Gênesis 3.17-19; 9.1-7
Por causa da descaracterização que sofreu o trabalho em nosso tempo, ele deixou de ser um meio para trazer certa satisfação e realização para o homem. Muitos já não se preocupam mais em ocupar uma profissão para a qual tenham habilidades, mas se preocupam por aquela que mais lucro lhe poderá proporcionar.
Desta forma, encontramos pessoas desempenhando uma profissão para a qual não possuem habilidades.
Enquanto isso, outros estão desgostosos, pois, não conseguem encontrar espaço para desempenhar a profissão que acreditam ter habilidades, visto que ela é ocupada por pessoas desqualificadas.
Neste ponto surge a seguinte pergunta: Vocação ou dotação? Somos chamados por Deus para uma função ou ele nos capacita com dons? À luz de textos bíblicos, fica entendido que Deus tem capacitado o homem com dons naturais que lhe possibilitam exercer determinadas funções.
Muitas vezes, a expressão “vocação” tem sido usada para explicar esta dotação de Deus, contudo, para não criar confusão, é preferível usar a expressão dotação, pois esta ideia é mais clara no texto bíblico. Vejamos se é mesmo desta forma:
I. Habilidades para "dominar"
Quando examinamos o relato acerca da criação no livro de Gênesis, somos informados que tendo Deus formado o homem e a mulher a sua imagem e semelhança, encarregou-os de exercer domínio sobre toda a criação (Gn 1.26-30).
A doutrina reformada entende que esta ordem implica que homem e mulher deveriam atuar como vice gerentes de Deus, cuidando e fazendo com que a criação fosse desenvolvida.
Desta forma, homem e mulher deveriam exercer domínio através do desenvolvimento dos diferentes setores da vida, sendo eles, tecnológico, industrial, científico, político, comercial, artístico, etc. As diferentes profissões surgiram para atender a esta tarefa dada ao homem e mulher.
Teria Deus dado ao homem uma tarefa sem ter-lhe dado igualmente capacidades, habilidades para realizá-la de maneira eficiente?
Creio que Deus ao criar o gênero humano o habilitou, capacitando-o com dons que tornaram-se naturais a cada ser humano. Veja que, conforme Gênesis 2.20, tais eram as habilidades que possuía Adão que lhe foi possível dar nomes aos animais de acordo com as suas espécies.
Deus nos criou a sua imagem e semelhança, o que quer dizer que recebemos habilidades, inteligência, criatividade, raciocínio, além de outras características.
Isto significa que, como seres semelhantes a Deus, podemos servir-lhe de instrumentos para que a sua criação seja perpetuada, mantida, desenvolvida, preservada.
II. Habilidades para dominar e a realidade do pecado
A queda afetou o gênero humano em todas as suas habilidades. A imagem de Deus no homem foi grandemente prejudicada.
Sua inteligência, criatividade, raciocínio e habilidades foram afetados, manchados, nublados, embaçados, corrompidos pelo pecado, contudo, não foram de todo destruídos.
Mesmo depois da queda, o homem continua sendo a imagem e a semelhança de Deus, contudo, uma imagem distorcida, prejudicada pelo pecado. Isto que acabamos de dizer pode ser provado conforme a leitura de Gênesis 3.17-19 e 9.1-7.
A. Gênesis 3.17-19
Neste texto, percebemos que após a queda o homem continua a ter o encargo de trabalhar a terra, porém, agora com dificuldades. Isto quer dizer que as atribuições que recebeu ao ser criado a imagem e semelhança de Deus continuam a existir.
Podemos dizer também que continuam a existir as habilidades para cumprir sua tarefa. A ordem de dominar não foi abolida com a queda, nem as suas habilidades destruídas.
B. Gênesis 9.1-7
Neste texto, onde encontramos a aliança de Deus com Noé, percebemos que tal aliança é feita sobre as mesmas bases daquela que foi promulgada na criação com Adão. Em outras palavras, não temos aqui uma outra aliança, senão a reafirmação daquela estabelecida na criação.
Nessa aliança, o Senhor reafirma a ordem dada ao homem para que domine sobre a criação. Também, conforme 9.6, somos lembrados de que o homem continua a ser imagem de Deus, daí o motivo para não se tirar a vida de ninguém.
Desta forma, conforme os textos acima, verificamos que, mesmo após a entrada do pecado, a ordem para dominar continua de pé e as habilidades, os dons naturais dados por Deus, continuam a existir em cada ser humano, possibilitando o desenvolvimento da criação.
Está claro que, com a realidade do pecado, o gênero humano em seu estado que passou a ser natural, ou seja, nascido em pecado, continua a cumprir a ordem de dominar, todavia não mais de maneira perfeita e santa, nem tão pouco o faz com o propósito de agradar a Deus, como era no princípio.
A experiência prova isso, pois percebemos que, na medida em que o homem domina a criação, progredindo em conhecimento e em invenções que lhes são benéficas e que a princípio não ofendem a Deus, ele também contribui para a sua própria ruína e decadência, afetando a sua existência. Por exemplo: os avanços científicos, permitiram a descoberta do código genético, contribuindo para o avanço na descoberta da cura de diversas doenças.
Por outro lado, já se tem conhecimento de que este avanço poderá ser, se já não tem sido, uma arma na mão de cientistas sem escrúpulos, que poderão usar tais conhecimentos a favor de empresas para contratar pessoas que geneticamente sejam saudáveis e que não lhes tragam prejuízos futuros.
C. A graça comum
A Bíblia mostra que Deus, por meio de sua graça comum que se estende a todo gênero humano, possibilita que as habilidades e os dons naturais continuem a existir no homem, de tal forma que ele consiga viver uma vida ordenada e possa desenvolver-se nos diversos setores profissionais.
Essa graça não perdoa nem purifica a natureza humana de seus pecados, pois somente a graça especial, manifestada mediante a obra de Cristo, pode fazer isto. Contudo, a graça comum impede que o pecado tenha efeito destrutivo total sobre o homem.
Sendo assim, qualquer pessoa, crente ou não, poderá usar os seus dons naturais de tal forma que alcance benefícios para si mesma e para a humanidade. Por isso, o homem, consciente ou não do mandato que recebeu na criação (dominar), é capaz de obedecê-lo, desenvolvendo a criação de Deus.
O Pai Celeste não só “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos" (Mt 5.45), como também distribui dons a todos.
III. Dons naturais diferentes, para pessoas diferentes
Como já vimos, cada pessoa, crente ou não, recebe das mãos graciosas de Deus habilidades que possibilitam o desenvolvimento de todos os aspectos da sociedade. O pecado, embora tenha afetado grandemente os dons naturais, não os destruiu totalmente — isto porque a graça comum restringiu os seus efeitos.
Sendo assim, nem todos poderão exercer a medicina, ou terão habilidades para serem bons comerciantes, ou para serem bons administradores, ou quem sabe bons zeladores de condomínio, ou bons motoristas de ônibus.
Certamente todos possuem habilidades próprias que serão aplicadas para o desenvolvimento da criação de Deus, em setores diferentes da sociedade.
A. Os descendentes de Caim
Em Gênesis 4.17-22 há o registro acerca dos descendentes de Caim. Somos informados também acerca de algumas atividades que eles passaram a desenvolver.
"Caim edificou uma cidade”, Jabal “foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado", Jubal "foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta" e Tubalcaim foi "artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro".
Percebam que Caim e seus descendentes passaram a aplicar seus dons naturais em atividades para as quais se sentiam capacitados.
Cada um se especializou em ocupações diferentes. Vejam que a construção civil, a pecuária, a música (artes) e a metalurgia começaram a ser desenvolvidas por eles.
Este exemplo deixa claro que cada pessoa recebe diferentes dons que a capacitam a se especializar em diferentes setores profissionais. Isto independe se a pessoa é crente ou não. Deus dota a cada um para que tenha condições de cumprir o mandato de exercer domínio sobre a criação.
B. José do Egito
Quando estudamos a vida de José, verificamos que ele não se tornou governador do Egito por acaso, nem tão pouco sem possuir dons que o capacitassem para tal. Gênesis 37 começa a contar a sua história e de sua família.
O Senhor havia revelado que ele exerceria a autoridade sobre seus familiares. Ao contar isto para seus irmãos, eles o odiaram, vendendo-o para ser escravo no Egito. Nesse país, ao ser comprado por um oficial de Faraó, logo foi reconhecido nele, capacidade para administrar (leia Gn 39).
Potifar, reconhecendo que José era um jovem responsável, crente e que tinha habilidades para administrar, logo entregou a seus cuidados toda a sua casa.
Ao ser mandado para a prisão injustamente, seus dons também foram reconhecidos pelo carcereiro, que também deixou a seu cargo todos os presos...
"E nenhum cuidado tinha o carcereiro de todas as coisas que estavam nas mãos de José" (Gn 39.23).
No capítulo 41 de Gênesis, José torna-se governador do Egito. Está claro que isto aconteceu conforme o propósito de Deus para salvar seu povo, mas certamente, o Senhor não anulou os seus dons naturais, antes, fez com que eles fossem aprimorados durante o tempo em que foi escravo e prisioneiro.
Deus abençoou José fazendo com que todas as circunstâncias contribuíssem para que se tornasse governador do Egito.
Percebam que durante a sua vida, até se tornar governador, ele passou por uma escola prática de administração, onde pôde desenvolver seus dons naturais, sendo preparado para ocupar um cargo de grande importância e responsabilidade.
IV. O fim principal dos dons naturais
"Qual o fim principal do homem? O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre".
Vejam que a pergunta 1 do Breve Catecismo entende que o homem existe para glorificar a Deus e ter satisfação nele. Sendo assim, podemos dizer que nossos dons naturais devem ser desenvolvidos de tal forma que Deus seja honrado e glorificado.
Em Colossenses 3.22-25, Paulo orienta aos servos que exerçam seu serviço com dedicação “não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar a homens, mas em singeleza de coração temendo ao Senhor”, fazendo tudo de “todo o coração, como para o Senhor e não para homens”.
Este princípio, afetado na queda, deve ser priorizado pelo crente. Quando este princípio, ou seja, glorificar a Deus, direciona a vida do crente, ele se esforça para que seus dons, aplicados a determinadas atividades, glorifiquem a Deus.
Desta forma, o crente, tendo esta meta em sua vida, irá ser, por exemplo, um bom médico, um policial eficiente, um porteiro cuidadoso, uma dona de casa eficiente, uma costureira caprichosa, fazendo tudo da melhor forma possível, sabendo que, agindo assim, estará cumprindo o propósito de Deus, sendo-lhe um servo dedicado no mundo.
Conclusão
Se todos tivessem consciência acerca dos dons que receberam de Deus, e os aplicassem com diligência na função para a qual foram habilitados, teríamos pessoas mais satisfeitas e, certamente, teríamos maior qualidade nos serviços prestados.
E claro que, como consequência do pecado, isto não é possível com todas as pessoas, contudo, para aquele que conhece a Deus e lhe pertence, isto deve ser uma meta, ou seja, aplicar com diligência o dom que recebeu de Deus na função para a qual se sente habilitado, com o fim de não somente agradar os homens, mas acima de tudo glorificar a Deus.
Desafio
Você tem consciência das habilidades e dos dons naturais que Deus lhe concedeu? Você tem aplicado esses dons na função para a qual se sente habilitado?
Autor: Waldemar Alves da Silva Filho
Lista de estudos da série
1. O Primeiro Trabalhador: Descubra a origem divina e o propósito do seu trabalho – Estudo Bíblico sobre a Teologia do Trabalho2. Do Paraíso ao Suor: Entenda por que seu trabalho é tão difícil e como redimi-lo – Estudo Bíblico sobre a Queda
3. Além do Salário: Descubra o verdadeiro chefe a quem você serve todos os dias – Estudo Bíblico sobre Propósito
4. Chamado ou Capacidade?: O segredo para alinhar seus dons naturais ao plano de Deus – Estudo Bíblico sobre Vocação
5. Cristão no Comando (ou na Equipe): Um guia prático de ética para líderes e colaboradores – Estudo Bíblico sobre Liderança
6. Quando o Lucro Vira Ídolo: Os 3 perigos de amar o dinheiro mais do que a Deus – Estudo Bíblico sobre Ganância
7. Salário Retido, Justiça Clamando: Como a Bíblia denuncia a opressão no trabalho – Estudo Bíblico sobre Justiça Social
8. Provisão ou Presença?: O segredo para equilibrar carreira e família sem perder nenhum dos dois – Estudo Bíblico sobre Família
9. Da Sala de Reunião ao Lar: O plano de Deus para a mulher que trabalha – Estudo Bíblico sobre a Mulher na Sociedade
10. A Pausa Sagrada: Por que o descanso não é luxo, mas um mandamento divino – Estudo Bíblico sobre o Sábado
11. Deus Não Quer Seu Dinheiro: Descubra o que Ele realmente espera de suas finanças – Estudo Bíblico sobre Dízimos e Ofertas
12. A Verdadeira Riqueza: Aprenda a administrar seus bens como um fiel mordomo de Deus – Estudo Bíblico sobre Mordomia
13. Seu Talento, Sua Missão: Por que o voluntariado é uma das formas mais poderosas de trabalho – Estudo Bíblico sobre Serviço
