1 Pedro 1.22,23; 3.8-16
Introdução
Comove, na verdade, a alma crente a leitura saudável e edificante das epístolas inspiradas do apóstolo Cefas (= Pedro). Há nelas um perfume suave, inédito nos clássicos humanos da época — o perfume do amor fraternal desinteressado, do amor honesto, zeloso, quente e serviçal.
Sob o ponto de vista da psicologia humana, esta nota vibrante não era de esperar no Cefas rude, áspero, impulsivo, ardente e irrefletido que os Evangelhos retratam no início de sua carreira ministerial.
Mas, Pedro transfigurou-se. A graça agiu nele. E ao fechar, quase, dos lábios abençoados, para se ir à eterna bem-aventurança, esvazia-se o apóstolo de si mesmo, esquece-se, para aproximar de seu coração o povo do Senhor, a "geração santa..." (I Pe 2.9-10), e dizer-lhe, nos mais serenos e doces colóquios da amizade, os segredos da felicidade cristã:
"...obedecei à verdade... amai-vos de coração... Vivei unidos... retribuí o mal com o bem... casados, filhos, servos, senhores, amai-vos reciprocamente... sofrei por fé e por amor... sede afáveis... santificai a Cristo..." (I Pe 1.13-25; 3.1-18).
Parece uma orquestra, à surdina, levando-nos a alma ao alto, ao melhor da arte, que é a arte do sentimento. O cristianismo é o único poder que realiza milagres como esse. O cristianismo apanha o pródigo e torna-o o herdeiro do Rei! — O amor cristão é um dom de Deus.
E como dom é o único bem de que o Pai Celeste espera retribuição, a retribuição do nosso amor: "Amor com amor se paga..."
O apóstolo Pedro, graças a Deus, soube encerrar com brilho a sua jornada neste mundo, entregando-lhe as mais lindas e suaves lições de bondade. Sigamo-lo, em nome do Mestre, que o transfigurou tanto!
1 - LUZ SOBRE O TEXTO
"Tendes purificado..." (1.22). Isto é, a santificação espiritual. É o mesmo "estar limpo" de que falava Jesus aos apóstolos nas vésperas de sua morte (Jo 13.10; 15.2,3).
É a cultura da piedade, o crescimento do caráter cristão. Há duas "purificações" na vida do crente: a do sangue, a parte divina da salvação; e a purificação pela Palavra (Jo 17.17, 19), a parte humana, que realiza a espiritualização contínua do salvo.
"Na obediência à verdade..." (1.22). Isto é, a santificação mediante o reconhecimento das verdades cristãs reveladas e a prática dos ensinamentos evangélicos.
A "verdade", aqui, é o Evangelho como sistema divino da salvação. São muito sugestivos esses dois termos reunidos: "obediência" e "verdade". Um completa o outro. Esta sem aquela é só teoria. Aquela fora desta é temeridade.
"Tendo em vista o amor fraternal não fingido..." (1.22). A santificação do crente mediante a verdade produz um efeito salubre: a fraternidade sincera, desinteressada, genuína. (Jo 13.34; I Ts 4.9; Jo 3.14-18).
"De coração, amai-vos uns aos outros ardentemente" (1.22). Há duas surpresas neste mandamento apostólico: uma, mandar que os purificados pela obediência conducente ao amor fraternal se amem; outra, o uso dos termos mais ou menos sinônimos: "de coração" e "ardentemente".
A explicação é fácil. O apóstolo reitera o valor do amor fraternal aos que já se amavam para adverti-los do perigo de o perderem ou de o tornarem frio ou mesmo oculto no meio das perseguições a que estavam sujeitos e para crescerem nessa graça santificadora.
E acrescenta que essa fraternidade deve ser, além de não fingida, real e intensa: "de coração", isto é, genuína, sem hipocrisia, altruística, cheia de sentimento.
"Ardentemente", isto é, ardorosa, forte, imprescindível, sem formalidades exteriores sem aparatos falsos, sempre viva, e que independa de meras circunstâncias (Hb 13.1; Ef 5.2).
"Sendo regenerados..." (1.23). Isto é, nascidos de novo por obra do Espírito Santo (Jo 3.3). "Não de semente corruptível... incorruptível" (1.23).
Isto é, não por virtude de qualquer agência humana mortal, ou poder terreno, mas pela virtude divina, pela ação espiritual, mediante a verdade inspirada e imprescindível. (Vejam Tg 1.12; I Jo 3.9; Jo 1.12-13.)
"Finalmente... amando-vos..." (3.8). O apóstolo, aqui, com o conselho sobre o dever da fraternidade cristã, encerra a série dos "deveres sociais cristãos" que ele vem enumerando desde 2.13-25 a 3.1-7.
O amor fraternal é a cúpula das virtudes sociais evangélicas (I Pe 1.6-7). Pedro enumera cinco qualidades de caráter em derredor do amor dos irmãos:
- "ter-se o mesmo sentimento", isto é, unidade de fé e de prática; a compaixão, isto é, simpatia para com os sofrimentos dos outros (Rm 12.15; I Co 12.26);
- a misericórdia, isto é, ter coração terno e amigo, pronto a socorrer as necessidades dos irmãos, (Ef 4.32);
- a humildade, isto é, ter a atitude de desapego e de simplicidade, evitando parecer a outros como se fosse pessoa muito importante ou orgulhosa;
- a paz, isto é, não tendo gestos de vingança, de ódio ou rigor de tratamento, correspondendo mesmo ao mal com o bem (Mt 5.39,44; Rm 12.17).
O apóstolo, para fixar bem o sentido desta última recomendação, cita em termos gerais o Salmo 34.12-16, que enumera os benefícios temporais e eternos das virtudes da paz, da harmonia e do perdão entre os homens.
"Quem vos fará mal?..." (3.13). Neste versículo Pedro continua desenvolvendo o tema geral, mostrando como são afortunados os efeitos do amor cristão. Um deles é que a prática do bem, em regra geral, evita as lutas, as rixas e os males.
Deus socorre aos bons. No v. 14, o apóstolo passa a mostrar que mesmo nos casos em que um crente justo, pacífico e praticante do bem venha a sofrer por isso, tal ocorrência ainda lhe é benéfica, porque tem o louvor divino. Aliás, esta é a doutrina cristã desde os dias de Jesus (Mt 5.10; 2 Tm 3.12).
O crente não se intimida com a perseguição, nem se desanima. Pelo contrário, essa prova leva-o à santificação e a viver mais perto de Cristo (Is 8.12,13; Mt 10.28; Jo 14.1). E tudo isso é fruto do amor cristão.
2 - CORAÇÃO DA LIÇÃO
"Prontos para dar uma resposta..." (3.15). Pedro afirma que a paciência cristã, fruto do amor, dá ao crente fortaleza de ânimo e de convicções, tornando-o sempre capaz de defender sua fé, de a explicar aos ignorantes ou críticos, de propagá-la com clareza entre os não crentes.
A palavra esperança, no texto, é usada em sentido genérico, para significar a religião cristã revelada nos Evangelhos, toda a doutrina apostólica. "Com mansidão e temor", diz Pedro. Isto é, com modéstia, sem espírito de contenção, com doçura e cavalheirismo, com reverência, no temor de Deus.
"Boa consciência..." (3.16). Isto é, uma consciência em paz, que não acusa o crente de ter feito o mal ou o erro, mas que o aprova nos seus gestos de amor cristão e de fraternidade.
"Para que... aqueles que vituperam..." (3.16). A prática do bem dá ao cristão não só nobreza de caráter como também obriga os próprios inimigos espirituais a reconhecerem sua injustiça e mau feito, a se sentirem, dentro de si mesmos, como que diminuídos por serem injuriadores e maldizentes (Lc 6.26; I Pe 2.22).
A bondade não fica sem recompensa. Mais tarde ou mais cedo, mesmo dos adversários gratuitos ela recebe o devido louvor.
O nosso coração ou há de ser um santuário ou há de ser um cárcere. Ou abrigamos na alma, pela mercê divina, as virtudes que santificam, que enobrecem e que possibilitam a vida social harmoniosa e pacífica, ou trazemos em nós e conosco os impulsos que infelicitam o mundo.
Há uma virtude superior a todas, permanente e frutuosa: é o amor cristão, feito de alma e coração, feito de luz e claridade, elevado, nobre, dom celestial. "Permanecem a fé, a esperança, o amor.
Mas, a virtude maior é o amor" (I Co 13.13). Pedro compreendera essa verdade. E transmitiu à igreja de seu tempo e a nós a doçura de sua experiência nesse glorioso campo de ação: "Amai-vos de coração, com ardor e sem dolo!"
O amor cristão é de Deus e leva o homem a Deus. Quem ama é paciente, é longânimo, é compadecente, é humilde, é perdoador, é cavalheiro, é cordato, é de Cristo.
No santuário de nossa alma é ele o primeiro astro. Ao redor dele, de joelhos junto ao Deus triúno, ficam todas as graças salutares. Com o amor residem a unidade, a paz, a harmonia, a caridade, a fé, a esperança, o bem, a vida.
Pedro classifica a humanidade, no texto de hoje, só em duas classes: os bons e os maus; os que são perseguidos e os que perseguem; os que amam e os que odeiam; os que santificam Jesus no coração e os que o vituperam na vida. O amor cristão é índice final dos destinos.
Bem disse o Mestre: "Se me amardes, guardareis minhas palavras." Fora dessa concepção magnânima, o coração humano é uma oficina ou do ódio ou do egoísmo.
Pode haver filantropia, sociabilidade e caridade entre os pecadores, mas apenas como meio para um fim, como processo de vida em paz, como recurso hábil para obtenção de honras e glórias terrenas. Jesus os classificou bem: "Fazem boas obras para serem vistos por outros homens..." Que lugar ocupa em nosso coração o amor de Cristo?
3 - PRÁTICA
1. Obediência cordial à verdade leva à perfeição.
2. Quem ama a Cristo, ama a sua Palavra e purifica-se a si mesmo.
3. Não posso criar uma flor, mas posso plantá-la, regá-la e obter o seu rico e doce perfume.
Não posso criar em mim o amor que santifica, mas posso receber de Deus a sua raiz, plantá-la em minha vida, regá-la com a minha fé e desenvolvê-la com o dom da graça.
4. Pode-se amar de aparência e de verdade.
O amor superficial é tenro, perecível e mortal. O amor cristão sincero é obra divina na vida, e não muda nem perece.
5. O amor é como o óleo que não se mistura com a água.
O amor fervoroso, "de coração", jamais fez liga com o mero sentimentalismo.
6. Quem é crente não para no crescimento moral.
Com o amor que Deus lhe põe na alma ele vai desenvolvendo as outras virtudes: a união, a harmonia, o perdão, a serenidade de trato, a palavra de honra, a tolerância, a sinceridade...
7. O amor é saudável e evita muitos males.
Língua refreada e boca silenciosa não apanham brigas nem suscitam remorsos.
8. Onde reina o amor fraternal há santificação.
Cristo ganha altares e adoradores, e o adversário perde adeptos e correligionários.
9. O crente deve ser manso e elegante na sua conduta.
É incompatível com o seu caráter a atitude curvada. O amor é uma linha reta, que vem do céu ao coração regenerado.
10. Há três processos de se responder à injúria e à calúnia:
o desprezo, o revide violento "olho por olho..." — e a compaixão. O amor sempre usa a última arma, e sai vencendo.
11. O amor dá coragem de atitudes, cria novas amizades, glorifica a Deus e abate os maus.
Vale a pena praticar o amor, "dom excelente de Deus."
Ou você me ama e eu o amo; ou você me odeia e eu o odeio; ou você me ama e eu o ignoro. No primeiro caso, somos felizes. No segundo, somos maus. No terceiro, você é feliz e eu sou mau. Que lugar você tem?
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
