Pedro e o chamado para ser santo - Estudo Bíblico sobre o apóstolo Pedro


1 Pedro 1.13-17; 2.1-5

Introdução

"Por isso..." "Portanto..." (I Pe 1.13; 2.1). Com essas duas frases abre o apóstolo, um tesouro de verdades ricas, eternas e imortais. A vida do cristão é como que um compêndio de lógica irresistível.

Dadas certas premissas e postas certas circunstâncias, vem uma conclusão reta, segura, indestrutível. "Por isso" o quê?

Por isso, diz Pedro, que sois eleitos de Deus (1.1), sois regenerados pelo Espírito (1.2,3), sois possuidores de uma herança perfeita (1.4), sois guardados para a salvação pelo poder invisível da Onipotência Divina (1.5), sois provados com vantagem na vossa fé vitoriosa, podendo regozijar-vos, com o Senhor, na vossa mesma aflição pelo Reino eterno (1.6-9), sois mais do que os anjos, tendo a experiência da graça, que a eles fascina e atrai (1.10-12); "por isso", sede santos e que na vida cristã realizeis os frutos da santidade.

E, à vista disso, "portanto" (2.1), fugi dos erros que são incompatíveis com o caráter dos santos em Deus, o Pai; crescei no vosso bom e amável Redentor; tornai-vos família de Deus, edifício de sua predileção e sacerdócio do seu santo Templo Espiritual.

A santidade é necessária na vida dos salvos. Deus é santo e não pode ter amizade com quem não seja santo; Deus é Pai e exige filhos limpos de coração; Deus é Juiz e requer condutas à altura de sua dignidade. "Portanto", sede santos.

Sede puros. Sede sóbrios. Sede obedientes. Sede fortes. Sede cristãos de verdade! Tal é a doutrina do apóstolo Pedro nesta lição. 

E temos tal conduta? E somos conscientes da graça que recebemos, vivendo como convém, piamente, santamente, no mundo? Reflitamos o pórtico maravilhoso: "Por isso..." Sim, pensemos na nossa responsabilidade: "Portanto..."

1 - LUZ SOBRE OS TEXTOS

"Cingido... entendimento..." (1.13). Pedro usa, aqui, uma figura oriental. 

Como o peregrino ou o trabalhador costumava prender com um cinto forte as vestes largas e amplas que eram usadas, na época, a fim de ficar livre para agir e andar; assim deve o crente, cheio das graças divinas, dominar seu pensamento, vontade e sentimento, ser senhor de suas ações e estar apto a proceder no mundo com a capacidade de um remido e santo do Senhor.

"Sede sóbrios..." (v. 13). A concepção apostólica da sobriedade é ampla. E mais do que ter temperança no comer ou no beber. É a dieta de um caráter que sabe dominar-se em tudo desde o que se refira a alimentos até às ações e pensamentos. É o governo-próprio, circunspecto e inteligente (I Tm 3.2; Tt 1.8; 2.2).

"Esperai... Cristo..." (1.13). Nisto expressa o apóstolo qual a atitude do crente que quer atingir a santidade. Ao lado do domínio do eu, cabe-lhe manter fiel perseverança na fé em Jesus.

A "graça", aqui, é a da salvação completa que virá com a manifestação do Filho de Deus em sua vinda gloriosa, a reunir seu povo (2 Tm 1.6-7). Esta salvação já "está sendo trazida." Já tem começo agora mesmo na nossa conversão. É o "rio da água da vida" que já está fluindo em nossa alma, a fonte de que fala João (7.38-39).

"Obediência..." (1.14). Bela frase: "filhos da obediência!" Isto é, filhos de Deus que têm como qualidade nata e normal dar-lhe submissão, obediência alegre. A santidade só é possível a gente desse teor.

Fora daí não é possível atingir a santidade. E como é que a obediência opera? Na vida prática. O apóstolo diz: "não vos conformando com as cobiças..." Isto é, o cristão modela a sua vida de modo diferente do modelo do mundo. Este vive na ignorância (1.14).

O crente vive na luz. O mundo se alimenta de "cobiças" (1.14). O crente se farta do manjar puro da Palavra (2.2). As "cobiças" são defeitos do homem natural, que vive de suas paixões desregradas. O crente é sóbrio e é santo (2.15).

"Assim como é santo... sede santos..." (1.15,16). Estes textos são a medula da doutrina de Pedro sobre a santidade. Para ele, é questão de vida ou de morte a santidade na vida e na conduta do cristão. Porque Deus é santo. Porque o Deus santo requer súditos santos.

Eis tudo. Há uma comparação aqui: "assim como..." Isto é, se o nosso Deus é santo os seus seguidores devem imitá-lo. Mas, é possível ser o crente santo como o seu Deus é santo?

É e não é. Santo como Deus, em si perfeito, absolutamente impassível ao mal, não é possível alcançar, ninguém, senão o Deus Triúno. Mas, a santidade relativa, que cabe na medida de nossa personalidade, que enche o nosso tesouro, que completa o nosso caráter, isso é possível, é desejável, é atingível, é certo.

Nossa santidade é como a de Deus, porque tem a dele como padrão. É como a de Deus, por vir a nós por sua graça pura. 

É como a de Deus, porque nos completa como homens remidos, qual é completo o nosso Deus como Deus. Nossa santidade não se alcança num pulo, num passo. Ela vem aos poucos, gradativamente, até àquele dia em que será completa.

"Ele vos aperfeiçoará..." Isso mesmo ensinava Pedro (I Pe 5.10). Esta concepção de santidade já era antiga. No Levítico (= 11.44) está a sua raiz. Em Mateus (= 5.48) vem o seu louvor e o seu prestígio. A santidade do crente deve expressar-se na sua conduta: "no vosso procedimento", diz Pedro (1.15).

E convém ter em mente que a santidade afirma duas convicções profundas na alma do remido:

  • a de que o seu Deus santo é seu Pai, Pai imparcial;
  • a de que o seu Deus e Pai é também Legislador íntegro, fiel e certo (1.17; At 9.11; Rm 2.11; 2 Co 5.10).

A santidade enobrece o santificado, dando-lhe uma vida de reverência e devoção ao seu Deus (1.17).

"Deixando... maldade e dolo..." (2.1). Pedro usa de novo, aqui, outra figura familiar. Como uma pessoa se despoja das roupas usadas, talvez cheias de nódoas no contato com o ambiente, velhas ou rotas, assim o crente santificado tem de despojar-se dos velhos hábitos de seu tempo de gentio e pecador, dos erros e dos dolos, como peças sujas, inúteis, rotas.

Pedro enumera cinco pecados que o cristão deve "pôr fora", deixando-os de vez. A lista é pequena, mas abrange todos os pecados. Começa com os pecados grosseiros, compactos, fortes na sua ação geral e vai até ao pecado aparentemente irreconhecível, fino, rarefeito, elegante, comum no mundo. Vejamo-los:

(1) Malícia. E qualquer mal, todo o mal, é a malignidade sob qualquer aspecto (At 8.22; Rm 1.29; I Co5.8; 14.20).

(2) Em segundo lugar vem o engano. É a malícia como dolo oculto, e cujo fim único é conduzir alguém a caminhos errados e de desespero (I Ts 2.3).

(3) Depois, o fingimento toma pé. É o engano sob a capa da hipocrisia, aparentando querer bem, tentando ser o que não é e mostrar o que não tem, com ares pios, caridosos. É a perversidade de Judas beijando o santo e inocente Filho de Deus (Mt 23.28).

(4) Em quarto lugar aparecem as invejas. É a malícia, o engano e o fingimento interiores tomando o coração do invejoso, fazendo-o odiar no íntimo os que são melhores do que ele. A inveja é um sentimento odioso de raiva contra a prosperidade alheia. É um pecado algo rarefeito, oculto na alma.

(5) Por fim, a lista encerra a sua nota negra com as detrações. É a explosão dos outros quatro pecados: é "falar mal de outrem." É a maledicência em todas as suas formas. É a boca semeando a injúria, a calúnia, o juízo temerário, o desprestígio de outros. Que lista pequena e tão completa! A santidade não tolera esses pecados.

"Desejai... leite racional... O Senhor..." (2.2,3). Nova figura familiar de Pedro brilha aqui. O crente, no processo de santificação na terra é como uma criança, é como o corpo infantil sadio, mas frágil, que necessita do alimento que lhe é propício à vida.

O crente, para ser santo, precisa ter "o desejo" do "leite" bom, isto é, precisa ter apetite pela piedade, que só se satisfaz com a Palavra genuína do Evangelho e com a comunhão com Cristo (2 Tm 3.15,16; Mt 18.3; Ef 6.24).

Contra o pecador só há um recurso: estar com Deus, com a sua doutrina, com o seu Filho amável. A experiência cristã é essa. Sempre foi e será essa.

"Chegando-vos... pedras vivas..." (2.4,5). Pedro muda a figura de novo. Agora, o crente bem alimentado passa a crescer, como elemento escolhido por Deus, para ser parte do edifício maravilhoso, a casa espiritual, a família da fé, que tem Cristo como sua Base e Segurança.

"Pedra viva" é pedra sobrenatural. É um milagre. É a pedra áspera do pecador agora redimido transformado em santo do Senhor. São pedras que "se chegam" à Pedra Preciosa. Andam. Pregam. Vivem pela fé e para a salvação. Isso é obra do Deus santo e da santidade que ele dá a todo "filho da obediência" (1.14). Que maravilha!

"Para serdes um sacerdócio..." (2.5). Pedro fecha com chave de ouro a sua doutrina sobre a santidade dos cristãos com esta nova figura decisiva: "sois sacerdotes". 

De "pedras" eleitas passam os santos ao trono do Templo espiritual e são feitos então sacerdotes, amigos de Deus, adoradores dele e ofertantes do seu louvor e da sua glória! Foi esta verdade o fecho da Reforma Protestante no século XVI.

Será o segredo do evangelismo brasileiro até ao fim. O crente, santo de Deus, é sacerdote por Cristo, não para usurpar a glória do Redentor e tornar a sua posição única e intransferível, mas sacerdote da proclamação do sangue que redime de todo pecado. Vale a pena ser crente, não há dúvida!

2 - CORAÇÃO DA LIÇÃO

"Sede santos!" Nisto está um dos critérios seguros da divindade da religião cristã apostólica. 

Nenhum filósofo, nenhum credo, nenhum propagandista de religiões no mundo, antes do Filho de Deus e seus apóstolos, dera ao mundo exausto, aflito e abafado no calor mortal da incredulidade, um lema como este, uma doutrina tão pura, ideal tão nobre, um padrão qual este. Sede santos!

Os outros falaram em felicidade terrena, em paraísos feéricos e cheios de gozo, em um futuro de absorção e aniquilamento. Mas, o Cristianismo chegou à terra e revolucionou-a. Colocou junto às almas uma fonte salubre, pura, sã: a santidade como processo da vida feliz e útil. 

Ser santo não é ser impecável. Não é ser perfeito. É aspirar o melhor. É olhar a claridade. É sentir Deus na vida. É tentar a perfeição. É buscar o céu. É viver sob a graça que eleva e consolida o caráter.

Quem não vê nesse lema o dedo do Deus vivo, único e santo? A santidade escorraça de perto de si tudo o que é malignidade. E recolhe nos seus braços tudo o que é bom e venerável, e grave, e respeitável e útil. E eu, que tenho diante de mim este magnânimo doutrinamento, que papel represento agora? 

Estou no rol dos santos do Senhor? Que é a minha conduta diante de Deus e dos homens? Que espécie de alma tenho? Sou "filho", sou "pedra viva" sou "sacerdócio" do meu Salvador? Que é que eu sou?

3 - PRÁTICA

Há crentes e há aderentes da fé. Estes apenas falam, e não praticam. Aqueles agem e creem no Senhor. A santidade é um imperativo evangélico. 

Ou somos crentes "santos" ou não somos nada. A obediência é um sinal dos remidos "santos". Quem desobedecer à Palavra sem escrúpulo algum é gente de outra estirpe — a dos que "ignoram" a salvação.

Deus é santo, Jesus é santo. O Espírito é santo. "Sede vós também santos!" "Que honra nos dá o Evangelho, equiparando-nos, em nossa posição, à Trindade santa! O crente "deixa" e "recebe" sempre alguma coisa. Deixa a malícia, o dolo, a hipocrisia, a maledicência. E recebe o "leite racional da Palavra", a graça da "salvação", o selo da "realeza sacerdotal" em Cristo. Que lucro imenso tem ele!

"Ele" - a Pedra Viva, o Santo de Deus, o Filho Eterno - "Ele" é o nosso alvo. Achegue-monos à sua proteção! Há hoje crentes assim:

a) os que pensam que são santos (e não são);
b) os que pensam que não são santos (e são);
c) os que pensam em ser santos, e são santos na vida.

Os primeiros são hipócritas. Os segundos, humildes. Os outros, crentes completos. Em que classe destes o aluno está?

Autor: REV. GALDINO MOREIRA


Lista de estudos da série

1. Pedro e o dia do seu chamado 

Semeando Vida

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