Atos 18.1-3; 26-28; Romanos 16.3-5
A obra do Reino de Deus no mundo tem que ser feita pelo trabalho consagrado de pastores e leigos, unidos todos na mesma fé e esperança. Assim fez o Apóstolo Paulo; de cidade em cidade, ia o grande missionário alargando as influências cristãs.
Ele não se isolava egoisticamente no seu setor de honra na divina obra, mas sabia aproveitar todas as capacidades que ia descobrindo no seu caminho.
Punha em campo tantos crentes quantos de boa fé se convertiam ao Senhor, e, com tino e inteligência, ensinava-os a dedicar a seu Redentor todos os dons que possuíam.
Na nossa lição temos o exemplo disso. Paulo, após sua dura experiência em Atenas, não desanimou, e procurou novo centro de irradiação missionária. Foi a Corinto, notável empório comercial da Grécia, situada a umas 16 léguas de Atenas, edificada no istmo de Corinto.
Era a capital da Província Proconsular de Acaia. Como cidade cosmopolita, onde havia gente de várias raças, dominava aí o luxo, a opulência, o vício e o culto pagão, especialmente o da deusa Vênus.
Na época da visita de Paulo havia cerca de 400.000 habitantes na cidade, nos anos 50 a 51. Paulo operou neste novo posto por um ano e seis meses. Aqui encontrou um casal distintíssimo e crente, que muito o ajudou na sua árdua obra.
Foram o casal Áquila e Priscila, sua esposa.
1 - ESBOÇO BIOGRÁFICO
Diz o texto de Atos, 18.1,2, que Paulo achou em Corinto um certo judeu. Paulo sempre trabalhava primeiro entre os judeus. Eram de mais fácil acesso no princípio, por meio das sinagogas e das Escrituras. Áquila... Priscila, diminutivo de Prisca. Estes eram nomes comuns entre os romanos.
Como Áquila é chamado judeu, e Priscila não, tem-se inferido que ela era gentia. "Natural do Ponto", pequena província ao nordeste da Ásia Menor, até ao Mar Negro. Os judeus eram numerosos ali (I Pe 1.1), e alguns deles estavam em Jerusalém quando desceu o Espírito Santo, no dia de Pentecoste. "Porquanto Cláudio (imperador romano nesse tempo) tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma."
Isto foi em 50 A.D. A verdadeira causa da expulsão foi estar a Judéia em rebelião, e julgou-se prudente não permitir que gente dessa nação estivesse dentro da própria Roma.
O edito não esteve muito tempo em vigor. "Ajuntou-se a eles." Como cristão (e talvez em busca de trabalho), "porque era do mesmo ofício, ficou com eles e trabalhava, pois tinham por ofício fazer tendas."
Não eram tecelões do tecido pelo de cabra, de que se faziam as tendas, porém "fazedores de tendas" usadas pelos pastores e viajantes, e também pelos soldados romanos, tenda do pano chamado cilicium, da Cilícia, onde abundavam as cabras, de cujo pelo se fazia o tecido.
O trabalho de fazer tendas com um cristão como Áquila dava a Paulo vantagem de empregar todo o tempo possível em pregar o Evangelho. Os fregueses e trabalhadores que entravam na oficina davam oportunidade a Paulo de falar a muitos.
Além disso, Paulo, pelo trabalho de fazer tendas, estava diariamente pregando um sermão prático. Ele trabalhava para sustentar-se, ainda que tivesse direito de ser sustentado pelos coríntios, para não impedir o progresso do Evangelho e não fazer a impressão que seu objetivo entre eles era ganhar dinheiro (I Co 9.6-15; 2 Co 11.6-10). Os homens podem servir a Deus no trabalho honesto e diário.
Ainda de Atos, 18.18,19, 26-28, e mais referências nas epístolas, fica-se sabendo que Áquila e Priscila foram companheiros de Paulo na sua viagem de Corinto para Éfeso, quando se dirigia para a Síria (At 18.18,19).
Na primeira epístola aos Coríntios aparecem os nomes de Priscila e Áquila, juntamente com o de Paulo, enviando 50 saudações à Igreja de Corinto vindas da Ásia, certamente de Éfeso (I Co 16.19).
Em Éfeso encontraram-se com Apolo a quem instruíram mais particularmente nos caminhos do Senhor (At 18.26). Depois disto, parece que voltaram para Roma, porque Paulo lhes enviou saudações em sua carta dirigida à Igreja de Roma (Rm 16.3). Porém eles deveriam ter deixado Roma outra vez, porque na segunda Epístola a Timóteo, escrita de Roma, envia-lhes novas saudações (2 Tm 4.19).
1- UM CASAL FELIZ
Do pouco que registra a Escritura sobre Áquila e Priscila, vê-se que era um casal muito feliz e abençoado. Feliz por ser crente, é a primeira nota boa que nele refulge.
Quando como e onde se converteram, não se diz. Talvez isto tenha acontecido em Roma, onde já havia trabalho crescente, ou mesmo aqui em Corinto, por meio de Paulo, no início de seu ministério na cidade, o que daria ao caso ainda mais relevo.
De qualquer forma, o casal era de fato convertido, porque se consagrara de corpo e alma à causa de Cristo, não só acolhendo Paulo em sua casa, mas ajudando-o na obra evangelística em outros lugares, como em Éfeso (At 18.18,19), Roma e Corinto.
O Apóstolo chega mesmo a referi-los como seus colaboradores eficientíssimos, que estiveram até em perigo de vida por ele e o Reino de Deus (Rm 16.3-5). Era ainda um casal feliz pela sua união. Áquila era judeu e, segundo se crê, gentia a sua esposa Priscila.
Todavia, viviam na mais doce união, tinham a mesma profissão. Trabalhavam juntos, sem queixas nem recriminações. Combinaram em receber no seu lar o amigo Paulo, que era colega de classe profissional.
Imagine-se que coisa triste não seria se esse casal não tivesse o espírito de família, que é expresso pela união no lar! Eram pobres, mas unidos. Crentes e unidos. Morando em cidades, e bem unidos. Viajando para aqui, e para ali e unidos. Sempre ligados por verdadeiro amor conjugal, fraterno e cristão.
2 - UM CASAL DE MÉRITO
Áquila e sua mulher tinham dons excelentes. Eram estudantes assíduos da Escritura, e de tal modo preparados nela, que foram os instrumentos divinos para realizar o apuro da fé e dos conhecimentos religiosos de um notável pregador - Apolo (At 18.26-28).
Tinham sempre em sua casa um ponto de pregação (Rm 16.3-5). Possuíam o dom missionário (At 18.1-8,19).
Gozavam da absoluta confiança de Paulo e das igrejas, como se vê das seguintes referências: "Querendo Apolo passar para a Acaia, os irmãos animaram-no, e escreveram aos discípulos que o recebessem" (At 18.27). E o casal Áquila e Priscila fazia parte desse grupo que podia recomendar um irmão a outros irmãos.
Lê-se mais: "Muito vos saúdam no Senhor Áquila e Priscila, com a igreja que está e sua casa" (I Co 16.9). Paulo escrevia, de Éfeso, aos coríntios, e vê-se que aí já tinha o ilustre casal conseguido abrir no seu lar uma congregação.
Mais tarde, escrevendo aos romanos, e quando já Priscila e Áquila tinham voltado para Roma, o Apóstolo declara: "Saudai a Prisca e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida expuseram as suas cabeças, e isto não lhes agradeço eu só, mas também todas as igrejas dos gentios; e saudai a igreja que se reúne em casa deles" (Rm 16.3-5).
Não se sabe a ocasião em que o digno casal teve de enfrentar algo de muito perigoso para salvar a vida de Paulo, tão útil à igreja gentia. Talvez em Éfeso ou em alguma cilada armada na Acaia.
O fato é que não recuaram do caminho nem fugiram ao sacrifício pela causa sagrada. Ainda em sua última carta Paulo se recorda desses bons amigos: "Saudai a Priscila a e Áquila" (2 Tm 4.19). Paulo escrevia de Roma a Timóteo, que estava em Éfeso, provavelmente.
É uma grande bênção viver um casal cristão de tal modo coerente com a sua fé e dedicado ao Reino de seu Senhor, que as igrejas o tenham no seu conceito, confiança e amizade.
Naturalmente, para se obter prestígio é preciso ter as qualidades de caráter que atraem e que santificam os que convivem com a gente. Poderia Áquila e Priscila ter alcançado o alto renome e mérito que alcançaram (e com justiça) se fossem crentes mundanos, frios, pouco dedicados à igreja, freqüentadores oportunistas dos cultos, soberbos, não dados ao culto doméstico, não evangelizadores, sovinas, queixosos dos irmãos e dos pastores, não amigos da pobreza e das almas transviadas? Decididamente, não.
O prestígio é louvor. O louvor é espontâneo, e só nasce quando há motivos que o incitam. Não tente ninguém alcançar por aparência o que só por ação e verdade se podem ganhar. "Deus abate os orgulhosos e exalta os humildes." Aconselha Jesus: "Assim brilhe a vossa luz..." (Mt5.16)
3 - TESES BÁSICAS
- O Evangelho é dinâmico. Se a cultura de uma Atenas lhe tenta barrar a marcha, ele vai a uma Corinto agitada e pecaminosa, para vencer (At 17.32; 18.1).
- Ao crente compete sempre "ir", andar e evangelizar e "achar" o que Deus tem preparado no seu caminho, para a glória do Reino salvador (At 18.2).
- Ninguém lamenta as aparentes calamidades que ocorreram em sua vida. A fuga obrigatória, às vezes, de Roma para Corinto, isto é, do conhecido para o desconhecido, é apenas o princípio de grandes bênçãos (At 18.2,3).
- O Senhor procura para a sua seara os que trabalham e são unidos (At 18.3).
- É dever do crente salvo repartir com outros os bens da salvação (At 18.18, 19, 26-28).
- Não deve nunca o bom cristão ficar contente só com ter a "sua casa crente". É seu privilégio abri-la à família do Senhor e à igreja de seu povo (Rm 16.5; I Co 16.19).
- Quem é convertido mesmo, de base a base e de alto a baixo, não "vive mais para si nem morre mais para si". Se for preciso, oferece a Cristo e à sua causa a própria vida (Rm 16.3,4).
- É uma felicidade grande quando, num casal, é crente o marido e crente a esposa. O casamento misto é fonte de muitas decepções e amarguras. Poderia ter sido o que foi, na igreja de Deus, o casal Priscila e Áquila, se só um dos dois fosse convertido e crente? Humanamente falando, não.
- O crente ama a seus irmãos e envia-lhes "saudações", estejam onde estiverem.
- É uma honra inexcedível receber-se o título magno de "cooperador de Cristo".
- O Brasil evangélico precisa de lares fiéis e zelosos na fé como o de Áquila e Priscila. Será o Seu lar um desses?
Autor: REV. GALDINO MOREIRA
Lista de estudos da série
1. A Família de Jesus e o Segredo do Lar Perfeito2. Marta e Maria e o Segredo do Equilíbrio Espiritual
3. Tomé e o Caminho para uma Fé Inabalável
4. Apolo e a Humildade Essencial dos Grandes Líderes
5. João e a Incrível Transformação pelo Amor Divino
6. Tiago e os Pilares da Verdadeira Liderança Cristã
7. Judas e a Coragem de Batalhar pela Fé Genuína
8. Tito e o Manual Prático para Obreiros Fiéis
9. Timóteo e Como Superar o Medo para Servir a Deus
10. Maria Madalena e o Poder Transformador da Gratidão
11. O Cego de Nascença e a Visão que Salva a Alma
12. Áquila e Priscila e o Segredo do Casal Vitorioso
13. Heróis Anônimos e a Grandeza de Servir nos Bastidores
