1 Pedro 4.1; 5.8b-11
Introdução
"A fé sem obras é morta." Porque a fé é poder na vida, é graça no caráter, é inspiração para a conduta. "Quem crê está salvo" do pecado e da força do pecado. O sangue de Cristo é purificador. Transfigura a alma e santifica o corpo. O cristão dá frutos para a santidade.
Seus desejos são espiritualizados. Sua vontade é libertada dos vícios. Sua mente recebe a varredura divina, que clareia todo o seu contorno íntimo.
Pedro, na velhice, olhando o bem que em sua vida operou o dom da graça salvadora, não pode esquecer de entregar aos crentes, na labuta da fé e no meio das contínuas malignidades dos gentios, a advertência benéfica: "Não deveis viver mais sob as influências dos vícios, mas sob o domínio da soberana vontade divina" (4.2). O cristão morre para o mundo e para a carne.
O seu passado pecaminoso é apenas, para ele, um motivo de maior e de mais intensa resistência às paixões humanas. Quem é de Cristo vê a Deus, e para vê-lo é preciso ter limpo o coração.
Feliz aquele que pode reconhecer o "leão rugidor" e atacá-lo de frente, vitorioso em Deus. Isto só é possível ao que é puro de mente e reto de sentimentos, ao que tem firme a mão do seu Deus. "Havendo Cristo padecido na carne, armai-vos de seu bom exemplo..." (4.1). Palavra profunda, quão sábia! Ouçamo-la.
1 - HISTÓRICO
O texto de hoje vem da I Carta de Pedro, escrita aos judeus crentes dispersos por vários lugares da Ásia (1.1), entre 64-65 A. D., de Babilônia (ou de Roma, segundo pensam alguns).
Quatro temas específicos ocupam os tópicos desta Carta:
(1) A Fé (1.1-2.3)
Sobre este tema Pedro desdobra três ideias: a vida da fé (1.3-5), a prova da fé (1.6) e a prática da fé (1.13-2.3).
(2) A Santidade (2.4- 3.9)
Sobre esta tese Pedro desenvolve duas ideias: a vida da santidade (2.4-10) e a prática da santidade (2.11-3.9).
(3) A Conduta Cristã (3.10-5.7)
Sobre este tema Pedro dá duas ideias: a evolução da conduta (3.10-22) e o método da conduta (4.1-5.7).
(4) O Conflito Espiritual (5.8-14)
Sobre este assunto Pedro oferece duas ideias: a natureza do conflito (5.8-9a) e o poder para ganhar no conflito (5.9b-14). Nossa lição faz parte do 3º e 4º tópicos, isto é, a Conduta e o Conflito Cristãos. Sobre os deveres da pureza e da santificação é útil reler I Pe 2 e 3 com atenção.
2 - LUZ SOBRE O TEXTO
"Havendo Cristo padecido na carne" (4.1). Pedro está continuando aqui o pensamento iniciado em 3.13-22, de que ao crente compete não esmorecer na prática do bem, embora sofra perseguições por isso.
Pois Cristo saiu vitorioso exatamente por ter sofrido pelo bem. Cristo é o nosso exemplo, diz agora Pedro. Ele sofreu "na carne", isto é, como homem, em sua vida terrena.
A frase: "sofrer na carne" significa morrer. É uma frase comum nos escritos dos apóstolos, para dizer: "Quando uma pessoa morre, fica fora do poder e da ação do pecado" (Rm 6.7-11).
O crente morre em e com Cristo, espiritualmente, e por isso se liberta da lei do pecado e de sua influência.
"Armai-vos deste pensamento" (4.1). Isto é, tende a mesma disposição, o mesmo propósito, conduta, modo de ver e agir que Cristo teve — a de sofrer na carne para vencer o pecado e sair fora de sua atuação (Fp 2.1-5).
Seguir o exemplo de Cristo é ter uma arma defensiva própria à vitória sobre o pecado. O crente cessa de ter relações com o pecado quando está morto ao pecado e unido a Cristo (Cl 2.20; 3.3; II Tm 2.11).
"Para que não vivais..." (4.2). Isto é, como o crente morreu em Cristo, segue-se que na sua vida nova sobre a terra não tem mais nada que ver com os pecadores do mundo, e, sim, com a vontade de Deus.
A frase: "cobiças dos homens" significa "os desejos maus e desregrados da natureza humana." No v. 3, o apóstolo cita alguns desses vícios e excessos.
"Basta o tempo passado..." (4.3). Isto é, o crente antes de ser crente viveu no pecado. Pois que agora viva para Deus! No passado fez ele companhia aos pagãos, conduzindo-se como estes nas suas loucas vaidades e erros.
Pedro cita meia dúzia de costumes pecaminosos, para exemplificar o "desejo dos gentios":
- dissoluções, isto é, toda sorte de impurezas morais;
- concupiscências, isto é, o predomínio dos baixos sentimentos e paixões da carne (Rm 1.24);
- bebedices, isto é, intemperança no uso de bebidas fortes (I Co 6.9-11);
- orgias, isto é, reuniões onde predominam os desregramentos, o prazer desordenado e a paixão carnal (Rm 13.13; Gl 5.21);
- borracheira, isto é, festividades onde há excesso de costumes e onde não há domínio próprio;
- idolatrias, isto é, reuniões de cunho religioso festivo, nas quais predominam ritos indecentes e imorais, licenciosos, inteiramente contrários à honra humana e à glória de Deus (Rm 1.26-31).
Todos esses vícios são contra a modéstia, a temperança, a pureza e a dignidade humanas.
"Nisto estranham..." (4.4). Isto é, os vossos antigos cúmplices no pecado, não vos tendo mais ao lado deles, ficam surpreendidos, e interpretam mal o vosso novo modo de proceder. Eles não entendem a vossa recusa, agora, aos seus costumes pagãos. Por isso, "falam mal de vós."
Isto é, blasfemam, dizem injúrias e calúnias contra vós e vossos novos intuitos (Mt 9.3). A vida pura do crente, de abstenção às coisas do mundo, inspira a este o ódio os que assim agem. E uma honra sofrer por isso!
"Darão conta..." (4.5). A maldade dos pagãos para com os crentes não ficará impune. Deus, a seu tempo, os chamará as contas.
Pedro afirma esta verdade aqui para conforto dos cristãos cruelmente perseguidos e maltratados pelos pecadores dissolutos da época. Assim é em todas as épocas.
"O diabo... como leão" (5.8). Pedro inculca aos crentes uma vida de temperança e de vigilante cuidado contra os assaltos do diabo, que tem como finalidade impedir a santificação do caráter dos salvos.
A Escritura apresenta o diabo, em regra, sob tríplice aspecto: de serpente, de anjo de luz (2 Co 11.14) e de leão. Como serpente, o adversário tenta derrubar o crente por processos suaves, iludindo-o, fascinando-o com tentações sutis e agradáveis à vista. Assim fez ele com Eva (Gn 3).
Como ser angélico disfarçado, tenta derrubar o crente por processos enganosos, apresentando-lhe tentações de aparência pia, santa, reverente. Como leão, o diabo visa a derrubar o crente pela violência, pela perseguição, pela malignidade, pelo terror.
Pedro, aqui, desejava colocar os crentes de seu tempo em guarda contra esta cilada satânica, isto é, a de fazê-los apostatar pela força das violentas perseguições.
"Resisti-lhe... fé... irmãos... Deus dá graça..." (5.9-10). Pedro dá três armas poderosas aos crentes com as quais devem resistir ao adversário perverso:
(1) A firmeza da fé, a solidez de suas convicções, a confiança nas promessas, a indestrutível adesão à doutrina cristã que receberam e imperturbável comunhão com Deus (Ef 6.10-17).
(2) O exemplo de lealdade de outros crentes fiéis e vencedores, que no fogo da perseguição estavam de pé, firmes no Senhor (1 Co 10.13). Nos dias de Pedro, Nero, o terrível imperador, perseguia a todos os cristãos, judeus e gentios. Pedro citava estes como exemplo para aqueles.
(3) O propósito de dar-lhes socorro e glória na luta da fé. O Deus, por quem estavam sofrendo, não era ingrato. Era o Deus da graça, que os estava seguindo no combate. Era o Deus que os havia escolhido para um fim vitorioso em Cristo.
Era o Deus que os havia de edificar em "casa espiritual" (I Pe 2.1-10), completa, sólida, una e indestrutível (Ef 4.1; 2 Co 4.16-18; Mt 7.24-26).
O apóstolo finda a advertência deste capítulo com uma doxologia eucarística: "A Deus... pelo século dos séculos... Amém!" (5.11). Que importa o leão rugidor se temos um Deus assim, Forte e Bom?
3 - CORAÇÃO DA LIÇÃO
Cristo sofreu pelo bem. Por isso, pode atirar à face do mundo este repto glorioso: "Quem me pode arguir de pecado?" O crente deve e precisa imitar o seu chefe. O mundo, o diabo e a carne fazem tudo para arrastar o servo de Deus aos antigos costumes, ao passado de erros e maus hábitos que teve.
Mas, o crente morreu para o passado e para o erro do passado. Não tem mais relação alguma com os vícios. Pouco importa que estes o persigam mediante as tentações, as violências, as perseguições.
O rugido do leão adversário não o intimida. Ele tem a fé como escudo, a graça divina como poder, o bom exemplo dos irmãos como estímulo.
A vida do crente deve ser pura, sadia, limpa. O cristão deve ter domínio de si mesmo em Cristo e pelo socorro de Cristo. Os vícios destroem o corpo e a alma. As dissoluções maculam a honra, deixando sempre vincos fortes de ignomínia nos que as praticam.
O cristão deve ser leal a seu Deus, no seu presente, e como testemunha de Jesus não pode aliar-se mais ao seu passado de "homem velho". Vale a pena sofrer pelo bem. É uma honra.
É meio de graça. E, no fim, jubiloso, o soldado cristão fiel ouvirá: "Eu, o Deus de toda a graça, te recebo como digno de meu Reino... Entra para o gozo de teu Rei!" (I Pe 5.10).
4 - PRÁTICA
Acima das provas está o exemplo de Cristo, que venceu pelo sofrimento. Sigamo-lo nesse caminho! A prontidão do crente em receber as perseguições em prol da causa cristã é o sinal certo de que realmente "morreu" ao pecado.
Sua lei é a vontade divina. Os hábitos e sentimentos impuros, sejam maiores ou menores, secretos ou públicos, são incompatíveis com o caráter cristão.
Não podemos ser iguais a Cristo, nem imitá-lo no grau a que Ele chegou como homem perfeito. Podemos, porém, ter o seu "pensamento", propósito, conduta, modo de agir. Ele mesmo nos ajuda a alcançar esta bênção.
A pureza pessoal e social provoca sempre o ódio dos que estão do "outro lado", o lado oposto.
O diabo é mau. Quando não derruba o cristão por meios suasórios e sutis, tenta fazê-lo pela força violenta e cruel. Resistir-lhe as ciladas — eis a função do crente.
Ou somos limpos em Cristo e pela Palavra de Cristo (Jo 15.1-4), ou estamos onde um dia foi parar o pobre filho pródigo, no lamaçal!
A fé nos mostra a graça. A graça nos conduz a Deus. E Deus nos "faz perfeitos".
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
