Judas 20 e 21
1 - BIOGRAFIA
Muito pouco sabemos sobre a pessoa de Judas, o autor da Epístola desse nome. Mas, o que dele ficou registrado basta para esboçar a vida de um nobre cristão, um batalhador corajoso da fé e um severo adversário dos maus crentes.
No NT faz-se menção de seis pessoas com o nome de Judas.
- O primeiro Judas é o Iscariotes, o Apóstolo traidor (Mt 10.4; Jo 6.71; 14.22; Mt 26.14-16; 27.3-10).
- O segundo é outro Apóstolo, filho de um certo Tiago (Lc 6.16; At 1.13).
- O terceiro é galileu, que chefiou uma revolução e nela pereceu, com os seus aliados (At 5.37).
- O quarto é um cristão bom, residente em Damasco, onde Paulo se ocultou após a sua conversão (At 9.11).
- O quinto é Judas, apelidado Barsabás, pessoa de destaque na igreja de Jerusalém e provavelmente irmão ou parente de José Barsabás, a princípio proposto para substituir Judas, o traidor, no apostolado (At 15.22, 27, 32; 1.23).
- O sexto é chamado "o irmão de Tiago e servo de Jesus" (Jd 1.1).
É este último Judas, o autor da Carta, o que nos serve de lição hoje. Os Evangelhos mencionam, exatamente como companheiros e "irmãos de Jesus", a Tiago e a Judas, com mais dois irmãos e várias irmãs (Mt 13.55; Mc 6.3).
Ora, o Judas de nossa lição é o irmão de Tiago, autor da Carta desse nome, que se intitula "servo do Senhor", e que Paulo diz ter sido "irmão de Jesus" (Gl 1.19). Judas não foi Apóstolo, porque até à morte de Cristo ainda não se tinha convertido (Jo 7.2-9).
Aparece junto com os cristãos após a Ascensão, o que nos induz a pensar que Judas e os mais irmãos de Cristo se converteram ao longo dos 40 dias após a ressurreição do Senhor, quando apareceu a Tiago, seu irmão carnal (At 1.13,14; I Co 15.7). A tradição afirma que Judas trabalhou entre os persas e morreu mártir na Fenícia.
2 - ESCRITOR INSPIRADO
A Carta que Judas, o irmão de Tiago e do Senhor, escreveu é pequenina, mas muito incisiva e edificante.
Ele escreveu mais ou menos no mesmo período em que Pedro dirigiu a sua segunda Carta aos crentes, por isso que há entre os dois autores referências muito claras aos mesmos erros e males, bem como o mesmo zelo em combatê-los. Isto deve ter-se dado por volta de 67-68 A.D. Donde escreveu Judas?
Ao certo, ignora-se. O mais provável é que tenha sido da Palestina, talvez de Jerusalém. E que objetivo teve Judas em enviar essa Carta aos crentes das várias regiões já evangelizadas?
O motivo aparece claro dos v.3 e 4. Estavam penetrando dentro das igrejas, hipócrita e sorrateiramente, certos indivíduos de desígnios maus, heréticos e de costumes incompatíveis com a pureza da fé cristã.
Tais pessoas, exercendo influência talvez por sua cultura ou posição, estavam criando no seio das igrejas opiniões, idéias, práticas ímpias, mundanas e mesmo imorais.
Judas traça com vivas e enérgicas pinceladas o retrato desses maus crentes, a quem chama de "ímpios" (v.4). A Carta é dirigida aos "eleitos de Deus" (v.l). Este título é o que usa o NT para designar os crentes em Cristo, tanto judeus como gentios (Rm 1.7; Fp 1.1).
Parece que a Carta foi dirigida a toda a cristandade. Naturalmente, teria sido enviada a uma região mais necessitada de advertência, na época, e daí passou a outras regiões cristãs. Os males verberados nesta Epístola não eram só deste ou daquele setor da igreja, mas já se tinham espalhado por todas as comunidades, mais numas do que noutras, mas em todas.
A Carta de Judas contém assuntos históricos, bem como teses profundas da teologia cristã (vejam-se v. 6,9 e 14). Para fins de estudo, pode-se dividir a Carta de Judas nestes tópicos:
- Introdução - v. 1,2.
- O motivo da Carta - vv. 3,4.
- Argumento histórico, punidos com certeza e em tempo próprio - v. 5,7.
- Aplicação do argumento anterior em contraste com a conduta dos crentes e piedosos - v.8-10.
- Denúncia e descrição dos maus crentes que estavam semeando doutrinas e costumes errados entre as igrejas - vv. 11-13.
- Outro argumento, agora profético, de que os ímpios sofrerão castigo justo - v. 14-19.
- Exortação aos crentes no sentido de cuidarem de si mesmos e de terem compaixão dos ímpios - v. 20-23.
- Piedosa doxologia e bênção - v. 24,25.
3 - CRENTE ZELOSO E ORTODOXO
Da leitura dos vv. 3 e 4 da Carta de Judas, vê-se que este mestre era zeloso e lutava pela pureza da doutrina e dos bons costumes cristãos.
Ele fala da "comum salvação", a única e eficaz tanto para judeus como para gentios, a salvação em Cristo. Judas mostra também zelo pelo credo, pelos pontos básicos da doutrina cristã, pela confissão da fé revelada.
Há uma "salvação comum", um certo número de verdades fundamentais que não é lícito a crente algum negar ou modificar. São as verdades do Evangelho referentes à fé, à conduta e à vida eterna.
Judas cria firmemente na inspiração da Palavra de Deus, que cita com propriedade, referindo-se a fatos e pessoas do AT. (v.5-15). Ele cria na Trindade (vv. 6,7,13). Cria em anjos e seres angélicos superiores (v. 6,9,10). Cria na existência real do diabo, com a sua ação maligna (v.9).
Cria na existência pessoal de Adão, Enoque e outros vultos antiqüíssimos da História Bíblica (v. 9,11,14). Cria na eleição dos crentes (v.l). Cria na intromissão do joio na lavoura de trigo (v. 12-16). Cria nas profecias (v.17). Cria no poder da oração (v.20). Cria na justiça divina punindo os maus (v. 19,23). Cria na vida eterna (v. 21,24,25).
Quantas pessoas, cheias de orgulho, negam estas verdades básicas da Palavra Revelada, nos dias que correm! Mas, o crente zeloso não teme aceitá-las e anunciá-las. São verdades do Livro dos livros.
Judas não tinha o escrúpulo doentio de julgar que cometia intolerância denunciando os maus crentes, esses que furtivamente penetram nas igrejas para semear erros solertes e costumes mundanos.
E Judas os define com franqueza. Dá-lhes os títulos que merecem. Nomeia sem rodeios os pecados que praticam e aponta-os à igreja como gente inútil, ímpia, sensual, perigosa e condenada pelo Senhor.
Vejamos em síntese como Judas descreve esses mestres e crentes malignos:
- São ímpios e heréticos (v.3,4). Embora arrolados como membros da igreja, tais homens sorrateiramente iam renegando a fé e seu Salvador por ensinarem opiniões falsas e hábitos errôneos.
- São imorais (v. 8,18,19).
- São hipócritas (v.4).
- São cobiçosos (v.11,16).
- São revoltosos (v.8).
- São ignorantes e falsos (v.10).
- São maledicentes e fomentadores de contendas (v.16,19).
- São destituídos de brio (v. 12,16,23).
- Não são convertidos (v.19).
Percebe-se, dessa nomenclatura trágica, que o fiel cristão, Judas, "o servo do Senhor", não tinha condescendência com estes ímpios. E quantos desses tais, hoje, há nas nossas igrejas, às vezes ocupando até lugares de confiança e de responsabilidade!...
As igrejas têm receio de discipliná-los, porque são "cultos", "têm posição social", têm "recursos", porque elas temem, enfim, escândalos! Nada disso. O crente ortodoxo e fiel não pactua com a impiedade, revelada ou oculta. Desmascara-a e repele-a.
4 - DOUTRINADOR PIEDOSO
Convém notar que este fiel servo de Jesus não ficou satisfeito só com denunciar os males de sua época e repeli-los. Também entregou à igreja as mensagens construtivas da paz, da santificação e da dinamização dos crentes. Judas falou ao povo de Deus com bondade e carinho (v.3,17).
Desejou-lhes todas as bênçãos (v.1,2). Fortificou-os com lembrar-lhes a certeza das profecias (v. 17,21). Estimulou-os a praticar a edificação mútua, a fé, a oração, o amor fraternal e a esperar confiantes na vinda gloriosa do Senhor (v.20,21).
Exortou-os a disciplinar os maus e ímpios elementos que havia entre eles com mansidão, com temor e com prudência, sabendo distinguir entre ímpios voluntários e os que apenas eram pessoas que tinham dúvidas, talvez sinceras (vv.22,23).
Mostrou-lhes que o crente zeloso não se contamina com os costumes do mundo (v.23). Finalmente, deixou-lhes um hino magnífico de fé na doxologia com que encerra a sua mensagem, e o faz com chave de ouro.
Este exemplo de Judas é muito próprio para a nossa época. Não se há de conseguir uma igreja firme só com o rigor da disciplina. Ao lado desta é preciso colocar o espírito cristão do amor e da prudência. Anula-se o mal avultando-se o bem.
Quando as igrejas e as famílias são espirituais e consagradas, as heresias, os prazeres, as irreverências, a frieza religiosa, as diversões aos domingos, as modas indecorosas e todos os mundanismos não medram nos setores cristãos. Precisamos de crentes doutrinados e firmes na "fé que uma vez e para sempre foi confiada aos santos" (v.3).
CONCLUSÕES
- Não é o laço humano de sangue que valoriza o caráter. Judas não cita como credencial de sua autoridade junto à igreja o ter sido "irmão de Jesus". Simplesmente isto — e é o que vale tudo: "Judas, servo de Jesus" (v.l).
- O Evangelho é para todos, porque o mal humano é um só em todos - o pecado. O remédio que Deus oferece está à altura de destruir o mal: é o Evangelho da Redenção oferecido a todo o que crê (v.3).
- A profissão de fé é um privilégio e um legado de que se há de prestar contas a Deus (v.3).
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
Lista de estudos da série
1. A Família de Jesus e o Segredo do Lar Perfeito2. Marta e Maria e o Segredo do Equilíbrio Espiritual
3. Tomé e o Caminho para uma Fé Inabalável
4. Apolo e a Humildade Essencial dos Grandes Líderes
5. João e a Incrível Transformação pelo Amor Divino
6. Tiago e os Pilares da Verdadeira Liderança Cristã
7. Judas e a Coragem de Batalhar pela Fé Genuína
8. Tito e o Manual Prático para Obreiros Fiéis
9. Timóteo e Como Superar o Medo para Servir a Deus
10. Maria Madalena e o Poder Transformador da Gratidão
11. O Cego de Nascença e a Visão que Salva a Alma
12. Áquila e Priscila e o Segredo do Casal Vitorioso
13. Heróis Anônimos e a Grandeza de Servir nos Bastidores
