Lucas 7.36-38; 23.39-43; João 6.8-11; Lucas 22.7-13
Temos estudado nesta série várias e edificantes biografias. Cada qual trouxe à nossa apreciação este ou aquele traço moral do caráter. Foram pequenos retratos bíblicos de linhas firmes, de cores atraentes e representando experiências valiosas.
Todavia, há na Escritura, por igual, inúmeros esboços de figuras interessantíssimas, e que o divino Autor julgou conveniente apenas mencionar, sem detalhar-lhes os nomes e mais circunstâncias.
São biografias anônimas, ocultas, humildes. Delas se contam as ações, mas se escondem os antecedentes pessoais dos autores. São os "grandes desconhecidos" que deixaram lições úteis a todas as gerações.
Aliás, na história humana predomina a imensa fileira dos benfeitores ou lutadores obscuros, incógnitos, ignorados da maioria e da fama, os anônimos do Bem, do Trabalho, da Religião e também do Pecado.
O Anonimato é o crime em todas as legislações cultas. É baixeza sem nome fugir alguém à responsabilidade dos atos que pratica, das palavras que diz, dos escritos que compõe e dos juízos que profere.
Mas, é virtude e é beleza de alma o anonimato consciente, sincero e humilde daquele que distribui o "bem sem olhar a quem", daquele que faz a caridade com a mão, de um lado, daquele que se oculta e se esconde a si mesmo para só brilharem suas obras para honra e glória de Deus.
Dessa boa massa é que são as quatro biografias de nossa lição de hoje. Contemplemo-las comovidos e gratos a Jesus, que no-las deixou esboçadas no seu Evangelho.
1 - PRIMEIRA BIOGRAFIA
Acha-se esta registrada a traços amplos em Lucas, 7.36-50. Se quisermos dar-lhe um título, poderemos dizer que é a "história de uma criminosa declarada, absolvida de sua sentença".
É uma anônima. O autor chama-a simplesmente "uma mulher pecadora". O termo era comum entre os judeus, para designar a classe mais baixa e desclassificada do povo, os viciados, os de má conduta, os sem-moral, os adúlteros e vagabundos.
Numa mulher, este título indicava conduta irregular, viciada e imoral, que se caracterizava pela depravação aberta e vergonhosa, pública e notória. Era tão infeliz, que na cidade já corria a sua fama.
O fariseu que dava uma ceia a Jesus, e em cuja casa ocorreu o caso do texto, deu contra ela a sua opinião franca, e com nojo íntimo (embora ele não parecesse melhor do que ela!), dizendo: "Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora" (v.39).
Jesus mesmo afirmou que era "mulher de muitos pecados" (v.47). O texto não dá seu nome.
Talvez, quando Lucas escreveu o Evangelho, ainda ela vivesse; e o cavalheirismo e a educação do grande médico o levaram a discretamente ocultar a identidade de quem tinha tido um passado tão triste...
Por isso, é absurdo quererem comentadores descobrir nesta "pecadora" a história de Maria de Betânia, ou a de Maria Madalena.
Se Deus quis que não fosse conhecido o seu nome através das gerações, para que esse afã de tantos em tentar, à toa, dar-lhe um nome? Onde morava esta pecadora? Ignora-se ao certo. Talvez na cidade referida no v.37, a de Naim, onde Cristo tinha estado ou ainda estava naquela ocasião (Lc 7.11,17). Talvez fosse Cafarnaum, onde Cristo morava. Talvez fosse Jerusalém.
Agora, o reverso da medalha. Esta pecadora teve o seu dia de felicidade. Sabendo que Jesus estava na cidade e em casa de Simão (w.37,40), foi até ali, junto do divino Perdoador, derramou toda a sua alma penitente e convertida.
Como conhecia ela a Jesus? E de onde? E de quando? Ignora-se. Conhecia-o e sabia que Ele salvava. E foi a Ele, tocada pela graça. Quatro foram as provas de sua conversão: profunda convicção de pecado; confissão pública deles, indo de livre vontade à sala da ceia e aí chorar aos pés do Mestre, revelando grande fé no Senhor (v.50); imensa gratidão, provada na unção executada e no afeto expresso ao Benfeitor (w.38,44-46); louvável coragem, evidenciada em entrar no salão e com a cabeça descoberta, o que era contra a moda da época (I Co 11.10).
Foi absolvida por Cristo (w.47,50) e se aliou ao grupo de seus amigos e discípulos (Lc 8.2,3).
2 - SEGUNDA BIOGRAFIA
Também este retrato insinuante no-lo dá Lucas (23.39-43), embora os outros sinóticos, Mateus e Marcos, o refiram. É a biografia de "um condenado que conseguiu escapar à pena à hora de sua própria execução".
Era um dos bandidos que, justiçados, se achavam ladeando Jesus no suplício do Calvário. Quem era? Donde era? Não se sabe. Era um "malfeitor".
Talvez fosse do bando do infamíssimo Barrabás. Ele e o companheiro, mesmo na cruz, mostravam suas índoles ruins, blasfemando de Jesus e insultando-o (Mt 26.44). Eram notoriamente maus, e à sentença de pena capital, que iam suportar, era justa (Lc 23.41).
Após convertido um deles, passou a clemência cristã a chamá-lo o "bônus latro" - o bom ladrão. No Evangelho da Infância, dos árabes, tem o nome de Tito, e noutro livro, aliás apócrifo, como aquele o é também, o nome de Dismas ou Dimas. Mas, tudo isso é absurdo.
O Espírito Santo quis deixá-lo anônimo, e para que esse trabalho inútil de dar nome ao "malfeitor" que se salvou?
Mas, deu-se de repente um milagre. O "mau ladrão" mudou de rumo, converteu-se, ali mesmo, no suplício. Foi obra da graça, é claro.
E decerto a oração de Jesus pelos inimigos (Lc 23.33,34) abriu-lhe a alma.
E ele creu. Como se prova isso? A sua repreensão ao companheiro, para que silenciasse o seu insulto dirigido a Jesus; seu temor de Deus; sua convicção de culpa, com uma confissão rasgada de seus crimes; a defesa que fez de Cristo, reconhecendo-o inocente; a sua oração curta, mas clara e espiritualíssima, sem interesses egoísticos; sua fé no Senhor e sua afirmação de que reconhecia no Crucificado, ali com ele, o Messias — Rei, que tinha o Reino de Deus em sua mão, que um dia havia de estabelecê-lo segura-mente.
Tudo isso brilhou como que num relâmpago luminoso, na alma do malfeitor penitente e salvo. Escapou à pena de morte eterna, embora morresse como réu entre os homens, pela sua fé e pela graça de Cristo.
3 - TERCEIRA BIOGRAFIA
É João quem no-la dá (Jo 6.8-11). Trata-se de "um rapaz pobre que se imortalizou na história". Quem era, donde era, que posição tinham os seus pais ou tutores, ignora-se. Numa tarde, já quase ao crepúsculo, em lugar deserto, perto de Betsaida, uma multidão de mais de cinco mil pessoas.
Tinham fome e não tinham provisões que, no correr dos dias em que ali se juntaram para ouvir o Mestre, acabaram. O caso era sério; porque a hora era adiantada, no local não havia recurso algum, a caravana era enorme, os discípulos não tinham verba para a compra de alimento para tanta gente.
Assim, humanamente falando, o problema parecia insolúvel. Havia, é certo, um rapazinho do povo que ainda tinha uns restos de sua merenda pobre — cinco pães de cevada (o mais pobre pão da época e que só gente muito necessitada é que usava) e dois peixinhos defumados e salgados, também material do mais barato no mercado...
Pois foram esse rapazinho e essa merenda tão frugal e pobre os que, nas mãos de Jesus, salvaram a situação e resolveram o que parecia insolúvel.
Este rapaz podia ser um simples empregadinho de alguém, ali no deserto; podia ser um dos vendedores de rua; podia ser um garoto curioso, esperto, filho das ruas que, vendo tanta gente a acompanhar Jesus, lá se foi com a multidão, ao léu do destino, levando sua merenda necessária...
Seja o que for, Jesus já o tinha visto, e quando mandou os apóstolos que investigassem no campo o que havia de provisões. Ele tinha os olhos no garoto providente.
O rapaz não objetou em ceder a sua merenda; ou, quem sabe, vendeu contente aquele restinho... O seu pouco tomou-se em muito. E houve a recompensa, com os doze cestos que sobraram sem uso e de que, pensamos, o rapaz bondoso ganhou a sua parte. Teria aquele garoto se tornado discípulo de nosso Senhor?
Cremos que sim. Jesus não usa as almas sem redimi-las. E ficou imortal, como colaborador de um dos mais esplêndidos atos miraculosos do Filho de Deus.
4 - QUARTA BIOGRAFIA
É ainda Lucas o que sublinha este retrato amável (22.7-13). Trata-se do "dono de uma casa", que ficou sendo o centro das mais puras e doces recordações da vida de Cristo e da Igreja apostólica. Este amigo de Jesus morava em Jerusalém.
Parece que era abastado, pois possuía uma residência cômoda, ampla e com mais de um andar. Pôde oferecer a seu Amigo um salão preparado decentemente, onde comeu, com o seu grupo, a Páscoa, e celebrou a ceia cristã. Tinha criados a seu serviço.
Jesus conhecia o coração generoso desse discípulo. Teria Cristo já combinado com ele, de antemão, o caso? Pedro e João, parece, ignoravam quem era o hospedeiro do Mestre, na cidade; certamente para evitar que Judas precipitasse os acontecimentos e tentasse prender, mesmo à hora da ceia e da Páscoa, o seu Mestre.
Aliás, a Judas é que competia ter ido tratar do caso (Jo 13.29), como o tesoureiro do grupo; mas, Cristo evitou isso, por já conhecer de todo o seu trama.
O Cenáculo, que o "dono da casa" cedeu a Cristo, aparece como sendo da família de Marcos, o Evangelista (At 15.27; 12.12).
Esta referência menciona a mãe de Marcos, em vez do "dono da casa", o que leva a crer que, nesta época, cerca de 13 anos depois da ceia em Jerusalém, já era morto.
É provável que os evangelistas ocultassem o nome desse amigo para evitar fosse ele perseguido e maltratado pelos inimigos de Cristo.
Seu nome não ficou registrado, mas suas ações generosas, essas vivem até hoje.
5 - LIÇÕES PRÁTICAS
1. Para Deus e seu Reino não se cuida de nomes, e, sim, de vidas salvas e consagradas ao seu serviço.
Os nomes passam e são esquecidos. O caráter, não. Fica para sempre.
2. Cristo salva diretamente, e de modo absoluto, a quem nele crê de coração penitente e contrito.
3. O que os homens não podem fazer nem resolver é o que Deus gosta de executar.
4. No Reino de Cristo um pobre rapaz de boa vontade pode prestar mais serviços do que milhares daqueles que não têm previdência nem capacidade discernidora das ocasiões.
5. É uma honra ter bens que Cristo deseja lhe emprestem de bom coração.
6. A Deus se dá o melhor que se tem.
Fazer menos do que isso é irreverência para com Ele.
7. Os nomes dos verdadeiros crentes estão escritos no Livro da Vida, que é inapagável.
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
Lista de estudos da série
1. A Família de Jesus e o Segredo do Lar Perfeito2. Marta e Maria e o Segredo do Equilíbrio Espiritual
3. Tomé e o Caminho para uma Fé Inabalável
4. Apolo e a Humildade Essencial dos Grandes Líderes
5. João e a Incrível Transformação pelo Amor Divino
6. Tiago e os Pilares da Verdadeira Liderança Cristã
7. Judas e a Coragem de Batalhar pela Fé Genuína
8. Tito e o Manual Prático para Obreiros Fiéis
9. Timóteo e Como Superar o Medo para Servir a Deus
10. Maria Madalena e o Poder Transformador da Gratidão
11. O Cego de Nascença e a Visão que Salva a Alma
12. Áquila e Priscila e o Segredo do Casal Vitorioso
13. Heróis Anônimos e a Grandeza de Servir nos Bastidores
