Deuteronômio 26.1-11
A fé cristã é histórica. Por "histórica" queremos dizer que é uma fé cujos "eventos fundantes" tiveram lugar no tempo e no espaço. Na antiga aliança, o "evento fundante" é o êxodo; na nova aliança, os atos salvadores de Deus manifestados na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus.
Eis aí um contraste do cristianismo com outras manifestações religiosas que têm origem em lendas e mitos, mas não em uma realidade. Isto explica por que a tradição judaico-cristã tem tantas festas.
Nas festas, o povo alegremente celebra os atos libertadores e salvadores de Deus na História. Ademais, a celebração destas festas envolve evidentemente uma confissão de fé: a festa não é um fim em si. Antes, é uma declaração do que se crê quanto à ação de Deus.
Na verdade, todo culto cristão é em si uma confissão de fé: no culto, os cristãos celebram a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, que se encarnou, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação (Rm 4.25; I Co 15.3).
Nossa convicção é que os cristãos sofrem prejuízo em sua vida espiritual quando não levam em consideração o aspecto confessional do culto. Esta é a questão abordada no presente estudo.
1 - O USO DAS CONFISSÕES DE FÉ NO CULTO
Não é sem razão que desde muito cedo na história do cristianismo os cristãos tem elaborado confissões de fé.
Nos primórdios do cristianismo merecem menção o Credo Apostólico (expresso na primeira pessoa do singular – “Creio”), o Credo Niceno (expresso na primeira pessoa do plural – “Cremos” e o Credo Atanasiano (bem maior que os outros dois, concentra sua atenção na doutrina da Santíssima Trindade).
Até hoje estes credos são utilizados em muitas celebrações litúrgicas com muito proveito para os fiéis. Os credos apresentam de forma resumida o conteúdo da fé cristã.
De fato, a confissão pública da fé em um culto não é uma "invenção" cristã. Já nos tempos da antiga aliança era assim. O texto de Deuteronômio 26.5-9 mostra uma assembleia litúrgica em que o fiel da antiga aliança dava testemunho de sua fé de maneira pública.
No entanto, alguns crentes, dependendo da denominação da qual são membros, ficam envergonhados ou confusos em um culto no qual se proclama publicamente a fé pela recitação de um credo, como por exemplo, o Apostólico, certamente o mais conhecido e utilizado de todos os credos.
Tal constrangimento se deve ao fato de alguns, erroneamente, pensarem que a recitação de um credo se parece com uma "reza". De fato, é possível que alguns crentes simplesmente pronunciem as palavras de sua confissão de modo mecânico e irrefletido.
Mas isto não quer dizer que todos que recitem uma confissão em um culto, o façam de modo impensado. Há quem se incomode com uma confissão pública de fé por meio da recitação de um credo por julgar que tal ato "parece coisa de catolicismo romano".
Pensar assim é demonstrar um preconceito que não tem razão de ser. Estas confissões de fé não são patrimônio exclusivo do catolicismo romano. Antes, constituem-se em patrimônio da fé cristã, sendo comum a todos os ramos do cristianismo.
Por isso, evangélicos de todas as tendências (pentecostais ou não) podem, sem receio, publicamente confessar sua fé em seus cultos, utilizando para tanto os credos.
Salmos 119:46
"Também falarei dos teus testemunhos na presença dos reis e não me envergonharei"
2 - A IMPORTÂNCIA DAS CONFISSÕES DE FÉ NO CULTO
Qual é, em termos bem práticos, a importância da confissão de fé em um culto público? É grande a importância, sem sombra de dúvida. Alguns aspectos desta importância podem ser apresentados, a saber:
Obediência à vontade do Senhor
A confissão de fé em um culto público é, em si mesma, obediência à vontade do nosso Deus. "Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante do meu Pai que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus" (Mt 10.32,33);
Glorificação ao Senhor
O biblista G. E. Wright em seu livro O Deus que age (publicado no Brasil algumas décadas atrás pela ASTE) defende a tese que a teologia bíblica é a recitação dos atos de Deus na História, a favor do seu povo, e a resposta de louvor do povo fiel ao seu Senhor.
Quando em culto confessamos nossa fé, estamos apresentando os atos de Deus para nossa salvação. Com isso, glorificamos o Senhor;
Fortalecimento da fé
A recitação humilde e consciente de um credo é poderoso instrumento para fortalecer a fé dos crentes. Quando em um ajuntamento litúrgico confessamos nossa fé, e meditamos nas palavras que pronunciamos, alimentamos nossa fé. Neste momento, relembramos aquilo em que cremos. Daí ser importante a recitação dos conteúdos básicos da "fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (Jd 3);
Enriquecimento litúrgico
Liturgias que excluem o momento de confissão de fé ficam empobrecidas. A atual tendência evangélica brasileira é dar ênfase exagerada ao louvor, mesmo que isso represente prejuízo para outros momentos litúrgicos igualmente importantes.
Para muitas igrejas a confissão pública da fé em um culto por meio da recitação de um credo cristão é uma grande novidade. Não há dúvida de que as confissões de fé no culto representam um enriquecimento da vida litúrgica do povo de Deus;
Instrução aos fiéis
Com toda certeza, o uso de confissões de fé nos cultos é poderoso instrumento didático. Os crentes podem aprender muito, sobre a "inteligência da fé", com o uso de confissões. Não se trata, evidentemente, de algo mecânico, feito automaticamente.
Muito pelo contrário: se refletirem com o devido cuidado no que fazem no culto, eles serão instruídos e alimentados em sua fé, na caminhada da vida cristã;
Testemunho aos não-crentes
Em nossos cultos sempre temos a presença de visitantes, que não pertencem (ainda?) à nossa congregação de fé. Sendo assim, quando todo o povo confessa sua fé, está dando aos não-crentes uma declaração acerca do que creem.
Desta maneira, poderá ser despertada uma curiosidade nos não-crentes, a respeito do que os cristãos crêem. A partir de tal curiosidade, poderá surgir um diálogo evangelizador entre crentes e não convertidos.
DISCUSSÃO
- Por que o Credo Apostólico tem sido praticamente abolido das liturgias em muitas igrejas evangélicas?
- Você acha que nos cultos atuais, em geral, a emoção tem suplantado a reflexão?
Autor: REV. CARLOS RIBEIRO CALDAS FILHOS
Lista de estudos da série
1. Por que você deve ter cuidado com o que promete a Deus – Estudo Bíblico sobre Juramentos e Votos2. O significado real por trás do batismo e da ceia – Estudo Bíblico sobre Sacramentos
3. O segredo da intimidade profunda com Deus – Estudo Bíblico sobre Jejum
4. Como administrar tudo o que Deus te deu – Estudo Bíblico sobre Mordomia
5. Por que a pregação é a voz de Deus na terra – Estudo Bíblico sobre Pregação
6. O que Deus realmente procura em um adorador – Estudo Bíblico sobre Adoração
7. Como falar com Deus e ser realmente ouvido – Estudo Bíblico sobre Oração
8. A coragem de chorar na presença do Senhor – Estudo Bíblico sobre Lamento
9. Os segredos para uma união fraternal indestrutível – Estudo Bíblico sobre Comunhão
10. Como viver um culto que não termina no amém – Estudo Bíblico sobre Vida de Culto
11. O que torna um ajuntamento cristão aceitável a Deus – Estudo Bíblico sobre Ajuntamento do Povo
12. A importância vital de declarar no que você crê – Estudo Bíblico sobre Confissão de Fé
