Gênesis 1.28 e 1 Coríntios 10.31
Introdução
Nem sempre temos uma visão correta das nossas atividades diárias e do relacionamento de nossa fé cristã com as nossas profissões.
Sabemos que Deus chama alguns para uma dedicação em tempo integral ao seu trabalho, e estes são duplamente honrados (1 Tm 5.17), mas reconhecemos, igualmente, que as demandas de uma vida separada e de serviço são aplicáveis a todos os crentes.
Frequentemente participamos de conferências missionárias ou de reavivamento e saímos com a sensação de estarmos "fora da vontade de Deus". As vezes nos colocam que estamos "roubando o tempo de Deus", em função de termos uma ocupação integral da qual extraímos o sustento da a nossa família.
Quando pensamos na questão do crescimento de igrejas e das diretrizes bíblicas para "ir e pregar", chegamos a pensar —será que não deveríamos todos abandonar tudo e sair propagando o Evangelho? Afinal, a situação do pecador perante Deus é a prioridade para o homem.
Como resolver estes conflitos de consciência, ao qual somos atirados? Como estar envolvido no crescimento da Igreja de Cristo sob as demandas de nossas profissões? Qual a visão bíblica desta questão, do secular e do sagrado?
Nesta lição estaremos examinando estas questões procurando discernir como posso ser integrado à sociedade e ao mesmo tempo um crente fiel às determinações da Palavra de Deus.
SAGRADO X SECULAR
O Salmo 24 nos diz, "Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. " A verdade é que a visão bíblica não faz uma separação entre o secular e o sagrado.
Todas as coisas pertencem a Deus. O Diabo tem atuado temporariamente na terra, mas ele é um usurpador — ele não é o rei por direito. Sabemos que um dos sinais da vitória final de Jesus Cristo é que Deus o exalta, "... para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, e na terra, e debaixo da terra "(Fp 2.10).
As demandas de Deus caem sobre todos os homens, crentes e descrentes. Seus mandamentos são válidos em todas ocasiões e situações.
1 - OS PERIGOS DE UMA VISÃO SEPARADA DA VIDA
Nem sempre temos esta percepção e fazemos uma distinção entre a vida secular e a vida religiosa. Numa certa ocasião sentei-me ao lado de uma mulher, em uma viagem de avião.
Ela começou a falar sobre suas atividades e seus negócios. Num dado momento, começou a defender práticas comerciais pouco recomendáveis, como a única alternativa de sobrevivência em uma sociedade tão opressora em seus impostos.
Expressei contradição àqueles conceitos e identifiquei-me como evangélico.
Para minha surpresa, aquela mulher disse: —"Ah, eu também sou evangélica, mas religião é religião e negócio é negócio!" Acho que fiquei com uma cara meio espantada, porque ela se apressou a adicionar: —".. .não me entenda mal, a religião deve ter o primeiro lugar, é claro..."
Muitos de nós pensa assim ou é levado a esse tipo de análise. Acham que religião é negócio, cada um em seu lugar. Como a água e o óleo, não se misturam. Esta visão separada da vida difere da correta visão de uma vida separada. Esta última expressão está correta e significa que somos Povo de Deus, separados para servi-lo em todas as esferas.
Por outro lado, ter uma visão separada da vida, não permearmos toda a nossa existência com a religião verdadeira e o culto ao Deus Supremo, produz maus resultados ao nosso testemunho e levanta muitos questionamentos válidos, por exemplo:
A. Traz confusão de pensar
Qual a atuação real de Deus? Ele está segregado a apenas uma parte de nossa existência? Ele é para ser chamado apenas nas horas de problemas e de angústia? O que é realmente o mundo?
B. Produz a secularização do crente
O Cristão com esta visão separada da vida, na sociedade, começa a não demonstrar qualquer diferença comportamental com os demais. O testemunho é prejudicado, o Evangelho não é demonstrado e a Igreja sofre e se enfraquece (1 Co 11.28-32).
C. Provoca a racionalização de ações
Os crentes começam a querer arranjar explicações plausíveis para situações condenáveis.
D. Enfraquece a pregação
Os crentes começam não apenas a propagar mas a ansiar por quem lhes pregue um evangelho diferente, açucarado, inerte e, sobretudo, irreal. O crescimento real da Igreja é prejudicado.
2 - A VISÃO INTEGRADA DA VIDA
A Bíblia apresenta toda a vida como sendo uma oportunidade de expressão da religiosidade verdadeira. Isto significa que a devoção a Deus e aos seus princípios deve ocupar todos os ângulos de nossa existência. A visão integrada da vida produz, consequentemente:
A. Harmonia de pensar.
Não geramos conflitos em nosso íntimo, mas procuramos ver a mão de Deus no todo de nossa existência.
B. Respeito a Deus e à sua Criação.
C. Paz de espírito no seguimento de nossa vocação.
D. Conscientização de nossas responsabilidades como cristãos.
E. Fortalecimento de nosso testemunho.
3 - O QUE É O "MUNDO"?
Temos nos acostumado a identificar o mundo como sendo uma expressão que indica apenas algo material que podemos ver e tocar. Este tipo de compreensão coloca as coisas materiais como sendo a esfera de domínio de Satanás. Mas a Palavra de Deus nos instrui qual o verdadeiro conceito do "mundo". Em Gálatas 5.19-22 temos bem clara a antítese que deve ser alvo de nossa preocupação-qual a diferença entre o mundo e o Reino de Deus:
A. O Mundo,
está descrito nos versículos 19-21. Ele é o domínio daquilo que se constitui nas obras da carne.
B. O Reino de Deus,
está descrito nos versículos 22 a 26 e se constitui no Fruto do Espírito.
A separação que existe entre o bem e o mal é ético-religiosa, não é uma questão de matéria versus espírito. As coisas que constituem o bem são concretas, e são também espirituais. Por outro lado, as coisas que constituem o mal também são de natureza espiritual (Ef 6.12), isto é, não estão identificadas apenas com coisas e questões materiais.
Em outra passagem — 1 Timóteo 4:3-4, Paulo fala contra os que proíbem "... o casamento, exigem abstinência de alimentos, que Deus criou para serem recebidos, com ação de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois tudo que Deus criou é bom, e recebido com ação de graças, nada é recusável... ". Isto esclarece que a verdadeira religião não é ascética.
Ascetismo é a separação artificial entre o mundo material (físico), supostamente inferior, e o mundo espiritual (metafísico), supostamente superior. Como já vimos em Gálatas 5, não podemos identificar maldade com matéria e bondade com espírito.
Tudo procede de Deus. Tanto as coisas materiais como as espirituais são desvirtuadas pelo pecado e pelo diabo, subvertendo a ordem da criação. A ideia de que matéria é algo ruim é um conceito do monasticismo católico, dos escritos de Tomás de Aquino e do pensamento das religiões orientais, como por exemplo o Budismo e o Hare Krishna. mas não é uma visão bíblica da realidade.
4 - O DOMÍNIO DA CRIAÇÃO
Gênesis 1.28 nos ensina que Deus criou o homem e o comandou a "'encher a terra e sujeitá-la". Por esta razão colocou os outros seres viventes ao seu serviço e sob sua administração. Este mesmo comissionamento foi repetido em Gênesis 9.1-3. depois da Queda e depois do Dilúvio. A inferência destas palavras para a nossa visão integrada da vida é tremenda:
A. Significa que Deus dá legitimidade às profissões.
Todas as áreas de atividades humanas (exceto, é óbvio, aquelas que representam envolvimento em práticas contrárias à Lei Moral de Deus) são válidas ao cristão. Não apenas a prática profissional, mas o estudo das questões e matérias, à luz da Palavra de Deus, está dentro da legítima atuação do servo de Deus. Senão, como vamos "dominar a criação"?
B. 1 Coríntios 10.31 nos indica como deve ser este envolvimento.
Tudo que fazemos na vida. até as coisas mais mecânicas e instintivas, como o comer e o beber, deve ser feito com a plena conscientização da glorificação a Deus.
Esta era a visão de vida dos reformadores. Para eles o Cristianismo era vida e não apenas uma filosofia idealista compartimentalizada. Temos que ter cuidado para não apresentarmos a fé Cristã ao mundo como sendo um conceito distanciado que não interage com o dia-a-dia das pessoas.
5 - A LEGITIMIDADE DO TRABALHO
Paulo ensina que a expectativa normal é que o crente trabalhe e faça provisão para o seu sustento e dos seus. Na carta aos Efésios (4.28), ele diz: "Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado. "
A razão de trabalharmos não é por pura ganância, ele não deve ser um fim em si, mas um meio. Note que Paulo enfatiza que até por trabalharmos e termos o sustento devemos ser mais liberais no dar.
Na segunda carta aos Tessalonicenses, ele é mais enfático, apresentando o trabalho não como uma opção, apenas, mas como um mandamento de sobrevivência: (3.10-12) "... vos ordenamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma... determinamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que, trabalhando tranquilamente, comam o seu próprio pão. " No contexto, a razão do trabalho era para que não houvesse peso aos demais e para que as vidas assim ocupadas não dessem lugar ao Diabo.
Este, tem como objetivo ver as vidas dos crentes cheias de trivialidade e maledicência, afastando as pessoas de Deus e causando desarmonia entre os irmãos.
Certamente Paulo tinha uma visão integrada da vida. Ele não via o nosso trabalho, do dia-a-dia, como sendo uma atividade ilegítima. Ele almejava crentes conscientes, envolvidos nas esferas nas quais Deus lhes colocou, ganhando honestamente o seu sustento.
O apóstolo desejava que estes crentes mantivessem a fé e operassem o crescimento pessoal em graça e sabedoria, e o da Igreja, por seus testemunhos.
5 - DEUS UTILIZA AS PROFISSÕES
Entre as várias referências às diversas profissões existentes, encontradas na Bíblia, temos pelo menos duas ocasiões específicas em que Deus as utiliza de uma forma muito abençoada: a construção do Tabernáculo e a do Templo:
A. O Tabernáculo
Em Êxodo 25.1-9, temos uma descrição de diversos tipos de matérias primas utilizadas na confecção do Tabernáculo. Nos versos 10 a 16, as profissões de carpintaria, metalurgia e engenharia recebem destaque especial. Isso significa que o povo de Deus estava legitimamente envolvido nestas tarefas, mas ele as utilizou legitimamente, ou que elas eram legítimas ocupações?
Com certeza a última alternativa é a compreensão correta. Muitos olham a descrição do Tabernáculo e enxergam somente o aspecto da arte envolvida nele, mas as implicações de todo aquele trabalho são bem mais extensas.
B. O Templo
Em 1 Reis 6.7 lemos sobre planejamento, arquitetura engenharia. Em 7.14, sobre metalurgia e o trabalho específico em cobre. Sabemos que estas atividades não podiam ser executadas sem o conhecimento (mesmo rudimentar) das ciências exatas - matemática, física, química, etc.
O Templo, que foi erguido como um símbolo (1 Rs 8.27) e um testemunho (1 Rs 8.41), é um selo de aprovação da parte de Deus nas diversas profissões, encaminhadas para a sua glória.
CONCLUSÃO
Qual a relação do crescimento da Igreja com as profissões? Se tivermos a visão de vida de que Deus tem demandas sobre toda a nossa vida e que tudo deve ser feito para glória e honra dele, estaremos sempre conscientes de nossa missão, sendo instrumentos deste crescimento em qualquer que seja a área de atividade.
1 Pe 3.15 deve nortear a nossa postura, como servos de Deus: "...antes, santificai a Cristo como Senhor em vosso coração estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós."
Quando estivermos em dúvida sobre o legítimo envolvimento do crente com as profissões e com o seu ganha pão diário, vamos nos lembrar daquele que mais fez pelo estabelecimento e crescimento da Igreja, o carpinteiro (Mc 6.3), nosso Mestre. Jesus.
APLICAÇÃO INDIVIDUAL
Se você estuda, peça a Deus discernimento para que possa detectar e aferir os conceitos não cristãos que estão permeando os assuntos ministrados nas salas de aula.
Se você trabalha, peça que Deus lhe abra oportunidades de ser uma testemunha eficaz. Em todas as situações, não esqueça a necessidade do constante estudo da Palavra, para "estar sempre preparado para responder", como aprendemos em 1 Pedro 3.15.
Lista de estudos da série
1. O Segredo dos Apóstolos – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja Primitiva2. Sobrevivendo à Perseguição – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja Até a Reforma
3. A Volta da Verdade – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja Pela Reforma
4. A Era dos Gigantes – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja e Missões
5. Como o Evangelho Chegou Aqui – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja no Brasil
6. Planejamento Humano ou Divino? – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja Hoje
7. Cuidado com o Fogo Estranho – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja e Métodos Modernos
8. Mitos da Batalha Espiritual – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja e o Misticismo
9. Vencendo o Verdadeiro Inimigo – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja e a Batalha Real
10. O Verdadeiro Poder do Espírito – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja e os Dons
11. Santidade no Trabalho – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja e a Sua Profissão
12. O Triunfo Final de Cristo – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja e o Futuro
13. Sua Missão Pessoal – Estudo Bíblico sobre O Crescimento da Igreja e Você
