Você foi criado para ser um reflexo de Deus na Terra - Estudo Bíblico sobre a Imagem de Deus


Gênesis 1:26-31

Como bem sabemos, a Bíblia ensina que Deus nos criou à sua imagem e semelhança; todavia, durante a história, a compreensão destes termos, imagem e semelhança, gerou divergências de opiniões.

Dentro do escopo desta lição, não podemos, nem pretendemos discutir as posições históricas a respeito; vamos nos limitar a estudar a posição Bíblico-Reformada do assunto.

1 - A IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS NO SER HUMANO

1.1. Significado dos Termos

Os termos imagem e semelhança são entendidos como sinônimos, sendo usados para se referirem, de forma enfática, ao ser humano como um todo, com todas as características essenciais.

João Calvino, após criticar aqueles que procuravam fazer uma distinção inexistente entre palavras, diz:

"Quando, pois, Deus decretou criar o homem à Sua imagem, porque não era tão claro, de maneira explicativa o repete nesta breve locução: à semelhança, como se estivesse a dizer que iria fazer um homem no qual, mediante insculpidas marcas de semelhança, se haveria de a Si Próprio representar como em uma imagem. Por isso, referindo o mesmo pouco depois, Moisés repete duas vezes (a frase) imagem e semelhança de Deus, omitida a menção de semelhança."

"A segunda (palavra) interpreta a primeira, salientando a noção de correspondência e de semelhança."

Portanto, as duas palavras são simplesmente explicativas uma da outra; uma define a outra, denotando uma semelhança exata, correspondendo ao original divino.

Por isso, imagem e semelhança são usadas indistintamente nas Escrituras, referindo-se ao ser humano. Vejam-se Gn 5.1,3; 9.6; 1 Co 11.7; Cl 3.10; Tg 3.9.

1.2. A Imagem e Semelhança Criadas

Conforme vimos, a humanidade foi criada por Deus segundo o próprio modelo divino (Ef 4.24); isto não significa que o ser humano seja fisicamente igual a Deus; Deus não tem forma, é espírito (Jo 4.24), nem significa que seja da mesma essência, visto que esta essência é incomunicável.

A imagem e semelhança refletem, em Adão, características próprias através das quais ele poderia se relacionar consigo mesmo, com o mundo e com Deus. 

A imagem de Deus é uma precondição essencial para o seu relacionamento com Deus, e expressa, também, a sua natureza essencial: o ser humano é o que é, por ser a imagem de Deus.

A Confissão de Westminster (1647), Capítulo IV, seção 2, diz:

"Depois de haver feito as outras criaturas, Deus criou o homem, macho e fêmea, com almas racionais e imortais, e dotou-as de inteligência, retidão e perfeita santidade, segundo a sua própria imagem, tendo a lei de Deus escrita em seus corações e o poder de cumpri-la, mas com a possibilidade de transgredi-la, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, que era mutável (...) Enquanto obedeceram a este preceito, foram felizes em sua comunhão com Deus e tiveram domínio sobre as criaturas."

Estudemos algumas características do ser humano como imagem de Deus:

  • Personalidade - O ser humano foi criado como um ser pessoal que tem autoconsciência e determinação própria, diferentemente de todos os outros animais, faz a distinção entre o eu, o mundo e Deus; daí a capacidade de se relacionar com Deus (Gn 3.8-14) e com o seu semelhante (Gn 3.6), podendo entender a vontade de Deus, fazer-se entender e avaliar todas as coisas (Gn 1.28-30; 2.18,19).
  • Justiça e Santidade - A humanidade não foi criada como um ser neutro entre o bem e o mal; foi formada boa, santa, como Deus o é de forma absoluta. Daí que, segundo a própria avaliação do seu Autor, tudo "era muito bom" (Gn 1.31). A santidade e retidão originais não significam simplesmente inocência, mas, sim, o desejo inerente de ter maior comunhão com Deus e agradar-lhe; havia uma perfeita harmonia entre o seu ser e a Lei Divina; e a santidade dependia fundamentalmente desta sua comunhão com o Criador (vejam-se Ef 4.24; Ec 7.29).
  • Liberdade - Adão tinha plena liberdade de escolher o melhor para si, não havendo em sua natureza a semente do pecado para influenciá-lo à desobediência. A liberdade pressupõe a responsabilidade; Deus criou o ser humano livre e responsável pelos seus atos (vejam-se Gn 2.16,17; 3.6-24; Confissão de Westminster, IX.1-2).
  • Conhecimento Espiritual (Cl 3.10) - Adão, antes de pecar, tinha uma compreensão genuína a respeito de Deus. (É bom lembrar que a sua compreensão não era exaustiva, visto ser Deus infinito e inesgotável e, também, Adão ignorar, em seu estado primitivo, aspectos do ser de Deus, tais como o Seu amor redentor, o Seu plano salvífico etc.) O pecado traz num outro estágio, a idolatria, visto que o ser humano sozinho não consegue se relacionar com Deus, e até mesmo ignora o Deus verdadeiro (At 17.22-29).

O Catecismo de Heidelberg (1563), à pergunta 6, responde:

"Deus criou o homem bom e à sua imagem, isto é, em verdadeira justiça e santidade, a fim de que ele conhecesse corretamente a Deus, seu Criador, o amasse de todo coração e vivesse com ele em eterna bem-aventurança, louvando-o e glorificando-o."

  • Imortalidade - A humanidade foi criada para viver eternamente; teve princípio, mas não tem fim. Fomos criados para viver eternamente em comunhão com Deus (vejam-se Gn 2.17; 3.18; Rm 5.12; 6.23; 1 Co 15.20,21).
  • Espiritualidade (Gn 2.7) - O ser humano não é apenas corpo, como são os animais; ele foi criado e dotado de corpo e alma, com anseios espirituais que se concretizam na sua comunhão com o Criador.
  • Domínio Sobre a Natureza - Apesar de nem todos concordarem com isso, parece-nos evidente, biblicamente falando, que um dos aspectos da imagem de Deus, no ser humano, era o seu domínio natural e pacífico sobre a natureza (Gn 1.26,27; Sl 8.5-8). Os animais estavam naturalmente sob o domínio humano; Deus demonstrou isto, partilhando com Adão o direito de dar nomes aos animais (Gn 2.19,20).

2 - O SER HUMANO CAÍDO; A IMAGEM DESFIGURADA

Apesar de o pecado ter comprometido, de forma gravíssima, todas as faculdades originais do ser humano, este não deixou de ser a imagem e semelhança de Deus - visto que isto implicaria em deixar de ser humano.

Contudo, ele se tornou numa imagem desfigurada, desfocalizada, mais propriamente uma "caricatura" do Seu Criador. Calvino, escrevendo sobre isso, disse:

"Quando de seu estado (original) decaiu Adão, não há a mínima dúvida de que por esta detecção se haja alienado de Deus. Pelo que, embora concedamos não haja sido aniquilada e apagada de todo a imagem de Deus, foi ela, todavia, corrompida a tal ponto que, o que quer que resta, é horrenda deformidade."

O pecado, fruto da desobediência voluntária (Gn 3.1-6; Is 48.8; Rm 1.18-32), trouxe consequências funestas (=fatais). Vejamos as principais:

2.1. A Morte - Separação de Deus

O pecado trouxe em seu bojo (= interior, cerne) a morte (Gn 2.17; Rm 5.12; 6.23). A Bíblia nos fala de três tipos de morte:

  • A Morte Física: Separação da alma e corpo, pela qual todos os seres humanos - com exceção dos que estiverem vivos quando Cristo retornar - terão de passar (Ec 12.7; Hb 9.27; 1 Co 15.51,52).
  • A Morte Espiritual: Interrupção da comunhão com Deus. Como já vimos, o pecado gerou a interrupção de nossa comunhão com Deus, e isto significa morte espiritual, pois a vida está em Deus, e sem comunhão com ele estamos mortos (Is 59.2; Ef 2.1,5; Cl 2.13).
  • A Morte Eterna: A interrupção eterna da comunhão com Deus. As pessoas que morrem fisicamente, estando mortas espiritualmente, estarão mortas eternamente para com Deus, não tendo mais oportunidade de arrependimento (Hb 9.27).

2.2. Depravação Total

O pecado corrompeu o intelecto, a vontade e a faculdade moral do ser humano, tornando-o escravo do pecado (Gn 6.5; 8.21; Jo 8.34; Rm 3.23; 6.6). Veja-se Confissão de Westminster, VI. 2,4, IX. 3.

A depravação total é justamente isto: a contaminação de todas as faculdades pelo pecado. Em decorrência disto, o ser humano tornou-se positivamente mau (Gn 6.5; 8.21; Mt 7.11) e incapaz de:

  • Fazer o Bem: O homem natural é mau, por isso não pode produzir bons frutos (Jó 14.4; Jr 13.23; Mt 7.17,18; Jo 15.4,5; Rm 3.9-18). Os atos de “bondade" praticados pelo homem natural, são frutos da Graça Comum de Deus, a qual atua sobre todos, indistintamente.
  • Entender o Bem: Se Deus não iluminar o homem natural, ele jamais compreenderá, salvadoramente, a mensagem do Evangelho: nós um dia fomos salvos, porque Deus abriu os nossos olhos para a Sua Palavra (Jo 1.11; 8.43,44; At 16.14; 1 Co 2.4; Sl 119.18). O conhecimento que Adão e Eva passaram a ter após o pecado foi, virtualmente, diferente (Gn 2.25; 3.7).
  • Desejar o Bem: O homem natural, além de não fazer e não entender o bem, nem sequer deseja o bem. O seu desejo está sob o domínio despótico (=tirânico) do pecado, e por isso, o fato de que a pessoa deseja a Cristo, quando sinceramente, já indica a ação primeira de Deus (Jo 6.44,65; 5.40; Mt 7.18; Jo 3.3; 8.43; 15.4,5).

"Somos como Lázaro em seu túmulo, mãos e pés amarrados; fomos tomados pela corrupção. Assim como não havia qualquer lampejo de vida no corpo morto de Lázaro, assim também não há 'centelha interna receptiva' em nossos corações." (W.J. Seaton)

Destas consequências desprende-se:

  • No campo político: guerras, inimizades e egoísmo;
  • No campo social: drogas, vícios, fome, miséria e vida sub-humana; no campo psíquico, distúrbios emocionais e neuroses;
  • No campo sexual: luxúria, fornicação, adultério, etc., que trazem amiúde as doenças-do-mundo, dentre tantos outros males;
  • Na vida familiar: divórcios, desavenças; no campo religioso, fanatismo e idolatria, os quais geram o vazio, por não adotarem de forma correta o Deus verdadeiro.

3 - A IMAGEM RESTAURADA EM CRISTO JESUS

"O começo da recuperação da salvação temo-la nesta restauração que conseguimos através de Cristo, que, por esta causa, é também chamado Segundo Adão, por isto que nos restitui à verdadeira e completa integridade." (J. Calvino, Institutas, 1.15.4).

Jesus Cristo é o modelo supremo da nova criação. Deus, pelo Espírito, nos recria (Jo 3.5, Tt 3.5), tornando-nos novas criaturas (2 Co 5.17), para sermos conforme a imagem do Cristo encarnado e glorificado (Rm 8.29, 2 Co 3.18, Ef 1.4,5, Fp 3.21).

Todos os que creem em Cristo, como o seu Salvador pessoal, são libertados por Ele mesmo do domínio tirânico do pecado (Jo 8.32-36) para Deus (2 Co 5.17; Fp 3.7,8; Cl 3.1-3), encontrando, assim, a vida em toda a sua expressão (Jo 10.10; Ef 2.1,5).

Através de Cristo voltamos à comunhão com Deus (Rm 5.1,11; 2 Co 5.18-21), tendo discernimento espiritual (1 Co 2.14-16; Cl 3.10), e a morte passou a ser não o fim, mas o prelúdio de uma glória maior, quando seremos glorificados em Cristo (1 Co 15.50-58; Rm 8.30).

IMPLICAÇÕES DOUTRINARIAS E PRÁTICAS

1. O ser humano foi criado bom, todavia, dentro da liberdade de que dispunha, podia cair, como de fato caiu.

Após o pecado, a liberdade do homem tornou-se apenas para o mal, visto que ele está corrompido e dominado pelo pecado. Em Cristo somos libertos do domínio do pecado para Deus, agora, sim, estamos livres!

2. Mesmo o ser humano descrente continua sendo, ainda que de forma desfigurada, a imagem de Deus.

3. Somente em Cristo a pessoa pode ser o que Deus deseja que ela seja: Cristo é o modelo por excelência para todos nós!

4. Somos chamados a prosseguir cada vez mais para a perfeição que há em Cristo Jesus (2 Co 3.18).

Autor: HERMINSTEN MAIA P. DA COSTA


Lista de estudos da série

1. O plano perfeito por trás da criação
2. Quem realmente está no controle de todas as coisas?
3. O código secreto que prova a existência de um Criador
4. O poder que criou o universo com uma única palavra
5. Existe vida além da matéria?
6. As lições surpreendentes que os animais nos ensinam sobre Deus
7. O segredo divino escondido em cada semente
8. A origem da vida segundo seu verdadeiro Autor
9. Você foi criado para ser um reflexo de Deus na Terra
10. Como a Bíblia define o ser humano
11. As 4 verdades sobre o ser humano que os antigos já sabiam
12. O que as filosofias modernas escondem sobre quem você é
13. A verdade sobre por que você não pode salvar a si mesmo

Semeando Vida

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