Pedro aprende a verdadeira humildade - Estudo Bíblico sobre o apóstolo Pedro


João 13.3-10; 1 Pedro 5.5b-7

Introdução

É sempre grande conforto verificar numa vida cristã o processo lento, mas certo e seguro, da graça divina santificadora. O apóstolo Pedro, apesar de suas deficiências conhecidas, foi um caso assim.

Cresceu. Desenvolveu-se. Pôde chegar-se à velhice com autoridade bastante para aconselhar seu rebanho: "Cingi-vos de humildade para servirdes uns aos outros..." (I Pe 5.5). 

Veja como Pedro foi evoluindo. Logo no início de sua carreira, sentiu-se "pecador indigno" diante de seu Mestre (Lc 5.8).

Depois, atravessou momentos de fluxo e refluxo em sua carreira cristã pessoal. Ora, cheio de humildade. 

Ora, presunçoso e impulsivo. Tentou, aqui, dar lições ao Mestre (Mt 16.22-23). Ali, orgulhoso, julgou-se o "melhor" dos amigos, incapaz de uma ação covarde e de apostasia (Mc 14.27-31).

Acompanhemo-lo na véspera da prisão de Cristo, no cenáculo onde este recolhe os discípulos para a ceia de despedida. Jesus ia lavar os pés dos seus seguidores e companheiros que, ocupados consigo mesmos, tinham negligenciado aquele dever caseiro. Vejamos como aqui se porta Pedro.

Primeiro (e era de esperar isso dele!) Pedro age aos impulsos de seus primeiros sentimentos e tenta impedir que o Mestre lhe lave os pés, serviço rude e só de servos.

Que lhe importava que os colegas tivessem deixado que seu Senhor tal lhes fizesse? Ele não o permitiria. Era humilde, não há dúvida, mas tardiamente (Jo 13.3-6). Pedro devia ter tido esse gesto antes que o Mestre iniciasse tal serviço...

Segundo, Pedro mostra espírito de voluntariedade (Jo 13.7,8). Cristo lhe dá satisfação plena de seu ato e mostra que ele tem razão de ser.

Pedro, todavia, repudia a explicação do Senhor e, com uma devoção errada (chega a ser desobediência), recusa-se a deixar que Cristo lhe lave os pés. E fá-lo com ênfase: "Nunca me lavarás os pés..."

Era a humildade transformada em um surto de egoísmo pessoal. Terceiro, Pedro culmina a sua atitude com impulsiva pretensão (Jo 13.8-9).

Cristo torna a mostrar-lhe que é preciso atender ao serviço que ele está executando, e Pedro esquece tudo e vai às últimas: "Nunca me lavarás os pés." 

Respondeu-lhe Jesus: "Se eu não te lavar, não tens parte comigo." "Então Pedro lhe pediu: Senhor, não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça." Há pouco, Pedro achava que Jesus queria fazer muito e recusava.

Agora, já achava que é pouco o que o Mestre quer fazer, e pretende muito mais! Todavia, passaram-se os anos. Pedro sofreu reveses duros na fé... 

Mas, recebeu também a plenitude do Espírito e, após anos de crescimento, tornou-se o exemplo dos cristãos, na humildade. E ao fechar como que o ciclo de sua vida operosa, pôde escrever as belas e edificantes advertências de sua 1 Carta (5.5-7).

"Cingi-vos de humildade", diz ele. Lembrava do avental que cingira o Mestre no cenáculo.

E recordando tudo, propunha à cristandade o exemplo salutar do Mestre. Como é suave essa evolução de um caráter crente! Cresçamos como Pedro na "graça e no conhecimento de Nosso Senhor!" (II Pe 3.18)

1. LUZ SOBRE OS TEXTOS

"Jesus, sabendo..." (Jo 13.3). Cristo tinha a consciência clara do que era e de quem era. Por isso mesmo é que resplende com brilho singular o seu ato de lavar os pés dos discípulos. Cumpria-se Is 53. A humildade de Jesus era parte da sua obra (Mt 11.29; Fp 2.5-7).

A humildade só é genuína quando nasce do coração daquele que sabe que "veio de Deus" todo o seu bem, e que é bom "voltar para Deus" o seu rosto agradecido.

"Levantou-se... tirou as vestes... cingiu-se... tomou toalha... começou a lavar os pés... a enxugá-los." (Jo 13.4-5) Notem-se os passos sucessivos da ação de Cristo. Fez tudo com calma e completamente bem. Tomou o lugar mais humilde, o de servente da casa.

Este serviço devia ter sido feito pelos apóstolos entre si, mas eles levaram o tempo a discutir quem deles era o "mais importante..." (Lc 22.24).

"Chegou a Simão..." (Jo 13.6). Parece que Pedro não foi o primeiro a ser servido pelo Mestre, e, sim, já um dentre outros.

"Aquele que se banhou..." (Jo 13.10) O sentido aqui é duplo: literal e simbólico. Provavelmente, os apóstolos estavam lavados e limpos no sentido físico, precisando apenas de ligeira limpeza nos pés, cheios da poeira do caminho. 

Mas, o sentido aqui é também claramente espiritual. Eles, como crentes verdadeiros, já estavam limpos, isto é, regenerados pela graça, perdoados, salvos, exceto Judas, o falso apóstolo.

O "lavar os pés", no sentido figurado, é o símbolo da santificação pessoal, a necessidade da comunhão diária com Deus, pela Palavra, pela oração, pela confissão de faltas.

O crente é regenerado uma vez só. É o "banho" divino. Mas, deve "lavar os pés" todos os dias; é a santificação. E a humildade é parte de uma e de outra dessas duas graças celestiais.

"Cingi-vos de humildade" (I Pe 5.5) Pedro usa aqui duas palavras especiais: "cingir" (no original é uma palavra vinda de "Kombos", que significa "avental", "cobertura com laço ou cinta").

Percebe-se que Pedro estava recordando a lição de humildade que aprendera 35 anos antes, quando viu Jesus "cingir-se" e lavar os pés dos amigos. Esta palavra aparece só aqui em todo o Novo Testamento, e a ideia expressa é a de um hábito, de uma virtude normal na vida cristã.

A humildade, para Pedro, é como um "avental" que reveste o caráter cristão. É o meio pelo qual o crente está sempre pronto a prestar aos outros qualquer serviço, por mais modesto e obscuro que seja.

A outra palavra é "humildade", no original grego "tapeino-phrosyne"; no latim "humilitas", de "humus", "chão, terra, planura". É uma palavra santificada pelo Cristianismo.

2. CORAÇÃO DA LIÇÃO

No uso dos clássicos pagãos significava o trabalho servil de escravos, e nunca era empregada em sentido de virtude. O Evangelho, porém, transfigurou a palavra, e Pedro toma-a aqui como centro de seu conselho. Que é humildade? É uma opinião reta e justa do eu, do demérito próprio.

É o reconhecimento de si mesmo, com modéstia e despretensão. O elemento básico desta virtude é a glória de Deus. O crente, em face da divina majestade e santidade, olha-se com humilhação, reconhecendo-se como nada diante do seu Criador e Pai. 

A humildade não é tanto uma condição exterior, como é um estado interno. A humildade é a noção alegre e consciente que a pessoa tem de si mesma como dependente em tudo da graça.

São opostos a ela o orgulho, a vaidade, o conceito pessoal, o farisaísmo: "não sou como esse publicano..." Significa também submissão cordial à Providência divina, recebendo as provas dela com modéstia e louvor. Alguém disse que a humildade nunca mora só.

Com ela habitam a Paciência, a Mansidão, Verdade, o Amor Fraternal. Agostinho disse: "Depois das três graças teologais — fé, amor e esperança — há três graças inseparáveis: a humildade, mais a humildade e sempre a humildade." 

Pedro aprendera a lição do cenáculo (I Pe 1.8,14,19,22; 2.1 etc.), e sua vida e obra foram a de um humilde servidor do seu Mestre.

Notem o "todos" no v. 5b. Notemos como o objetivo da humildade é bem servir (v. 5c). Notemos o "Deus resiste" do v. 5d. É o que diz Pv 3.34. 

Deus arma um exército contra a soberba! Tal é o sentido desse texto. "Dá graça" (v. 5c). A humildade tem o apoio divino. "Quem se exalta... e quem se humilha..." Já sabemos os efeitos dessas atitudes.

"Humilhai-vos" (v. 6). Isto é, tendo boa vontade em tomar o lugar modesto que Deus nos designar, na alegria ou na dor, na paz e nas perseguições. "Mão de Deus" (v. 6). Vale a pena estar sujeito a mãos como essas, mãos divinas! Vale a pena receber as provas que elas queriam nos dar! (Lc 14.7-11).

Tenhamos o espírito humilde. A bem-aventurança que abre as bem-aventuranças do Reino cristão é esta: "Bem-aventurados os humildes de espírito" (Mt 5.2). Todavia, é preciso vigiar o coração, para que não se iluda. Há a humildade falsa e há a verdadeira.

O filósofo Diógenes andava roto e sujo, mas dizia, orgulhoso com isso: "Não troco esses meus rotos vestidos por essas túnicas de linho que os reis ostentam, porque, com os meus andrajos, sou mais rei do que eles todos!" Há quem se faça modesto só para ganhar o louvor público.

Os fariseus, às vezes, se faziam humildes, mas "só para serem vistos pelos homens." Há uma humildade também incompleta. 

Tal foi a de Pedro, no cenáculo. Este apóstolo, querendo ser humilde, fazia-se orgulhoso, tomando atitudes diferentes dos colegas e como que para envergonhá-los: "A mim tu não lavarás os pés!" Queria ser mais do que seu Mestre; "Não, nunca me lavarás os pés!"

Finalmente, esquecendo a modéstia, queria fazer de Jesus servo completo: "Quero que me laves o corpo todo... mãos, pés, cabeça!" Era humildade incompleta. Tenhamos cuidado para não errarmos como ele errou aqui.

3. PRÁTICA

O crente que mais medita sobre sua glória em Cristo, sobre seu novo estado nele, é o mais apto a prestar a outros os serviços do amor e da mansidão. "Eu sirvo" — é a legenda do escudo do príncipe de Gales. Seja a nossa legenda também. Sejamos cingidos de real e genuína humildade!

João, o apóstolo, viu o Cordeiro de Deus cingido de um cinto de Couro, na visão do Apocalipse (1.13). Aquele que cingiu primeiro o "avental" de servo, ei-lo agora com o prêmio: o "avental" transfigurou-se no "cinto áureo" Você já possui este "avental?"

A humildade não é servilismo nem humilhação. O servilismo é covardia. A humilhação é castigo. A humildade é ver a Deus e temer; é realizar o que se é e o que se deve ser.

A humildade evita a humilhação. Se os apóstolos, no cenáculo, tivessem tido a lembrança de lavar os pés uns dos outros antes da ceia, teriam evitado a vergonha por que passaram, de ver o seu Mestre ir-lhes prestar esse serviço tão obscuro!

Como é grande a mãe que serve aos filhos! Como é nobre o estadista que serve aos seus concidadãos! Como é inspirador o amigo que socorre os amigos em préstimos ainda os mais humildes!

A humildade enobrece e exalta.

A humildade deve ser como uma veste limpa, espiritual, do cristão. É a "farda" que torna conhecido o servo do Senhor no mundo. Deus não tolera o pretensioso. "Que é o homem para que tu, Senhor, dele te lembres?"

Humilhar-se diante de Deus é crescer no caráter. "Amigo, venha cá mais para cima; venha para o meu lado à mesa!"

Autor: REV. GALDINO MOREIRA


Lista de estudos da série

1. Pedro e o dia do seu chamado 

Semeando Vida

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