Mateus 16.13-20
Introdução
Nenhuma ideia boa e generosa, como nenhum esforço útil, neste mundo, chegam a realizar o que são e o que produzem se não forem aquecidos por um coração sincero, convicto e decidido a levá-los a cabo e a público.
Simão Pedro, "a boca de ouro" do colégio apostólico, no trecho que hoje ocupa a nossa atenção, deixou para o mundo, pela graça divina, a maior ideia ética e o mais sublime exemplo de fé e de convicção.
Ele apresentou à humanidade ansiosa de luz e de redenção, sem tergiversar e sem tremor na voz, o "Filho do Deus Vivo", o Cristo das profecias, o Verbo encarnado e humanado.
Simão Pedro errou várias vezes em sua acidentada carreira ministerial, mas, ao abrir os lábios para definir com clareza os sentimentos de sua crença cordialíssima, profunda e íntima — louvado seja o Senhor! —, ele não errou nenhuma vez.
Nisto foi infalível, porque não foi o "homem natural" quem disse uma só ideia, mas, sim, o "homem novo", inspirado e abençoado por Deus (Mt 16.17), o que confessou ter a maior de todas as verdades religiosas: Deus está em Cristo, o Messias Redentor humanado, ao alcance dos homens.
E devemos parar um pouco na vertiginosa caminhada da vida, a consultar o nosso próprio coração, com sincero esforço, a fim de vermos se já temos, como Pedro, a graça dessa fé vencedora e inspirada, a mesma que iluminou o colégio dos apóstolos. Temos ou não temos essa graça? E o Mestre nos pergunta, ansioso, agora: "E tu, quem dizes que Eu sou?"
1. HISTÓRIA
É preciso localizar bem as circunstâncias da lição para se ter perfeita clareza. Estava nosso Senhor já no último período do terceiro ano de sua carreira.
Duas correntes paralelas o seguiam: de um lado, a popularidade, o seu grande prestígio junto ao povo, em massa, que vivia surpreendido em face de suas obras e ideias; de outro lado, o ódio tremendo, embora velado, com a perseguição surda dos fariseus, dos sacerdotes e dos chefes religiosos da época.
Assim, Jesus resolveu fugir, por um pouco, a ambas essas forças, cada qual mais perigosa. Reunindo o grupo apostólico, foi até aos subúrbios da cidade de Cesaréia de Filipe, cidade bonita, pitoresca, saudável, perto do Monte Hermon e à altura de cerca de 500 metros acima do nível do mar, distando umas 5 ou 6 léguas ao nordeste do Lago da Galiléia.
Nesta região discreta congregou o Mestre os seus amigos mais íntimos, a fim de revelar-lhes definitivamente novas e importantes verdades, qual a sua real natureza e função, a sua obra de sacrifício em Jerusalém, em breve, as leis do discipulado crente e a aproximação do fim de sua carreira terrena (veja-se Mt 16.13-23; 17.1-8).
Há mais uma nota histórica de valor entre as circunstâncias da lição: é que Jesus tinha estado em oração solitária e pessoal antes de penetrar na alma de seus apóstolos a pedir-lhes que definissem a sua fé nele, bem como o seu amor para com Ele (Lc 9.18). Sem oração é impossível crer realmente.
A fé é dádiva divina, que Jesus pede ao Pai para quantos são dele. Já terá você, pela mercê celestial, o dom dessa fé que vê o infinito? Pedro recebeu-o e foi o que lhe valeu a glória de confessar o Cristo divino!
2. LUZ SOBRE O TEXTO
(Convém que o aluno acompanhe as notas aqui feitas aos versículos do texto do dia, em sua Bíblia, citação por citação.)
V. 13. Indo Jesus. A razão especial que levou Jesus a deixar a Galiléia era escapar à perseguição dos chefes religiosos do tempo (16.1-12).
Cesaréia. (Consulte-se um bom dicionário bíblico.) Perguntou. A iniciativa de provocar a confissão dos apóstolos, sobre sua Pessoa, partiu de Jesus mesmo. É Ele sempre quem começa em nós "toda obra boa".
V. 14. Uns dizem... outros dizem... Outros. A opinião popular sobre Jesus era variada. Todavia era ótima, pois julgavam-no um grande personagem religioso. No mínimo, algum profeta de renome, ressurreto. O rei Herodes Antipas fazia parte desse grupo popular (Mc 6.10).
O povo andava na expectativa de um Precursor do Messias (Ml 4.5; Mt 11.14; Jo 1.21). A diversidade de ideias do povo sobre o Cristo era resultante de sua ignorância real das profecias. A ignorância foi e é sempre a mãe da confusão em todos os setores da vida.
V. 16. Respondeu Simão Pedro. Jesus não buscava admiradores ou adesistas. Ele queria e quer confessores. Por isso, indagou do colégio apostólico sua crença a respeito dele próprio. Pedro, o porta-voz dos colegas, quase sempre, deu a resposta necessária (Mt 15.19; 19.27; Lc 12.41; Jo 6.68).
Os demais apóstolos concordaram com Pedro:
- porque a pergunta de Jesus foi feita a todos;
- porque não protestaram contra ele, no caso;
- porque Jesus, pouco depois, pedia a "todos" (e não só a Pedro) que guardassem reserva sobre quem Ele era (Mt 16.20).
Tu és o Cristo. Três conceitos vivos e fortes indicavam as palavras do confessor Pedro: Tu és o Messias esperado; tu és Deus mesmo, Deus encarnado (vivo); tu és o Redentor (pois esta seria a obra do Messias: "salvar o povo de seus pecados".)
Esta confissão apostólica era o fruto da graça (v. 17) e também de seguras convicções, reforçadas pela experiência (Jo 1.33,34,41; 20.31). V. 17. Bem-aventurado és.
Quem confessa a Cristo tem o maior tesouro. A fé é "dom de Deus". Somente o Pai é quem tem conhecimento certo do Filho, e só Ele pode revelá-lo aos corações humanos (Mt 11.27; Jo 6.44; 1 Co 12.3).
V. 18. Tu és Pedro. Ao crente que diz: "Tu és o Cristo", Ele recompensa com o "tu és Pedro", isto é, "um pedaço do edifício cujo fundamento é a Rocha Divina que sou Eu".
Esta pedra. Há um jogo proposital de palavras aqui. Pedro é "Petros"; e Rocha (= Pedra maciça) é "Petra". Petros é palavra masculina. Petra, feminina.
Petros vem de Petra. Quem é a Pedra? É Jesus mesmo, a quem Pedro confessava, ali. E Pedro declarou isso várias vezes (At 4.12; I Pe 2.4-8). Paulo ensinou a mesma coisa (Ef 2.20).
Por exemplo, a fé em Cristo ( = o Filho do Deus vivo) é pedra indestrutível, a fé que confessa o Salvador.
Edificarei a minha igreja. A palavra "igreja" só é usada, nos evangelhos, aqui e em Mt 18.17. Significa a comunhão dos salvos em Cristo, em todos os tempos. A igreja é o "Povo Eleito", fiel, de que fala Pedro mesmo (I Pe 2.9-10).
Portas do Hades (= Inferno), isto é, do mundo invisível, o reino das trevas. A igreja não será vencida nunca, É indestrutível e permanente (Hb 2.14-15).
Chaves. Símbolo de autoridade administrativa (Is 22.22; Ap 1.18; 3.7).
O sentido dessa autoridade entregue a Pedro foi dado logo a seguir: "Tudo o que ligares..." Esta honra não foi exclusiva de Pedro. Deu-a o Senhor a todos os apóstolos e à sua igreja como tal (Mt 18.17-18; Jo 20.22-23).
Pedro usou as "chaves" várias vezes, agindo pela igreja e como a igreja, em nome do Senhor (At 2.14-42; 8.21; 10.48; 11.17). As "chaves" não outorgam, por si sós, infalibilidade. Esta não está nos homens crentes. Está na Revelação divina (Jo 17.17).
V. 20. Então ordenou. Jesus tinha "hora" para tudo. Não convinha exacerbar os ânimos dos adversários antes do tempo, pois estes já andavam à cata de provas para denunciá-lo à pena de morte.
Note-se que Cristo não obrigava seus discípulos a mentir, dizendo-lhes que "afirmassem não ser Ele o Messias", mas pediu-lhes que guardassem em segredo o fato de que sabiam "Ser Ele o Messias"...
Para não se revelar uma verdade não é preciso mentir. Basta não declará-la por motivos justos; e que se diga isso mesmo a quem indague daquilo que a gente sabe, mas não deve revelar.
Veja-se bem que só foi após haver o colégio apostólico confessado sua fé no Filho de Deus que Ele pôde dar-lhes novas revelações, e muito importantes: sua obra expiatória (Mt 16.21), as leis do discipulado cristão (Mt 16.24-27) e a glória do futuro, pela transfiguração (Mt 16.28; 17.1-8).
Há muitos que vivem esperando "conhecer bem a teologia evangélica primeiro, antes de seguir o Senhor! É um erro. Ao que crê, Jesus vai dando conhecimentos maiores. É preciso crer primeiro. A fé abre a porta da ciência divina.
3. CORAÇÃO DA LIÇÃO
Pensar em Cristo e tê-lo em grande posição, não há dúvida, é um ato justo e digno, porque nosso Senhor merece o melhor conceito universal. Todavia, não é tudo.
O ato supremo e agradável a Jesus é confessá-lo com fé sincera, inteligente, razoável, amorosa. E como pode alguém provar que crê assim? Só há um documento: E seguir a Cristo.
Segui-lo como Pedro o seguiu, fielmente, afincadamente. Segui-lo como os apóstolos o seguiram, espalhando na terra o bem, em nome dele e para sua glória. Segui-lo contra tudo e contra todos, se for preciso. Segui-lo na prosperidade e na penúria. Segui-lo rente, sempre junto dele.
"Quem não crê..." O resto é uma tragédia: "está condenado!" Jesus é o Messias, o Deus-Homem, o Crucificado, o Ressurreto, o Eterno Mediador. Crê você nele?
4. PRÁTICA
Pedro ganhou, na companhia de Jesus, uma enorme riqueza: a glória de conhecer, por fé e por experiência, a pessoa do Cristo de Deus. Este conhecimento é ofertado a quantos queiram pedi-lo e buscá-lo. "Vinde a Mim!" — é o doce e sereno convite do Filho de Deus. Assim foi que chamou a Pedro, a João, a Tomé, a todos os seus amigos. Você já ouviu a voz do Mestre?
"Confessar a Cristo!" — que honra e que mercê! Pedro recebeu do céu este prestígio. Note-se, porém, que Pedro começou ouvindo a boa notícia sobre o Messias; depois, ficou amigo do Messias; em seguida, tornou-se discípulo dele e o amou de toda a sua alma. A confissão começa no coração (Rm 10.9-10). Passa aos lábios (Mt 16.16). Depois, cria mãos, pés, asas e vai "por todo o mundo".
Pedro recebeu a recompensa de sua fé praticante. Teve o louvor do Mestre, teve honras a desempenhar na Igreja do Senhor; teve revelações magníficas (sobre a Igreja, sobre a Cruz, sobre a renúncia pessoal...); teve o dom celestial em sua alma (16.17). Todo aquele que confessa a Jesus tem a recompensa e a aprovação de Deus.
Cuidado com o adversário! Pedro, após tantas maravilhas de fé, caiu em tentação e ia sendo pedra de escândalo no meio de seus colegas (16.22-23). Não nos vangloriemos dos dons da graça. Usemo-los com temor e santa reverência.
Seguir a Cristo significa também sofrer com Ele e por Ele. Pedro ouviu de Jesus exatamente essa verdade (16.23-28).
CONCLUSÕES
Os homens continuam, como os daquela época apostólica, a dar a Cristo salamaleques e cumprimentos. Mas, ele não aceita fúteis e loucas vaidades. Ele quer adoração. Ele quer serviço. Menos do que isso é desonrar o Senhor.
Confessar que Jesus é tudo, menos que seja Deus, é negá-lo. Uma confissão exterior da fé em nosso Senhor só é verdadeira quando vem primeiro do interior, do coração.
Para crer em Cristo é preciso apenas abrir a alma à graça e pedir-lhe luzes e socorro. Provavelmente, Judas Iscariotes, louvou a Pedro em Cesaréia, quando ele confessou quem era o Filho de Deus. Entretanto, pouco tempo depois... o interesse humano matou nele a fé; e Judas deformou-se em apóstata, deixando de ser apóstolo.
A igreja é uma das obras primas de Jesus. E a Igreja "somos nós", Casa e Povo de Deus. Privilégios e êxitos são pedras de toques do caráter.
Ou você admira a Jesus;
Ou odeia a Jesus;
Ou não pensa em Jesus;
Ou crê em Jesus...
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
