Marcos 14.40,47 – João 20.11-18
O Evangelho de Cristo abriu na história do mundo uma nova atitude e compreensão à dignidade da mulher, nosso Senhor, entre seus seguidores e amigos devotados, quis desde o início incluir várias senhoras, elevando assim o conceito da humanidade sobre a mulher, que a antiga era clássica relegava a um plano inferior e tragicamente secundário.
Houve no grupo dos primeiros crentes no Filho de Deus damas de várias classes e categorias, pobres e abastadas (Lc 8.1-3), nobres e plebéias (Lc 7.37-49), senhoras distintas (Jo 12.1-8) e também humildes (Jo 4.1-26), todas transfiguradas pela fé e pela graça divina.
A nossa lição de hoje fixa, em largos traços, a biografia moral belíssima de ilustre dama cristã dos dias de Jesus, discípula fiel e edificante exemplo para as gerações vindouras e presentes, como foi já para as do passado. Esta figura é a de Maria Madalena. Examinemo-la.
1 – SUA HISTÓRIA
Maria Madalena, modo por que os Evangelhos designam esta Maria.
Mt 27.56,61; 28.1; Mc 15.40,47; 16.1,9; Lc 8.2; 24.10; Jo 19.25; 20.1,18.
Estes textos determinam precisamente o lugar de seu nascimento, que era a cidade de Magdala, situada na costa sudoeste do mar da Galiléia. Jesus havia expulsado dela sete demônios (Mc 16.9; Lc 8.2), e veio a ser o mais devotado de seus discípulos.
A velha crença de que esta mulher havia sido de mau caráter, e cujo nome tem servido para designar as mulheres mundanas, baseia-se unicamente no fato de que a primeira vez que se fala nela, em Lucas, 8.2, é logo depois de se haver dito que uma mulher pecadora que havia na cidade tinha vindo ungir os pés de Jesus.
Esta prova não satisfaz.
Fez-se discípula de Jesus logo no princípio do seu ministério na Galiléia, e foi uma das que se uniram ao pequeno grupo dos imediatos seguidores, e que lhe ministrava o necessário para o seu sustento (Lc 8.13).
Esteve junto à cruz com outras mulheres (Mt 27.56; Mc 15.40; Jo 19.25), e assistiu ao sepultamento do Senhor.
Ao terceiro dia, logo de manhã, ela com a outra Maria, mulher de Cleófas, e Salomé foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus (Mc 16.1). Vendo que a pedra havia sido removida do sepulcro, voltaram apressadamente à cidade e foram dizer a Pedro que haviam levado o corpo de Jesus (Jo 20.1,2). Em seguida, voltou ela ao sepulcro e ali ficou depois que as companheiras se foram.
À ela apareceu Jesus em primeiro lugar (Mc 16.9; Jo 20.11-17), e foi ela quem levou a notícia aos outros discípulos. E aqui termina a sua história.
Convém rebater aqui, com energia, a maligna injúria que a incredulidade, através de autores blasfemos, tem atirado à memória de Maria Madalena e, desta sorte, à de Jesus.
Dizem tais escritores que Maria Madalena é a mesma pessoa que o Evangelho chama de Maria, irmã de Lázaro, de Betânia, e que esta outra pessoa não é senão a pecadora de conduta repreensível que aparece no registro de Lucas, 7.37.
Para eles, estas três pessoas são uma só. Esta opinião é audaz e caluniosa. Maria, irmã de Lázaro, era de Betânia e pessoa bem conceituada entre os judeus (Jo 11.1-3,19,31).
Maria Madalena era de Magdala, cidade muito diversa da em que morava Lázaro e sua família. A pecadora convertida, mencionada em Lucas, 7.37, é anônima; e os acontecimentos do capítulo 7 de Lucas, comparados com os de 8.1-3, onde se fala de Maria Madalena, são de datas diferentes e deram-se em lugares diferentes, no decorrer do ministério de Cristo. Ora, sem provas positivas não se pode arrogar a quem quer que seja imputação desairosa, como essa contra Maria, irmã de Lázaro, e contra Madalena.
E ainda que Maria fosse, antes de convertida, uma infeliz, pecadora, depois de perdoada por Jesus se tornou nobre e digna na sua conduta, como se vê de sua biografia limpa e exemplar.
Por outro lado, alguns autores incrédulos tem procurado macular o caráter de Cristo, imputando-lhe relações menos dignas e nobres com Maria Madalena, e têm tecido, em torno dessa invenção repugnante, conceitos e fantasias grosseiras e perversas.
Tal insinuação é, além de caluniosa, uma infâmia inadmissível. Seria possível que os judeus, severíssimos de costumes, tivessem permitido em seus lares e em sua amizade um caráter assim como esse que a incredulidade pinta em Jesus e Maria de Magdala?
Teriam os inimigos de Cristo, sacerdotes, fariseus, levitas e advogados, que viviam buscando motivos para apontá-lo às multidões como digno de repulsa e desprezo, negligenciado uma prova como essa, caso fosse ela verídica e exata?
Por três anos andaram com Jesus discípulos e apóstolos, e pessoas ilustres, como José de Arimatéia e Nicodemos, senadores, e teriam sancionado e tolerado no seu Guia uma conduta tão irregular, caso ocorresse?
Quando os judeus acusaram a Cristo perante os tribunais, disseram tudo o que puderam inventar contra Ele — que era sedutor do povo, que era revolucionário, que era amigo de publicanos e pecadores, que violava o dia de descanso, que se atribuía autoridade messiânica, que tinha pacto com o diabo, por cujo poder expelia maus espíritos; que se inculcava Rei dos Judeus —, mas nem uma palavra articularam contra a sua conduta de homem limpo e digno.
Teriam estes adversários ferozes ocultado a mancha de uma vida suspeita e irregular em Cristo caso isto fosse fato?
Não, esta injúria nem a eles lembrou, porque o doce Rabino era de caráter tão nobre que desafiava a todos e a tudo: "Qual de vós me pode denunciar de pecado?" E até hoje o mundo silencia diante deste desafio!
E seria porventura erro ou conduta repreensível admitir Jesus, em sua religião, as mulheres? Pois elas também não são almas que necessitam da salvação? Repila-se, pois, com energia e com repugnância, a infâmia da descrença contra o divino Senhor e sua fiel discípula, Maria de Magdala!
2 - SUA CONSAGRAÇÃO
Tendo recebido de Cristo a mercê de sua cura, pois Lucas informa que sofria ela de possessão demoníaca (8.2), Maria Madalena passou a ter por seu Benfeitor imensa e desinteressada gratidão.
Na companhia de outras damas ilustres, prestava auxílios a Jesus e aos apóstolos, oferecendo-lhes dos bens que possuía, e, provavelmente, de seus trabalhos domésticos necessários (Lc 8.3). Junto à cruz, lá estava Maria de Magdala.
No enterro do seu Mestre, contemplava tudo com devota afeição. No domingo, de madrugada, foi uma das primeiras testemunhas da Ressurreição do Senhor. E foi por isso que recebeu do Mestre a primeira mensagem da Nova Era (Jo 20.17).
Era justa esta recompensa à fé, à consagração, à coragem, ao sentimento de amizade de dama tão fiel e tão distinta! Imitemo-la, e façamos de nossa comunhão com o Redentor motivo para mais amá-lo e servi-lo.
3- SEU ENCONTRO COM O CRISTO RESSURRETO
Resumamos o texto de João 20. Maria Madalena, segundo parece, tinha seguido a Pedro e João quando eles foram correndo ao sepulcro, e estava perto, chorando.
Depois que os dois saíram do sepulcro, parece, da narrativa, que Maria olhou mais uma vez para o interior do sepulcro, e eis que viu dois anjos vestidos de branco — provavelmente os mesmos que as outras mulheres viram —, os quais lhe disseram: "Mulher, por que choras? Respondeu ela: "Choro porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram."
Então, olhando para trás, Maria viu a Jesus em pé, mas não sabia que era Ele. Talvez houvesse alguma mudança no aspecto de Jesus, ou pode ser que os olhos de Maria estavam turvos pelas lágrimas, de sorte que não enxergavam bem.
Quando Jesus lhe perguntou: "Mulher, por que choras?", ainda não o reconheceu, mas, julgando ser o jardineiro, disse-lhe: "Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei."
Disse-lhe Jesus: "Maria!" E, pela voz bem familiar, ela reconheceu o Mestre, e, voltando-se, disse: "Raboni, isto é, Mestre!" Nesta tocante história: Pedro, correndo e entrando no sepulcro, é FÉ; João, olhando, mas não entrando, é ESPERANÇA; Maria, ficando em pé, de fora, chorando, é AMOR - e o amor vence!
Jesus disse a Maria: "Não me toques." Por quê? É provável que ela se tivesse lançado a seus pés para o adorar, e quisesse abraçar os seu pés como fizeram as outras mulheres (Mt 28.9).
O verbo, no grego, significa não simplesmente "tocar", mas "apegar-se". Jesus não permite que Maria o toque desta maneira, porque não viera para renovar as associações de outrora com seus discípulos.
Se Jesus não tivesse proibido, Maria, sem dúvida, estaria abraçada a seus pés até ao dia de hoje. Jesus deu a Maria a razão da proibição: "Porque ainda não subi para meu Pai", a fim de assegurar-lhe que haveria bastante tempo antes de ele subir ao Pai para semelhantes expressões de amor.
Não era preciso que ela tocasse para ficar certa de ser o Cristo, a quem amava.
Maria, sem dúvida, imaginava que o Mestre tinha voltado, segundo a sua promessa, para ficar para sempre com os seus discípulos, e importava que ela ficasse livre desta idéia errônea. "Mas vai a meus irmãos e dize-lhes que vou para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus."
Se este episódio não é a simples narrativa de fatos históricos, então o homem que a escreveu de certo era um dos maiores escritores imaginativos que o mundo já viu!
Maria, em obediência ao preceito do Senhor, veio dar aos discípulos a nova de que tinha visto a Jesus, e de que Ele lhe havia dito estas coisas. Ela achou os discípulos aflitos e chorosos (Mc 26.10).
E quando ouviram dizer que o Senhor estava vivo e fora visto por Maria, não o creram. Mesmo Pedro e João acharam dificílimo crer em tal notícia. Parecia-lhes impossível, incrível.
E se fosse verdade, por que não lhes aparecera em vez de manifestar-se primeiro às mulheres? Os homens que disputavam no cenáculo sobre quem seria o maior ainda eram capazes de nutrir sentimentos de inveja, de ciúme... e discriminatório.
4 - JÓIAS DO SEU CARÁTER
Foi uma convertida fiel. Nunca mais, desde que Cristo a salvara, recuou do caminho, embora cheio de cruzes e aflições.
Foi uma crente agradecida. Maria não olhava valores nem recursos como coisas que devesse guardar para seu bem-estar. O que tinha, dedicou a Jesus com alma e coração, pois Ele era o seu Redentor bondoso. Quantos cristãos, hoje, precisam de inspirar-se neste formoso exemplo!
Foi uma discípula corajosa. Maria ficou junto a Cristo nos dias mais perigosos de sua carreira. Esteve no Calvário. Esteve no sepulcro.
Foi uma crente afetuosíssima. A cena do sepulcro basta para evidenciar o caráter bondoso e sentimental de Maria. Aliás, nisso ela era apenas uma réplica de suas queridas companheiras (Mt 28.9).
Foi digna da confiança de Cristo e da Igreja. Pois foi a ela primeiro que o Mestre entregou a missão de avisar de que Ele ressurgira dos mortos.
Foi uma amiga de suas amigas. Maria aparece quase sempre ao lado das "outras mulheres". A mãe de Jesus mesma devia ser uma das mais amoráveis afeições de Maria Madalena.
5 - TESES
- O pecado não é um mal irremediável. Há um especialista que o cura por completo e para sempre — Jesus, nosso Senhor (Lc 8.1-3).
- Todos os que são salvos pela graça tornam-se missionários dessa mesma graça e consagrados ao bem humano.
- A fé dá coragem para a expressão de convicções aos que crêem de fato e sinceramente no Salvador.
- A religião evangélica precisa tanto de homens como de mulheres transformados pelo poder celestial para a obra de evangelização.
- Quem madruga pelo serviço de Cristo recebe cedo grandes bênçãos como recompensa.
- A religião não consiste só de palavras, de afeto e sentimento, mas também de atos benéficos.
- A glória do crente é ser amado pelo mesmo Deus Pai que ama a seu Filho Unigênito.
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
Lista de estudos da série
1. A Família de Jesus e o Segredo do Lar Perfeito2. Marta e Maria e o Segredo do Equilíbrio Espiritual
3. Tomé e o Caminho para uma Fé Inabalável
4. Apolo e a Humildade Essencial dos Grandes Líderes
5. João e a Incrível Transformação pelo Amor Divino
6. Tiago e os Pilares da Verdadeira Liderança Cristã
7. Judas e a Coragem de Batalhar pela Fé Genuína
8. Tito e o Manual Prático para Obreiros Fiéis
9. Timóteo e Como Superar o Medo para Servir a Deus
10. Maria Madalena e o Poder Transformador da Gratidão
11. O Cego de Nascença e a Visão que Salva a Alma
12. Áquila e Priscila e o Segredo do Casal Vitorioso
13. Heróis Anônimos e a Grandeza de Servir nos Bastidores
