Marcos 16.7; Lucas 24.4-12; João 21.14-19
Introdução
É uma dolorosa tragédia cair no erro e no pecado. Mas, quanto é também consolador e suave o retorno à graça, à fé, aos pés do Mestre a quem se magoou! A reabilitação moral de uma alma que tresmalhou é sempre um documento vivo e flagrante do inapagável amor de Cristo para com os seus.
Pedro, o pobre apóstolo que negou três vezes a seu Mestre, mercê da graça, não ficou no desvio. Restabeleceu-se. Antes da própria queda, Cristo avisou a Pedro: "Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos."
Era uma réstia de luz no crepúsculo vespertino. A hora da queda lá está a graça: "...e Jesus olhou para Pedro." Após a ressurreição, Cristo continua a obra de reabilitar o discípulo frágil. Manda avisar aos amigos "e a Pedro" (Mc 16.17), que os espera encontrar reunidos.
Após haver aparecido a Maria Madalena e a outras mulheres, horas depois, é a Pedro que o Senhor primeiro se apresenta vivo, antes que a qualquer dos demais apóstolos (Lc 24.34-35).
Ainda por duas ocasiões, aparecia Jesus aos apóstolos juntos, inclusive Pedro, dando-lhes paz e consolo, sem distinguir uns de outros (Lc 24.24-36). Na lição de hoje, Cristo vem pela terceira vez reunir-se ao seu grupo de apóstolos,
e é ainda a Pedro que ele concede maior cuidado e atenção (Jo 21.7,10-11), recebendo dele serviço prestimoso à beira do lago.
E foi depois de ter reconfortado o apóstolo, fisicamente, alimentando-o após uma noite de muitos esforços e cansaço (Jo 21.15), só depois disso que Jesus, de modo definido, pôs à prova a lealdade de seu bom apóstolo, para restaurá-lo de público ao seu lugar de pastor das ovelhas do rebanho sagrado.
Depois desse trabalho diligente da graça, não admira que Pedro pudesse responder a Jesus com tanta presteza, com humildade e com absoluta sinceridade de alma: "Senhor, tu sabes tudo e sabes que eu te amo!"
Cumpria-se nessa obra divina da reabilitação de Pedro a doce promessa do Salvador: "Vinde a mim... e vos aliviarei." Como é bom ser crente em Jesus, o amável, o suave, o paciente amigo, que tudo perdoa!
1. LUZ SOBRE OS TEXTOS
1. O objetivo da presente entrevista de Jesus com Pedro foi, ao que parece, reinstalar esse discípulo ao seu lugar de apóstolo, de modo público e muito claro, após sua negação trágica do Mestre no pátio do sumo sacerdote, como vimos na lição anterior.
Pedro assim entendeu a tríplice pergunta de seu Senhor. Foi uma recordação e advertência; vem como demonstração da grande bondade de Jesus para com ele (v. 17).
2. Note-se que foi Cristo quem abriu e iniciou a conversa (v. 15).
Era o amor divino provocando o amor do discípulo que se julgava, talvez, sem direito à confiança do Amigo a quem tanto ofendera.
3. Cristo, ao que parece, muito de escolha, usou dois verbos diferentes para exprimir o amor que requeria de Pedro.
Note-se mais que Cristo usou, na palestra, o nome com que, pela primeira vez, conhecera a Pedro: "Simão, filho de João." Isto era como que reinício de amizade. Era um como que novo encontro. O frágil Simão do princípio que ainda não chegara a ser "Cefas" ( = Pedro) ia recomeçar. E havia de ser Cefas. E, mercê de Deus, chegou ao posto!
Note-se, ainda, que Jesus não foi áspero nem rigoroso no exame do caráter do apóstolo que caíra no erro. Foi suave, dócil, benévolo. Veja-se. Cristo não disse, nem perguntou a Pedro: "Estás arrependido?" ou: "Estás agora humilhado?" ou: "Tomaste juízo agora?"
Apenas lhe falou ao coração: "Amas-me, Pedro?" Devia haver tal acento na voz do Mestre, que Pedro não vacilou na réplica imediata: "Sim, meu Senhor, sabes muito bem que eu te amo!"
Na primeira e segunda perguntas empregou um verbo (em grego = agapáo). Na terceira, empregou outro verbo (em grego = philéo). O apóstolo Pedro, todavia, só usou, em suas três respostas, conscientemente, a segunda forma verbal ( = philéo).
Tanto agapáo como philéo significam amar, estimar, querer bem; e são, mesmo por isso, usados muitas vezes um pelo outro, no Novo Testamento. Todavia, há entre os dois verbos esta diferenciação: agapáo é amor e estima racional, inteligente, que admira o objeto amado, as suas qualidades; amor de puro desinteresse, alto e elevado, e que se sacrifica pelo ente amado.
Philéo é amor e estima instintivos, é amor sentimento, íntimo, amor pessoal, amor-por-amor, que não indaga as razões de sua preferência. O primeiro corresponde ao latim amare. O segundo, ao latim diligere.
Na primeira e segunda perguntas, Cristo empregou agapáo, parece-nos, para pôr à prova a humildade de Pedro. E o apóstolo saiu-se bem do exame, neste ponto.
Usou sempre philéo, como que para afirmar ao Mestre querido que se Ele não tinha direito algum de declarar-lhe um amor alto, refletido, que vem do raciocínio; o amor mais elevado, por isso que caíra tão lamentavelmente e demonstrara sua fragilidade, tendo falhado na reflexão e no raciocínio, todavia, tinha certeza de que o amava muito, com amor intenso, amor pessoal, amor de coração; sabia que o amava, a Ele, seu Senhor, porque o amava, e isto era tudo nele, Pedro.
Jesus aceitou essa comovente atitude humilde de seu discípulo; e, na terceira pergunta, colocou-se no mesmo nível onde estava Pedro, empregando então a palavra philéo. Cristo ficara satisfeito com esse "amor-por-amor" de seu apóstolo, e o santificou com seu beneplácito.
4. Jesus, na primeira pergunta, usou a frase: "mais do que estes?"
Percebe-se a alusão evidente à atitude presunçosa de Pedro, um pouco antes de negar ao Mestre, afirmando que mesmo que "os outros" o abandonassem, ele ficaria fiel até à morte (Mc 14.29; Jo 13.36-38). Agora, Pedro era "outro".
Não inclui, em sua resposta, "os outros". Disse apenas, com modéstia e recato: "Senhor, bem sabes que te amo!" Evidentemente, a lição foi boa. Pedro estava mudado.
Aprendeu a ser mais humilde, bem como a não mais confiar em si próprio. Jesus, igualmente, aceitou essa nova atitude do apóstolo e não usou mais a frase candente nas demais perguntas.
5. É interessante notar que nosso Senhor, dando a Pedro o tríplice encargo de pastorear o seu rebanho espiritual, escolheu também três palavras de sentido específico.
Foram as palavras "cordeiros" (v. 15), "ovelhas" (v. 16), "ovelhinhas" (v.17).
Nessa tríplice classificação está todo o rebanho cristão. "Cordeiros" são os crentes novos, ou na idade ou na experiência, de fé ainda tenra e em desenvolvimento. "Ovelhas" são os crentes já adultos na fé e na experiência.
São os que Paulo denomina os "fortes na fé", que se alimentam de sólidos espirituais. "Ovelhinhas" são os crentes humildes, tímidos, enfermos. São os que Paulo denomina os "irmãos mais fracos" na experiência doutrinária.
Há, realmente, no grande e amado rebanho de Jesus estas três classes típicas — os novos na fé, os adultos na graça e na experiência e os irmãos tímidos, que sofrem com todos os males que, infelizmente, há ainda no meio do rebanho.
Paralelamente, também Cristo usou duas palavras diferentes no sentido e na expressão, no original, para definir a obra pastoral do apóstolo. Na primeira e segunda perguntas, o verbo é "apascentar" (vv. 15 e 17), significando dar alimento próprio ao rebanho, nutri-lo e fazê-lo sadio e de bom crescimento (Is 40.11; Ez 34.2-10; At 20.28; I Pe 5.2,4).
Este "apascentar" é, pois, a função do pastor crente, de doutrinar o rebanho, de instruí-lo. Já na segunda pergunta, Cristo usou a palavra "pastorear", função do pastor de um rebanho em dar-lhe direção, orientação, vigilância, defesa, governo e correção (Hb 13.20; I Pe 2.25).
Pedro recebe, assim, como todos os pastores de todas as épocas, o duplo e honroso encargo de instruir o rebanho de Deus e governá-lo. Está nisto toda a obra boa dos pastores da Nova Dispensação.
6. Pedro usou duas palavras, também diferentes, para expressar o verbo "saber".
Na primeira e segunda respostas (vv. 15 e 16), empregou o verbo grego que significa "saber, conhecer, ter ciência de alguma coisa, ideia ou fato".
Na terceira resposta, que foi enfática, usou o verbo "saber" no sentido de "conhecer por experiência" própria, ou por intuição, ter consciência de algo, ter certeza. E ainda acrescentou: "sabes todas as coisas". Era o máximo a que Pedro podia chegar para afirmar indubitável o seu afeto para com o divino Mestre.
7. Nos vv. 18 e 19, Cristo evidenciou que aceitou os protestos de amor do apóstolo, revelando-lhe que, de fato, ele seria obediente a Ele dali por diante, segui-lo mesmo até ao martírio.
Clemente, entre outros, conta que, 34 anos depois desta conversa com o Mestre, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, em Roma, ao lado da sua fiel esposa, também mártir, tendo feito fidelíssima confissão de fé perante os algozes.
Se negara um dia o Mestre, este lhe deu o poder, mais tarde, de "glorificar a Deus" por sua vida e morte (v. 19). Pedro ficou triste por haver Cristo repetido a pergunta: "Amas-me, Pedro?" — três vezes.
Esta tristeza já era evidência do amor do pobre apóstolo para com Cristo. Era o amor de Pedro, sentido e ferido agora pela recordação de ter vacilado um dia!
3. CORAÇÃO DA LIÇÃO
Sem dúvida, se pudéssemos contemplar o rosto do apóstolo e ouvir-lhe a voz, que lágrimas aquecidas não lhe estariam borbulhando dos olhos e quão trêmula e comovida não estaria a sua voz ao repetir, pela terceira vez, ao seu Amigo: "Senhor, tu sabes com certeza tudo, pois tu sabes com certeza absoluta que eu te amo, que te quero bem de todo o meu ser!..."
O crente verdadeiro pode, numa hora de vacilação, cair em pecado. Mas, não para nesse triste estado. A graça divina o socorre, o impulsionando a voltar à fé, à casa paterna e ao estado primeiro de redimido fiel.
E é porque o bendito Salvador está orando por sua ovelhinha, tantas vezes tresmalhada, que ela volta ao redil. Cristo orou por Pedro, e foi só assim que se tornou certa a sua reabilitação.
A prova decisiva de um coração crente arrependido e renovado é o amor para com Cristo. Jesus não indagou de Pedro, ao restaurá-lo, quais as suas convicções nele, qual a sua fé em Deus, ou a sua crença sobre a vida eterna. Apenas: "Amas-me?"
O maior mandamento é amar a Deus supremamente. Ora, amar a Jesus é amar ao Pai (Jo 14.11,21,23,24; 15.23).
O amor prova a fé, o arrependimento. É a virtude do crente. A obediência vem pelo amor. Pelo amor é que o crente pode até dar a vida por seu Deus, e com transportes de santo júbilo. Pedro, sim, caiu, um dia.
Mas, Pedro amava a seu Salvador e Pastor. E reabilitou-se, vindo a ser, na sua carreira cristã, uma "glória" para o nome de Cristo.
4. PRÁTICA
"Depois de terem almoçado..." (v.15) Como nosso Senhor sabe distinguir bem a nossa fragilidade humana! Às vezes, o cansaço, a fome e a doença são terrenos propícios para grandes quedas morais.
Antes de provar o espírito de Pedro, Jesus reanimou-lhe o corpo cansado de toda uma noite de exaustivo esforço (v. 3), com um bom repasto. O homem vive "do pão" e da "palavra que sai da boca de Deus". Os dois juntos, em medida proporcional ao valor de cada um, são a harmonia do caráter.
"...segunda vez... terceira vez..." (vv. 16 e 17). A insistência de Jesus, quando faz perguntas aos amigos, é ato de mercê. Foi pela reincidência da pergunta que Pedro entendeu o alcance dela e do pensamento de seu Senhor.
O hipócrita não suporta o exame do Mestre. Foge logo, foge correndo. Não foi assim com Judas? O jovem rico, retirou-se triste da presença de Cristo. Por quê? Porque não pôde dar conta da prova!
"Tu sabes... tu sabes... tu sabes tudo... e sabes que te amo." Bravo, Pedro! No pátio da casa de Caifás tu dizias a uns empregados: "não sei... não sei quem é este Jesus... não sei..." Mas, agora, louvado seja o Senhor, tu estás firme e falas com eloquência e clareza! Quantas vezes posso eu repetir a Cristo, como Pedro: "tu sabes... que te amo?"
"Apascenta... Pastoreia... Apascenta..." (vv. 15-17). Jesus honra a quem o ama. Pedro teve o privilégio de ser promovido de "pescador de homens" a "pastor de almas". Como pescador, realizava a obra missionária. Como pastor, edificava a igreja de Deus, sustentando-a pela doutrina e pelo governo cristãos.
"Depois de assim Jesus falar..." (v. 19). Que foi que houve? Foi Pedro posto como chefe dos colegas ou da igreja?
Foi Pedro coberto de ouro e de prata? Foi Pedro aclamado o infalível "vigário" de Jesus no mundo?
Não. Veja-se o resto do v. 19: "...depois de assim falar... disse-lhe Jesus: segue-Me!" Eis a grandeza do crente — ser seguidor do Mestre, andar com Ele, viver com Ele, morrer junto a Ele e com Ele reinar para sempre!
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
