Salmo 13
De alguns anos para cá tem surgido na igreja evangélica brasileira uma tendência curiosa, mas sem base bíblica: trata-se do ensino que deseja levar os crentes a jamais dizerem palavras consideradas "de derrota". Tal ensino apregoa que os crentes só podem pronunciar palavras "de vitória".
Os que assim ensinam acreditam que as palavras são em si mesmas carregadas de poder, de modo que se alguém diz uma palavra derrotista, irá atrair para sua vida aquela derrota.
Pelo contrário, se disser o tempo todo palavras positivas, irá atrair para sua vida a vitória e o sucesso. Ainda conforme este ensino, o culto, o ajuntamento litúrgico, deve ser o espaço por excelência para que somente palavras positivas sejam ditas.
A questão é que este ensino não tem base nas Escrituras. Não é isso que lemos na Bíblia. De modo bastante diferente, a Palavra de Deus apresenta o que para muitos pode ser surpreendente: há lugar para o choro, para o lamento, para a manifestação de tristeza na vida com o Senhor.
Já há muitos anos biblistas têm chamado a atenção dos estudiosos das Escrituras quanto a um gênero literário que muitas vezes passa despercebido na leitura de muitos: o salmo de lamento. É sobre esta possibilidade litúrgica que o estudo de hoje pretende comentar.
1 - ENTENDENDO O LAMENTO
É oportuno declarar de início que não se deve confundir lamento com confissão de pecados. Ainda que algumas vezes aconteça um lamento pelo pecado cometido, nem sempre estas duas atitudes estão ligadas. Em outras palavras: nem sempre o lamento é devido a algum pecado cometido.
Primeiramente é preciso que se entenda o que é, biblicamente falando, o lamento. Não se trata de simples reclamação desesperada.
O lamento, nas palavras do biblista holandês Carl Bosma, que foi missionário da Igreja Cristã Reformada, por muitos anos no Brasil, é uma manifestação da graça de Deus, que permite aos que se encontram em aliança com ele, derramarem suas lágrimas na sua presença.
É digno de nota que, no Saltério, há mais lamentos que salmos de qualquer outro gênero, como hinos de louvor, cânticos de ações de graça ou qualquer outro tipo. Cerca de um terço dos salmos é constituído de salmos de lamentos (os dois terços restantes pertencem a diversas outras categorias).
Os especialistas em Antigo Testamento falam sobre as lamentações individuais (3, 5, 7, 13, 17, 22, 25, 26, 27, 140, 141, 142, 143, e vários outros) e as lamentações coletivas (44, 74, 79, 80, 137, e outros mais). Mas mesmo em outros gêneros encontram-se algumas vezes motivos de lamentação.
Pode-se dizer que o salmo é um protesto diante de Deus devido a uma situação qualquer de injustiça: o fiel, em aliança com o Deus Eterno, ao ser perseguido por seus inimigos, ou vendo sua vida ameaçada por uma doença, ou qualquer outro motivo, derrama sua alma diante do Senhor com impressionante coragem para suplicar que Deus reverta sua situação.
No caso do lamento coletivo, é o povo que lamenta diante da possibilidade de uma desgraça nacional, como por exemplo, uma ameaça de invasão por algum exército inimigo, ou uma má colheita ou uma epidemia.
O lamento, portanto não é simples reclamação. Na verdade, é uma ousada declaração de fé e esperança na intervenção que o Deus da justiça pode fazer na vida dos que nele depositam sua confiança.
Os fiéis da antiga aliança não tinham nenhuma vergonha de, mesmo em público, derramar suas lágrimas na presença do Senhor diante de problemas e crises que enfrentavam.
As Escrituras apresentam inúmeros exemplos de lamentação: Ana (I Sm 1:10); o rei Ezequias de Judá (Is 38.1-3), Jonas (Jn 2.1,2) e o próprio Jesus, que, na cruz, brada com as dramáticas palavras do lamento do Salmo 22.1 - "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mt 26.46).
Uma palavra de advertência deve ser dada: não se deve confundir o lamento, que é o tema do presente estudo, com o livro bíblico de Lamentações.
Este livro, como o próprio título indica, é de fato uma coletânea de lamentações choradas diante do Senhor por ocasião da destruição de Jerusalém pelos babilônios, o que significou a queda do reino de Judá.
A inclusão deste livro no cânon bíblico é fato bastante significativo: Deus permite que seu povo chore diante dele, lamentando as desgraças acontecidas.
2 - A ESTRUTURA DO LAMENTO
Após esta breve introdução, é interessante prestar atenção ao modo como o lamento é construído. Em outras palavras: como exatamente o lamento se apresenta?
Biblistas têm observado que há algumas características mais ou menos comuns nos lamentos. Conforme Artur Weiser em seu comentário ao livro dos Salmos (publicado em 1994 pela Editora Paulus), ainda que possa acontecer alguma variação, em geral, o salmo de lamentação tem a seguinte estrutura:
Invocação
Invoca-se o Senhor, o Deus da aliança, que pode libertar e salvar (Sl 7.1 - "Senhor, Deus meu, em ti me refugio");
Lamentação
Apresenta-se a lamentação propriamente. Algumas vezes, de forma veemente e contundente, como no Salmo 13.1,2: "Até quando Senhor? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto? Até quando estarei eu relutando dentro em minha alma, com tristeza no coração cada dia? Até quando se erguerá contra mim o meu inimigo?"
Súplica
É o pedido feito em momento de angústia e crise: "atenta para mim, responde-me Senhor Deus meu. Ilumina-me os olhos, para que eu não durma o sono da morte" (Sl 13.3);
Motivação
O suplicante apresenta motivos pelos quais Deus poderá atender à sua súplica: "atenta para mim... para que não diga o meu inimigo: prevaleci contra ele" (Sl 13.3,4a);
Voto ou promessa de louvor
O lamento termina com uma nota de esperança na atuação libertadora divina: "no tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação. Cantarei ao Senhor porquanto me tem feito muito bem" (Sl 13.5,6).
3 - O LUGAR DO LAMENTO NA LITURGIA
Depois destas considerações iniciais, há que se perguntar sobre como incorporar o lamento em nossas expressões litúrgicas. É preciso reconhecer que não é fácil responder a esta questão.
Sabemos que a tendência atual da grande comunidade evangélica brasileira é dar uma ênfase exageradamente grande ao louvor, que deve ser o mais alegre possível. Espera-se que o culto seja uma "injeção de ânimo" no fiel. Visto desta perspectiva, o lamento é simplesmente inaceitável.
Pois, conforme esta tendência, a confissão de problemas é demonstração de fraqueza e falta de fé, devendo ser evitada a todo custo.
O grande problema é que esta visão do culto, como já mencionado, não corresponde ao ensino bíblico. As Escrituras de modo totalmente diferente apresentam um culto em que o fiel em aliança com o Senhor pode chorar e clamar pela justiça divina.
Em nossas igrejas sempre há crentes sofrendo por terem sido vítimas de injustiças as mais diversas. Uns são vítimas da violência, outros, vítimas da inveja e da competição por parte de pessoas desonestas e inescrupulosas.
Há também pessoas que se encontram com a saúde abalada, ou sofrendo por vários outros motivos.
Daí, ser oportuno pensar em abrir nos cultos um tempo para que os crentes possam, no verdadeiro espírito da comunhão dos santos, abrir seu coração e chorar diante de Deus, suplicando a intervenção e a libertação que só o Senhor pode trazer.
Evidentemente, há que se ter cuidado para que este momento seja biblicamente orientado, e criatividade para que se possa efetivamente dar oportunidade aos fiéis de derramarem sua alma perante o Senhor.
- Se as Escrituras falam tanto em lamento, por que em nossas liturgias não se dá oportunidade para que os crentes possam suplicar a justiça divina, tal como faziam os fiéis da antiga aliança?
- De que maneira o lamento pode ser vivenciado em nossas liturgias hoje?
Autor: REV. CARLOS RIBEIRO CALDAS FILHO
Lista de estudos da série
1. Por que você deve ter cuidado com o que promete a Deus – Estudo Bíblico sobre Juramentos e Votos2. O significado real por trás do batismo e da ceia – Estudo Bíblico sobre Sacramentos
3. O segredo da intimidade profunda com Deus – Estudo Bíblico sobre Jejum
4. Como administrar tudo o que Deus te deu – Estudo Bíblico sobre Mordomia
5. Por que a pregação é a voz de Deus na terra – Estudo Bíblico sobre Pregação
6. O que Deus realmente procura em um adorador – Estudo Bíblico sobre Adoração
7. Como falar com Deus e ser realmente ouvido – Estudo Bíblico sobre Oração
8. A coragem de chorar na presença do Senhor – Estudo Bíblico sobre Lamento
9. Os segredos para uma união fraternal indestrutível – Estudo Bíblico sobre Comunhão
10. Como viver um culto que não termina no amém – Estudo Bíblico sobre Vida de Culto
11. O que torna um ajuntamento cristão aceitável a Deus – Estudo Bíblico sobre Ajuntamento do Povo
12. A importância vital de declarar no que você crê – Estudo Bíblico sobre Confissão de Fé
