Um grande erudito cristão, o dr. Farrar, acha que os resultados aparentemente pequenos colhidos pelo apóstolo em Atenas foram oriundos de haver Paulo "esquecido" de falar de Cristo e da sua redenção no Calvário.

Discordamos desse modo de ver, primeiro porque o apóstolo foi inspirado na sua pregação, e o Espírito não esquece nada do que é necessário; segundo, porque, mesmo logicamente, não convinha ao orador abrir sua pregação, perante seu paganíssimo auditório, com as doutrinas fundamentais do Cristianismo, e, sim, com as verdades elementares a respeito de Deus. Como iria Paulo falar da Expiação a um povo que mal conhecia a própria verdade sobre o Deus verdadeiro?

O apóstolo não devia falar do Filho de Deus, o Redentor, sem primeiro apresentar o Pai. E fê-lo com habilidade, mostrando Deus o Pai como o Criador, desenvolvendo daí o seu belo tema geral. Note-se que, no fim da mensagem, o missionário feriu o assunto fundamental, embora com muita e diligente prudência, a obra de Cristo, o Ressurreto (v.31).

No correr da pregação, em que o apóstolo, indiretamente, ia derrubando por terra as falsas concepções dos gregos referentes a Deus e à religião, evidenciando o absurdo do politeísmo e da idolatria, Paulo fixou tudo o que era preciso sobre a essência da Divindade.

Falou sobre a Soberania de Deus (v.24). Notem-se as formas e expressões tudo, todos, todos os homens, etc., mostrando a amplitude da autoridade divina nos vv.24,25,30,31.

Falou da onipresença de Deus (vv.24, 27). Falou da unidade e da fraternidade universal (v.26). Falou da paciência de Deus (v.30). Falou da espiritualidade de Deus (v. 25). Falou do arrependimento (v.30). Falou do juízo e da ressurreição (v.31).

(3) Um sermão sereno, feito com paciente consideração às condições espirituais dos ouvintes.

Note-se o v. 28, onde Paulo cita autores dos próprios pagãos. Paulo exemplificava nisto o que mais tarde ensinou em 2 Tm 2.24.

2. UM APELO CORAJOSO

Todo sermão autêntico precisa terminar com a parte prática e decisiva de mover os ouvintes a uma resposta. Paulo, perante os mestres de Atenas, não esqueceu esta exigência da pregação do Evangelho.

Fechou o sermão com um apelo curto, incisivo, forte e sobretudo enérgico, encorajando ao arrependimento e à crença no Deus verdadeiro (vv.30-31).

O apóstolo mostrou ao seu auditório a necessidade de reconhecer o Deus uno, Senhor e Juiz; a necessidade de buscá-lo seriamente, de cultuá-lo como Ele quer e deve ser adorado.

Do apelo de Paulo se deduz a doutrina referente à necessidade de se buscar a Deus.

Há o método humano e errado de buscar a Deus:

(a) Pela fé tradicional dos judeus de Tessalônica (17.15);
(b) Pela razão só e desarmada dos filósofos atenienses.

O resultado destes meios são a intolerância (os judeus) e a idolatria (os pagãos).

Há o método divino e certo de buscar a Deus:

(a) Pelo ouvir a Palavra;
(b) Pelo aceitar o testemunho da Palavra;
(c) Pelo reconhecimento pessoal do pecado e consequente arrependimento;
(d) Pela fé em Jesus como Salvador único e autorizado.

3. RESULTADO DE SERMÃO

Os atenienses orgulhosos definiram-se de modo claro perante a pregação fiel do ilustre missionário. As atitudes foram clássicas: de curiosidade, de escárnio, de indecisão e de fé.

Parece que Paulo não havia concluído ainda o seu discurso, quando, ao mencionar a ressurreição, houve uma explosão de invectivas de alguns dos seus ouvintes, obrigando-o a parar.

Ele, porém, já havia avançado bastante no seu tema para despertar interesse em alguns, que prometeram ouvi-lo outra vez. E não deixou a seleta audiência sem conquistar alguns convertidos, entre os quais Dionísio, membro da Corte do areópago, e uma senhora distinta chamada Damaris. Iniciou-se assim a igreja em Atenas, se bem que, com toda probabilidade, não fosse organizada nessa ocasião.

Foram poucos os frutos da obra gigantesca de Paulo em Atenas? Aparentemente, foram. Mas, considerando o meio, as circunstâncias, o espírito tradicional e pagão da audiência, Paulo teve grande vitória. O caso era para culminar, porventura, em piores situações, talvez em grave tumulto, com o escorraçamento do orador da cidade.

A culpa de não ter havido mais conversão em Atenas, no momento, não foi de Paulo, nem falhas no seu método de pregação; mas, a culpa foi dos ouvintes, cujo caráter pagão, vaidoso, cheio de preconceitos e de curiosidade os levou para longe do Cristianismo puro que lhes foi anunciado.

A experiência de Paulo tem sido repetida, através dos séculos, nos campos missionários. Junto a um povo indiferente, curioso, muito frio aos problemas da consciência, o Evangelho se infiltra vagarosamente, só pouco a pouco.

4. PRÁTICA

1. Atenas ouviu o Evangelho quando era a mais culta cidade de seu tempo, e recusou-o.

Nem sempre a erudição significa piedade. A cultura sem Cristo é noite, e nunca dia claro.

2. O Evangelho tem a cultura genuína, que não teme enfrentar nem o fanatismo religioso das sinagogas (v.17), nem a lufa-lufa egoísta do comércio (v.17), nem o orgulho dos filósofos e suas filosofias (v.18).

3. Boa é a pesquisa, boa é a investigação dos problemas da alma, da vida eterna (v.20).

Mas, não vale nada a investigação que ou escarnece no fim ou deixa para outro dia a solução final dos problemas.

Autor: REV. GALDINO MOREIRA


Lista de estudos da série

1. Paulo antes de Paulo 
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