Neemias 5
Na realização do nosso trabalho no reino de Deus, nos deparamos com obstáculos de ordem social e econômica. Às vezes, é a discórdia ou desunião entre os irmãos que nos atrapalham.
Outras vezes, a preocupação individual se sobrepõe às necessidades gerais da igreja. Até mesmo a situação econômica (boa ou má) nos faz abandonar os projetos da igreja para suprir nossos anseios pessoais.
O povo de Deus, vivendo em Jerusalém no quinto século a.C., também experimentava pressões econômicas reais. Esse é o assunto do capítulo 5 de Neemias.
I. PROBLEMAS INTERNOS QUE AMEAÇARAM A SEQUÊNCIA DA OBRA (5.1-5)
Neemias tinha avançado extraordinariamente. Sob sua liderança, o povo começou a reconstruir os muros e chegou à metade da obra. Entretanto, surgiram novamente obstáculos que ameaçavam impedir a continuidade da obra. E eles agora não vinham dos inimigos. Surgiam do próprio povo.
A. DESARMONIA INTERNA
Imagine as ruas de Jerusalém repletas de manifestantes gritando ferozmente: "Queremos pão para comer! Queremos pão para comer!". Clamando por libertação da fome, pobreza e injustiça econômica, eles dirigiram seus angustiosos gritos contra seus próprios irmãos e irmãs judeus.
Era um problema real e que precisava ser tratado, mas esse protesto aconteceu em meio a um dos mais amplos projetos de reconstrução da sua história e durante um período em que eles estavam cercados por inimigos ansiosos por suspender a obra.
Se houvesse um tempo em que unidade interna era fundamental, esse seria o tempo! Mas, no meio dessa estratégica conjuntura, a desarmonia interna ameaçava paralisá-los.
Esta é uma típica estratégia usada pelo nosso inimigo, Satanás, no decorrer da história da igreja. A desarmonia interna é potencialmente mutiladora e tem dividido igrejas locais, denominações e instituições cristãs.
Não é de se admirar que a Escritura ensine: "... esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz" (Ef 4.3).
B. INSENSIBILIDADE EGOÍSTA DIANTE DAS NECESSIDADES DOS OUTROS
Essa insensibilidade é facilmente verificada quando lemos o conteúdo dos protestos dos vários grupos em Jerusalém. Um grupo consistia de cidadãos com grandes famílias que deixaram sua fonte de renda normal para se devotar tempo integral ao projeto em pauta.
Como resultado, tiveram de ir às mercearias e lamentar-se que ninguém se preocupou o suficiente em ajudá-los a alimentar seus filhos.
Um outro grupo consistia de fazendeiros oprimidos por hipotecas e dívidas. No meio da fome, eles tiveram que refinanciar seus campos, vinhas e casas com o intuito de gerar dinheiro extra para comprar comida. Mas alguns dos judeus influentes estavam cobrando juros exorbitantes.
Pais oprimidos por altos impostos compunham um terceiro grupo em Jerusalém. Os impostos reais foram desproporcionalmente aumentados levando alguns a extremos como hipotecar suas posses e até mesmo vender suas filhas como escravas para permanecerem vivos. Se você tem filhos, pode imaginar a angústia que esses pais devem ter experimentado.
Nessa situação, a tragédia da dificuldade econômica era desnecessariamente agravada pela dureza demonstrada por alguns dos nobres diante da súplica dos seus próprios irmãos e irmãs.
Hoje, nós ainda podemos ver em suas muitas formas esse mesmo crucial problema de insensibilidade que ameaçou dividir famílias e toda sociedade no tempo de Neemias.
II. SOLUÇÕES PARA OS PROBLEMAS INTERNOS (5.6-19)
Como Neemias lidaria com esses graves problemas internos?
A. IRA CONSTRUTIVA
Neemias 5:6
Ouvindo eu, pois, o seu clamor e estas palavras, muito me aborreci.
O exemplo de Neemias ilustra a verdade de que nem toda ira é pecaminosa. Antes, em certas situações, a ira pode ser uma reação saudável e construtiva aos problemas.
Efésios 4:26
Irai-vos e não pequeis.
Quando nossa ira é justificável, nós devemos liberá-la de uma maneira controlada de modo que resolva problemas, mas não destrua os outros.
Quantas vezes numa semana comum você vê pessoas demonstrarem sintomas de ira? O homem Neemias ilustrou como descarregar construtivamente nossa ira diante dos problemas da vida cotidiana. Especificamente, Neemias controlou sua ira tomando tempo para pensar qual seria a ação propícia. Ele considerou consigo mesmo (v.7).
Em vez de agir intempestivamente, ele controlou sua ira por meio da ponderada contemplação da resposta adequada, evitando assim posteriormente se arrepender de ações precipitadas.
Imagine, se puder, quanta tristeza seria evitada se seguíssemos a lição do verso 7 e separássemos tempo para ponderar na ação adequada cada vez que a nossa ira se levantasse.
Em seguida, a ira de Neemias foi canalizada ao ser dirigida aos nobres e oficiais que estavam causando o problema: "... repreendi aos nobres e magistrados e lhes disse: Sois usurários, cada um para com seu irmão" (v.7).
A lei não se opunha à cobrança de juros (Dt 23.19-20; Mt 25.27), mas em Êxodo 22.25 há uma exortação: "Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor que impõe juros". Neemias, portanto, estava certo ao irar-se contra essa violação da lei divina e ao canalizar sua ira, dirigindo-a contra aqueles que causaram o problema.
B. CONFRONTAÇÃO PÚBLICA DE PECADOS
Outra solução aos problemas foi promover oportunidade para pública confrontação de erros públicos. Neemias tinha confrontado de modo privado os nobres e magistrados culpados de agiotagem. Sabendo que isso era de conhecimento público e que tinha afetado toda a cidade, ele convocou uma assembleia pública para tratar do problema.
Neemias, ocupado como estava, poderia ter ignorado todo o importuno problema dizendo: "Ouçam, companheiros! Eu tenho um projeto de construção para dirigir; tenho inimigos externos para enfrentar; e além do mais, esse é um problema social e eu só estou preocupado com problemas espirituais!"
E assim deixado tudo como estava. Entretanto, o homem de Deus se dispôs a tratar da questão antes que ela causasse problemas adicionais.
O governador começou a assembleia pública tratando do assunto abertamente. Ele inequivocamente denunciou que as práticas dos nobres de comprar crianças israelitas como escravas e de cobrar juros extravagantes e usurários eram pecados contra o povo de Deus.
Em seguida, ele apelou ao temor de Deus daqueles nobres: "... não é bom o que fazeis; porventura não devíeis andar no temor do nosso Deus, por causa do opróbrio dos gentios, os nossos inimigos?" (v.9).
O malfeito dos oficiais não tinha apenas consequências sociológicas, mas também ramificações teológicas que chegavam a manchar a reputação de Deus, ou seja, envergonhar seu nome, entre os gentios. A recusa dos nobres em amar ao próximo, portanto, refletia sua falta de amor e reverência a Deus.
Neemias continuou a assembleia pública deixando clara qual era a resposta que ele esperava dos nobres: "Restituí-lhes hoje, vos peço, as suas terras, as suas vinhas, os seus olivais e as suas casas, como também o centésimo do dinheiro, do trigo, do vinho e do azeite, que exigistes deles" (v.11).
Neemias fez clara como um cristal a resposta desejada de tal forma que os nobres sabiam exatamente que mudanças se esperava deles. E eles realmente fizeram assim. "Restituir-lhes-emos e nada lhes pediremos; faremos assim como dizes" (v.12).
Neemias solidificou as promessas dos nobres com confirmações públicas e juramentos. Reuniu os sacerdotes para testemunhar uma aberta declaração de arrependimento diante de toda a assembleia.
O governador também usou um gesto visível para reforçar a declaração de mudança dos nobres. "Também sacudi o meu regaço e disse: Assim o faça Deus, sacuda de sua casa e de seu trabalho a todo homem que não cumprir esta promessa; seja sacudido e despojado" (v.13). E o verso termina dizendo que todo o povo disse "amém" e cumpriu a sua promessa.
C. EXEMPLO PESSOAL
Percebemos nos versos 14 a 19 mais uma solução que Neemias impôs, dessa vez sobre si mesmo: sacrifício pessoal. Durante seus doze subsequentes anos como governador em Jerusalém, Neemias conciliou suas convicções com seu estilo de vida como fica evidente em sua disposição em abrir mão de direitos pessoais.
Como governador, ele tinha direito a uma quantidade diária de comida, além de uma considerável soma de dinheiro. Neemias livremente desistiu desses direitos legais. Por quê?
Ele desistiu de seus direitos pessoais "por causa do temor de Deus" (v.15). Antes ele tinha cobrado dos nobres um semelhante temor a Deus. Perceba que Neemias não quis dos outros aquilo que ele mesmo não queria fazer.
Ele foi um administrador público que amava tanto a Deus e a seu povo que estava disposto a abrir mão, até mesmo, de benefícios materiais que eram legalmente seus.
Conclusão
Injustiça e insensibilidade são lugares comuns em nossa geração e afetam a maioria de nós direta ou indiretamente. Enfrentemos esses problemas empregando as soluções positivas de Neemias.
Evitemos os problemas destrutivos evocando uma ira construtiva, provendo oportunidades para o enfrentamento público dos erros públicos e exemplificando qualidades de sacrifício pessoal. Que tudo isso seja feito por causa do temor do Senhor e do amor pelos outros.
Aplicação
O que você tem feito para vencer a insensibilidade e o conflito em sua vida e na igreja? Reflita nas ações de Neemias.
Autor: DARIO DE ARAÚJO CARDOSO
Lista de estudos da série
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