Deveres de todo cristão


Hebreus 13.7-17

Não é possível identificar o autor de Hebreus, contudo, isso é irrelevante diante de seu conteúdo e propósito. O autor escreveu para judeus que haviam se convertido ao Evangelho. E nesse texto, seu objetivo é alertar seus leitores para não voltarem ao judaísmo e motivá-los a permanecerem fiéis à fé em Jesus. A fidelidade implica não somente estar atento à doutrina, mas também aplica-la na vida.

O texto lido, bem como o capítulo 13 é uma demonstração disso. Nesse capítulo lemos algumas orientações através das quais podemos ver como a doutrina pode ser aplicada na vida. 

Vejamos:


1. Respeite os líderes (v.7,17). “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram”. V. 17 – “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros”.

Nessa passagem o autor enfatiza a palavra líderes. Lembrai-vos dos vossos guias no v. 7. Obedecei aos vossos guias no v. 17. 

No v. 7 o autor fala de lembrar-se dos líderes. Isso quer dizer “traga à memória aquilo que você sabe sobre uma pessoa”. O autor aqui exorta seus leitores para pensarem nos líderes que morreram. Nós não sabemos quem eram esses líderes, sabemos, porém que eram pessoas dedicadas ao ensino. Podiam ser presbíteros, pastores, professores ou outros pregadores. Os leitores são exortados a lembrarem-se deles, a olharem o resultado do trabalho dessas pessoas. Finalmente, os leitores são exortados a imitarem a fé dessas pessoas. 

No v. 17 o autor fala de outras virtudes que estão relacionadas com o respeito aos líderes. Segundo o autor, seus leitores deviam ser obedientes aos seus líderes. E porque esses líderes deveriam ser obedecidos? Em primeiro lugar, porque cuidava do povo através do ensino e da disciplina e em segundo, porque os líderes iam prestar contas para Deus pelo trabalho feito. 

Portanto, o princípio exibido aqui é: O respeito à liderança é ordem de Deus. Essas admoestações devem fazer com que reflitamos sobre algumas questões relacionadas aos liderados, aos líderes e ao respeito dispensado a estes. 

1ª. O respeito à liderança não é opção e não está condicionado à nossa simpatia pessoal. O que deve determinar nosso respeito pela liderança deverá ser nossa fidelidade à Escritura e nosso amor a Deus. O problema é que o respeito pelo líder não poucas vezes é determinado por ele fazer o que gostamos e por falar o que queremos. Uma pessoa fiel às Escrituras e santa em seu proceder nem sempre vai falar e vai fazer aquilo do que gostamos. 

2ª. Se os líderes desejam respeito, é bom que eles conquistem isso não pela imposição mas pela sua vida. Paulo exorta a Timóteo a esse respeito dizendo: “Torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1 Tm 4.12).

3ª. Tanto líderes quanto liderados devem ter a consciência de que os líderes prestarão conta para Deus pelo serviço oferecido a Deus. Portanto, líderes, exerçam a sua função com temor. Liderados, quem está apto para julgar o seu líder não é você, mas sim, Deus.


2. Não se envolva com doutrinas estranhas (v.9). “Não vos deixeis envolver por doutrinas várias e estranhas, porquanto o que vale é estar o coração confirmado com graça e não com alimentos, pois nunca tiveram proveito os que com isto se preocuparam”.

O que ocorria é que falsos mestres espalhavam um ensino que negava a suficiência de Cristo e apregoava que homem para ser aceito por Deus tinha que fazer sacrifícios de animais e consumir certos alimentos. Os cristãos não podiam dar ouvidos a essas coisas.

Isso porque o sacrifício de animais e consumos de alimentos não tinham validade alguma. A morte de Cristo pôs um fim na necessidade de ser praticar essas coisas. Ele morreu pelos pecados e para santificar um povo para prestar-lhe culto de louvor. Seus seguidores deveriam estar dispostos a serem rejeitados pelas pessoas que ensinavam coisas contrárias ao Evangelho. Enfim, deveriam estar cientes de que sua verdadeira morada está sendo preparada por Cristo. 

A igreja sempre conviveu com heresias. Paulo combateu o culto aos anjos em Colossenses e os judaizantes na carta Gálatas que afirmavam que todos deviam passar pela circuncisão. João combateu o ensino de que Jesus era uma espécie de fantasma. Os reformadores combateram a Igreja Romana que proibiu a leitura da Bíblia dentre outras coisas.

Nos dias atuais não é diferente, pois muitos ensinos estranhos ao Evangelho têm sido disseminados. O tempo todo nós ouvimos ensinos sobre a prosperidade financeira do homem, sobre milagres por atacado, sobre práticas supersticiosas tais como o copo d´água, óleo ungido de Israel e água do Jordão. Ouvimos falar de ensinos sobre práticas que estão mais próximas do paganismo do que de qualquer verdade do Evangelho como, por exemplo, o sal grosso. Temos ouvido também ensinos sobre novas revelações do Espírito, visões de anjos etc.

Não pensemos que estamos livres de sermos seduzidos por essas falsas verdades. O risco para os crentes do passado é o mesmo para nós hoje em dia. A todo o momento, ouço sobre pessoas que aderiram a ensinos estranhos ao Evangelho. 

Portanto algumas dicas preciosas

1. Leia e estude as Escrituras. Tenha o hábito de ler bons livros. Isso vai habilitá-lo a identificar falsos ensinos;

2. Nunca acredite em pregação que prometa coisas boas nessa terra. A terra está sob a maldição por causa do pecado. Logo, o sofrimento é parte integrante de nossa vivência.

3. Rejeite pronta, decisivamente e sem medo qualquer ensino que contrarie o Evangelho. 

3. Faça o bem ao seu próximo (v. 16). “Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz”.

Os leitores da carta aos Hebreus estavam negligenciando a ajuda aos necessitados. O autor busca relembrá-los que viver uma vida santa consiste em amar ao Senhor com o coração, alma e mente, e ao próximo como a si mesmo.

Os cristãos primitivos demonstravam seu amor ao Senhor servindo a Ele, e assistindo o próximo em suas necessidades. Viúvas e órfãos eram amparados, os pobres eram socorridos. Com base nisso, essa era a ordem do autor – Faça o bem, socorra seu próximo. Ao amar o próximo como a ti mesmo (Tg 2.8) agradamos a Deus e cumprimos sua Lei.

Portanto, algumas dicas:

1. Não se canse de fazer o bem. Lembrando que nossa caridade deve ocorrer na seguinte ordem: A) Família – “Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente” (1 Tm 5.8). B) Irmãos da fé – “Façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6.10). C). Demais pessoas. Só após olharmos para nossa família e para nossos irmãos e que devemos dirigir nosso olhar para os mais distantes de nós. 

2. Tenha consciência de sua caridade é manifestação do amor de Deus por outra pessoa através de sua vida.

3. Entenda que a caridade é uma das expressões da fé. Nunca ela será meio para a salvação. A salvação somente é possível pela fé em Jesus e pela manifestação de sua graça. Portanto, a salvação não é fruto de nossos méritos.

Conclusão
Como cristãos, temos vários deveres para expressar nossa fé. O autor de Hebreus nos fala sobre alguns. Segundo ele, devemos respeitar nossos líderes, não podemos nos envolver com doutrinas estranhas, e devemos fazer o bem ao próximo.

Que a graça de Deus nos habilite para que tais deveres sejam observados abundantemente por todos nós. 

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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