Os pareceres dos eruditos, a importância secundária do modo do batismo e a universalidade dos ritos evangélicos


Os pareceres dos eruditos
Os nossos irmãos imersionistas alegam que quase todos os eruditos intérpretes da Bíblia e abalizados historiadores estão do seu lado na questão do modo do batismo.

Dizem que quase todos os conhecedores do assunto admitem ter sido a imersão o modo primitivo de se administrar o rito do batismo. Citam o nome de Calvino e de outros sábios para provar a sua tese.

Julgamos que Calvino e alguns outros sábios erraram no seu conceito do modo apostólico do batismo, porque se deixaram levar por um costume errôneo que se originou na Igreja primitiva como resultado da crença herética da regeneração pelas águas batismais, em vez de decidir a questão pelo estudo das Escrituras.

Calvino era muito versado na literatura patrística e se deixou levar, pelos costumes dos santos padres, a crer que o batismo primitivo fosse a imersão. Calvino não foi infalível e pensamos, que também errou, em manter que o batismo de João Batista era o mesmo que o batismo cristão instituído por Jesus.

A história eclesiástica e o ensino dos santos padres são muito falhos. Não devem ser aceitos como regra de fé e pratica. Poderão servir apenas para confirmar o ensino das Escrituras ou, então, para lançar sobre elas alguma luz, mas nunca para substituí-las.

Nesse particular, é digno de imitação o exemplo dos nobres bereanos que indagavam nas próprias Escrituras para ver se essas coisas eram assim (Atos 17:11).

Não podemos seguir a opinião de Calvino, ou de outro sábio qualquer, se eles não ensinaram de acordo com as Sagradas Escrituras. É preciso recorrer à lei e ao testemunho, porque se o povo não falar segundo esta palavra, não lhes raiará a alva (Isaías 8:20).

Sobre a questão do modo do batismo ia muita divergência de opinião entre cristãos sinceros e esclarecidos.

Alguns, como o Dr. John Davis, acham provável que na Igreja apostólica se fizesse o batismo tanto por aspersão como por imersão, outros há que acham ter sido o batismo exclusivamente por imersão e ainda outros julgam que os batismos do Novo Testamento eram feitos somente por aspersão ou afusão.

A favor dessas diversas opiniões poderíamos citar autoridades ilustres que são cristãos eminentes e piedosos e cuja sinceridade não é possível pôr em dúvida.

Até mesmo entre os nossos irmãos imersionistas há muitos batistas livres que reconhecem a validez dos batismos feitos por afusão e por aspersão, embora julguem que os batismos do Novo Testamento foram imersões. Não fazem do modo do batismo uma questão capital. São bem poucas, hoje em dia, as igrejas evangélicas que insistem ser a imersão o único batismo válido perante Deus.

Quase todas reconhecem que o fato essencial e de suprema importância é o batismo do Espírito Santo pelo qual somos regenerados e que o modo de aplicar o símbolo dessa gloriosa realidade é coisa secundária.

O fato de existir, nessa questão, divergências de opinião entre cristãos sinceros e esclarecidos é uma prova de que o próprio Jesus não considerou o modo de batizar essencial à integridade do rito do batismo, pois se fosse essencial, Ele o teria explicado com suficiente clareza para que todos os verdadeiros cristãos se convencessem de que só um modo é aceitável a Deus.

Quando qualquer coisa era considerada essencial por Jesus, Ele a explicava com uma clareza tal que ninguém de boas intenções pudesse duvidar do sentido das suas palavras.

A falta de concordância de pareceres entre verdadeiros cristãos, sobre esse ponto, é, portanto, uma prova irrefutável de que Jesus não considerou o modo de batizar essencial à validez do rito ou necessário à obediência ao seu preceito.

Em resumo: se Jesus tivesse considerado o modo do batismo essencial à sua administração correta, Ele teria dado aos seus discípulos esclarecimentos a esse respeito tão claros que não dariam margem a diversidade de interpretações entre cristãos sinceros.

A importância secundária do modo do batismo
A convicção pessoal do autor destes estudos bíblicos é que no Novo Testamento não houve imersões. Julga o autor que os batizandos podiam ter entrado na água para receber o batismo, em alguns casos, e, no entanto, acha que o ato de batizar era praticado exclusivamente por derramamento ou aspersão.

Somos de parecer que na administração do batismo cristão, o modo a ser preferido deve ser o derramamento, embora não seja essa maneira de praticar o ato indispensável à integridade ou à validez do rito.

Mas, não haverá uma incoerência da parte do autor em admitir outras formas do batismo, além da afusão, como válidas, uma vez que julga ser o derramamento o modo bíblico? Não há nisso nenhuma incoerência, porque, qualquer que seja a forma empregada, aplica-se água ao batizando em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

Jesus não disse como essa água devia ser aplicada. Ele ligava pouca importância ao modo de administrar ritos ou praticar cerimônias religiosas.

A quantidade de água empregada, o modo de aplicá-la, ou se é água quente, morna ou fria, pouco importa. Uma vez que se empregue água, aplicando-a ao batizando em nome da Santíssima Trindade, existem nesse ato os elementos necessários para a validez do rito.

Quer seja a água recebida por aspersão, por derramamento ou por imersão, ela simboliza a regeneração do pecador pelo poder do Espírito Santo e aí está tudo que é essencial A integridade do rito.

Julgamos que o modo bíblico e mais apropriado de orar é de joelhos, mas não julgamos que esse modo seja indispensável à aceitação da oração por Deus. Podemos também orar em pé, sentados ou deitados. Se a nossa oração for sincera, Deus a ouvirá. O valor das nossas orações não depende da atitude do corpo, mas antes da atitude do coração.

"Ao coração contrito e humilhado não o desprezará, ó Deus". Acontece o mesmo com o batismo; o rito exterior pode ser administrado de diversos modos, uma vez que se empregue água em nome da Trindade, como Jesus mandou. A parte de suma importância é que o batizando tenha sido regenerado pelo poder do Espírito Santo. O modo do batismo com água é coisa secundária, assim como é o modo de orar.

Em vista desses princípios, que julgamos ser bíblicos, todas as igrejas evangélicas deveriam fraternalmente reconhecer como válidos os atos rituais umas das outras.

O batismo de uma igreja evangélica seria, então, reconhecido por todas as demais e o batismo não seria nunca repetido. Assim como a conversão se realiza uma só vez na vida, por semelhante modo, o batismo deveria ser recebido uma só vez na vida.

Essa atitude fraternal que recomendamos resultaria: no desaparecimento da comunhão restrita, na livre troca de cartas demissórias, em entendimentos sobre a delimitação de campos de trabalho e na mais franca cooperação entre todos os diversos membros do corpo de Cristo na evangelização do mundo. Apresse Deus a realização desse belíssimo ideal!

A universalidade dos ritos evangélicos
Passamos agora a apresentar um argumento de importância secundária baseado na catolicidade do evangelho. Todos os cristãos hão de concordar que o cristianismo, com as suas ordenanças simbólicas instituídas por Jesus, é para todos os povos.

Jesus mandou que o evangelho fosse pregado em todo o mundo e a toda a criatura. Ordenou também que todas as gentes fossem batizadas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A religião de Jesus é, por isso, verdadeiramente católica (universal) e, sendo assim, as ordenanças por Jesus instituídas devem ser observadas por todas as gentes. Essas ordenanças não são somente para os povos de terras quentes, mas são também para os esquimós das terras frias.

Não são destinadas somente aos sãos, mas também aos doentes e aos moribundos. A sua observância não deve ser limitada às regiões de muitas águas, mas deve ser igualmente para as zonas de água escassa.

Se o batismo pode ser administrado somente por imersão, esse rito perde o seu característico de catolicidade; deixa de ser uma observância de aplicação universal. Há doentes e moribundos que não suportariam, um batismo por imersão.

Há regiões frias, como a Groenlândia, em que as imersões seriam difíceis e perigosas para a saúde e há regiões de intensa seca onde seria dificílimo, senão impossível, arranjar água suficiente para imergir os que se convertessem.

Se fosse provado que Jesus exigiu de nós a imersão, deveríamos, nesse caso, enfrentar prontamente todas as dificuldades que o caso exigisse, a ponto mesmo de arriscar a saúde, para praticar um ato de obediência.

E se, por hipótese, fosse provado que Jesus quisesse a nossa imersão nas águas do Jordão, alegres deveríamos fazer uma peregrinação até lá, mas, o fato é que Jesus não exigiu de nós nenhum desses sacrifícios e, por isso, não devemos colocar sobre as gentes a quem pregamos o evangelho um fardo que Jesus não colocou.

Não há nenhuma virtude em nos submetermos a uma forma ritualista que Jesus não estatuiu.

Não era mesmo de se esperar que Jesus estabelecesse, como condição de admissão para a sua Igreja visível, a observância de um rito que para muitos seria difícil e para outros impossível.

E não julguem os nossos leitores que as dificuldades sejam imaginárias, pois sabemos de pessoas que não puderam ser imersas, por motivos de saúde ou por não se encontrar água suficiente para esse mister e temos conhecimento de outras que adoeceram gravemente por se sujeitar à imersão em condições desfavoráveis.

Ouçamos a esse respeito o testemunho do rev. Dr. E. B. Faifield que por mais de vinte e cinco anos foi batista e, tendo estudado nas Escrituras a questão do modo do batismo, se convenceu de que a imersão não é o único batismo.

Mas, antes de apresentarmos o valioso testemunho do Dr. Fairfield, abramos um pequeno parêntese para dizer que não concordamos com o Dr. Fairfield na sua interpretação fisiológica da expressão "nascer da água", em João 3:5, e que, muito especialmente, não podemos concordar com a sua declaração no capitulo XIV das suas "Cartas sobre o batismo", quando julga ser "uma concepção falsa imaginar haver neste batismo do Espírito Santo qualquer argumento a favor de derramar, aspergir ou imergir."

O nosso argumento a esse respeito foi desenvolvido especialmente nos primeiros três capítulos destes estudos.

Salvo as exceções apontadas, julgamos excelente a obra do Dr. Fairfield e recomendamos o seu estudo aos nossos leitores. Essa obra tem o especial mérito de apresentar o testemunho de um ex-pastor batista que, pelo estudo da Palavra de Deus, se convenceu de que estava errado e passou a ser aspersionista.

Referindo-se às dificuldades que apresenta a obediência ao último mandamento de Jesus, no caso de ser o batismo por imersão, apresenta o seu testemunho o Dr. E. B. Fairfield, ex-pastor da Igreja Batista:

Por várias vezes, eu tinha ficado doente durante dias depois de batizar pessoas na primavera — que seguia a um inverno de reavivamento especial.

Aqui temos uma ordem para o mundo para os missionários de vários países; para cada convertido, imediatamente após a conversão; e naturalmente é de se supor que se possa cumprir em qualquer período do ano, e em qualquer localidade. 

Porém, muitos ministros batistas são obrigados por causa de sua vida e saúde, e da vida e saúde de alguns dos que são convertidos a Cristo, a adiar até a primavera ou verão a batismo daqueles que são convertidos no inverno, e ministros de pouca saúde não podem celebrá-lo em ocasião alguma.

No verão de 1873, eu estava presente na Igreja de Spurgeon, por ocasião do batismo de dez ou doze pessoas. O pastor pregava todos os domingos e estava presente (em seu estado usual de saúde) na ocasião deste batismo; mas outro ministro fez a cerimônia, e fui informado por um membro da Igreja que o próprio Spurgeon não a celebrava por motivo de saúde. 

De certo seu amigo não foi escolhido por causa de destreza especial, porque nunca vi a imersão feita mais desajeitadamente.

Parece-me uma tarefa ingrata argumentar a favor de uma cerimônia de admissão numa igreja cristã, para cumprir a qual o ministro da igreja tem de recorrer a outra pessoa para celebrá-la, podendo, muitas vezes, suceder também que, numa grande parte do país, não se encontrem facilidades algumas para a imersão.

Na primavera de 1864 passei um mês viajando na Palestina. Era eu então batista e esperava continuar sempre a sê-lo. Não saí do meu caminho para achar água para batismo; mas, como era março e como a ‘chuva serodia’ tinha cessado na mesma ocasião, seria um tempo favorável para achar facilidades para a imersão, se tais houvessem. 

Todavia, deixando ao lado o Mediterrâneo e o Mar da Galiléia, descobri só dois ou três lugares em que poderia realizar imersão. Não mais do que uma vez em quatro dias, na média, podíamos ter batizado o eunuco daquele modo, se o tivéssemos encontrado e ele assim o tivesse exigido.

E o Jordão não era um desses lugares. Quando estávamos na praia desse rio furioso, espumante e bravo, e as palavras — ‘Como farás na enchente dele?’ me ocorreram, repliquei no meu intimo: ‘Não sei, mas certamente não tentaria batizar ninguém por imersão, a não ser que eu desejasse sepultar-me com tal pessoa por batismo na morte’.

Eu teria pensado tanto em fazer a imersão no Niágara, meia milha acima da catarata, como nos vaus do Jordão em março da 1864. E em muitos outros países e localidades seria muito mais difícil encontrar facilidades para imersão do que na Palestina. Mesmo em países bem regados nem sempre é fácil.

No meu trabalho pastoral tive uma pequena experiência disto. Duas pessoas desejavam ser batizadas por imersão. Era em junho. Um ribeirão regular corria pela cidade; mas depois de procurarmos diligentemente durante algumas horas, não achamos lugar dentro de três milhas onde houvesse água com profundidade suficiente.

Determinamos, pois, pedir que nos emprestassem um batistério, calculando que o encontraríamos sem dificuldade, visto que existiam duas igrejas batistas na cidade.

As autoridades de ambas prontamente cederam, mas nenhum dos batistérios estava em condições, nem se podia encher ou aprontar qualquer um deles sem despesa e demora. 

Podíamos ter usado uma banheira particular, mas não havia nenhuma do tamanho necessário; e, além disto, o uso de banheira não nos parecia muito de acordo com a idéia de uma consagração pública tal como implicada na ordem.

Por isso deixamos de procurar; e como estávamos empenhados na construção de uma nova casa de culto, e como criamos ser a imersão o batismo válido, e que esta é uma dás coisas de que cada pessoa deve ser persuadida plenamente, determinamos construir um batistério em nossa igreja. 

Por muitos anos depois disso o nosso batistério congregacional foi o único lugar naquela cidade de doze mil habitantes, em que a imersão podia ser cumprida sem preparação especial, sem demora e sem muitas despesas.

Há varias outras comunidades em que tal maneira de batismo seria igualmente inexeqüível e inconveniente. Não nos parece que ritos onerosos e cerimônias pesadas concordem com o gênio e o Espírito da nossa fé cristã. 

O que nós entendemos do batismo, faz dele uma cerimônia que cada discípulo pode observar e cada pastor cumprir, apropriada para cada assembléia de crentes, em qualquer clima e em qualquer estação do ano.

Há tempos, presenciamos alguns batismos feitos por imersão em uma pequena lagoa no Estado de Mato Grosso. Para se poder realizar a cerimônia com o devido decoro, foi preciso que se construíssem previamente dois ranchos provisórios à beira da lagoa, um para os homens trocarem a roupa e o outro para as mulheres.

Tivemos a impressão de que os aspectos físicos da cerimônia, assim como os preparativos, a entrada na água, o mergulhar, o sair da água e todos os demais movimentos dos batizandos, prendiam, de tal modo a atenção dos espectadores que ficou um tanto prejudicado o Espírito religioso do ato. É o que se dá frequentemente com os batismos por imersão.

Somos de parecer que a mesma simplicidade evangélica que caracteriza a ceia do Senhor deve também caracterizar o batismo cristão. Na santa ceia emprega-se um pouco de pão e um pouco de vinho, para significar o sacrifício expiatório de Jesus sobre a cruz do Calvário. Não se julga necessário dramatizar a crucificação de Jesus sobre a cruz.

Parece-nos que a mesma singeleza da comunhão deve presidir ao ato do batismo e que deve ser, como acontece com a comunhão, um rito adaptado a todas as pessoas, seja qual for o seu estado de saúde, ou quaisquer que sejam as condições climáticas a que estiverem sujeitas.

Estes nossos argumentos seriam improcedentes, caso Jesus tivesse ordenado o ritualismo mais elaborado e mais difícil da imersão, mas visto como não o ordenou, a nossa argumentação vem confirmar o que já verificamos em estudos anteriores a este.

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