2 Coríntios 5.11 a 6.2
Qualquer que seja o tipo de relacionamento humano, as pessoas estão sujeitas a enfrentar crises, falhas, erros e divergências em seu trajeto.
E quando isto acontece, muitas vezes surge uma profunda mágoa; outras vezes, relacionamentos rompidos; não é raro que se distanciem, e o caminho mais fácil acaba sendo o da separação.
Cada qual segue um novo caminho, mas a mágoa e, muitas vezes o ressentimento do acontecido, vão juntos. Para muitos casos, a possibilidade de reconciliação parece não existir.
Para que possamos compreender o estudo de hoje, faz-se mister que tenhamos em mente que o estado pelo qual o homem se encontra diante de Deus é este: alguém que criou com Deus um estado de inimizade.
O relacionamento homem-Deus foi totalmente destruído pela desobediência. O caminho mais fácil que o homem encontrou foi o de fugir da presença do Senhor (Gn 3.8-10). O homem passou a viver na carne e a promover cada vez mais, a inimizade para com Deus (Rm 8.7,8).
Por causa disso, o homem se tornou filho da ira de Deus e objeto de juízo por parte do Senhor. Mas Deus, em seu infinito amor, demonstra ao homem que não existe para Ele impossibilidade de reconciliação.
Deus vem ao homem; vem para promover esta chance; vem para derrubar a parede da separação e da inimizade e reatar com o homem os laços de vida que só procedem dele.
Análise do texto
Paulo enfrentava diversas oposições ao seu ministério e pessoa. Esteve preso, outras vezes fora apedrejado, torturado, fustigado com varas...
Mas quanto aos coríntios, estes diziam que Paulo não era apóstolo porque não foi testemunha ocular da vida terrestre de Jesus, nem lhe conheceu as palavras e atos. Por isso, não podia ser testemunha do Evangelho.
No entanto, o apóstolo mostra que o Evangelho não é simples história de Jesus, e sim, o anúncio de sua morte e ressurreição, que restaura a condição humana, vence a alienação causada pelo pecado e inaugura nova era.
A cruz de Jesus anuncia o fim da inimizade com Deus e inaugura a era da reconciliação universal.
1. A RECONCILIAÇÃO SE FIRMA EM ASPECTOS TEOLÓGICOS
Ao tratarmos da reconciliação do homem com Deus, não podemos ignorar ou cometer o erro de alienar a base doutrinária e teológica da reconciliação. Assim sendo, podemos destacar:
1.1. Tudo provém de Deus
Paulo destaca no versículo 18 que Deus é o sujeito da reconciliação. É Deus quem inicia tudo, quem age a fim de promover esta reconciliação. A parte ofendida é que inicia o movimento de reatar laços rompidos.
A boa-nova não parte do homem; não é simplesmente mais um dos recursos que o homem criou para tentar encontrar um caminho de volta a Deus. O teólogo Ray Stedman afirma que "a natureza dessa boa nova é tal, que nunca poderia ter sido inventada pelo homem".
Desde Gênesis 3, quando da queda do homem e sua tentativa de fuga diante de Deus, é Deus quem vem ao encontro do homem. Em Efésios 2.14-16, o apóstolo Paulo destaca que Deus é quem derruba a parede da separação e da inimizade.
O Dr. J.J. Von Allmen afirma: "Há, pois, unanimidade nas Escrituras, sem contestação possível, Deus tem apenas toda a iniciativa desta reconciliação, sem que intervenham as disposições de seus parceiros. Ele decidiu, cumpriu e perseverou nesta obra, até o fim: "Tudo provém de Deus" (v. 18).
1.2. Reconciliando o mundo
Quem foi reconciliado? Conforme Romanos 5, trata-se de nós, os inimigos de Deus; segundo Romanos 11, trata-se do mundo, já em sentido voltado para as nações gentias e sem esperança de Deus.
Aqui, em sentido mais abrangente, a humanidade inteira, a criação escravizada pelo pecado (v. 19). Em Colossenses 1.20, Paulo refere-se novamente a todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.
No versículo 15, o apóstolo ressalta: "E Ele morreu por todos". Ray Stedman destaca sobre esta afirmação: "Ninguém é excluído desse convite por motivo de raça, cor, condição ou classe. A reconciliação não é propriedade de alguns grupos. É uma porta que está totalmente aberta a todos".
1.3. O preço da reconciliação
Os textos são unânimes: "Nos reconciliou consigo mesmo, por meio de Cristo Jesus" (v. 18), "...a saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo" (v.19). Em Romanos 5, Paulo enfatiza que o preço da reconciliação era a cruz de Cristo.
A cruz de Jesus anuncia o fim da inimizade com Deus e inaugura a era da reconciliação universal. Foi Ele quem rasgou o escrito de dívida (Cl 2.14,15). Foi Ele quem estabeleceu pela cruz uma ponte de ligação (I Tm 2.5).
Deus não podia e nem resolveu dar um "jeitinho" e passar por cima de sua justiça e santidade em nome do amor pelo homem, e assim reconciliá-lo. Ele satisfaz estas exigências na cruz e em seu Filho Jesus.
Paulo continua a esclarecer: "Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele, fôssemos feitos justiça de Deus..." (v.21).
Enquanto esperamos o dia da ressurreição, Deus escolheu apóstolos para exercer o ministério da reconciliação. Por meio deles, o Senhor Jesus continua sua atividade de convocar todos os homens à reconciliação com Deus e com o seu próximo!
2. A RECONCILIAÇÃO APRESENTA ASPECTOS PRÁTICOS
Conquanto já tenhamos visto uma abordagem teológica, Paulo recorre à doutrina da reconciliação para fazer essa exortação de caráter prático aos coríntios. Vejamos algumas perspectivas práticas e vivenciais, como consequência de vidas reconciliadas:
2.1. Novas criaturas e novos padrões
No versículo 17, o apóstolo Paulo afirma: "E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura..."
A ênfase desta afirmação, está em que quando uma pessoa está em Cristo, ela faz parte da nova criação, o que implica em uma nova forma de existência, pois as coisas antigas se passaram e tudo se fez novo.
O comentarista José Comblin afirma que: "A novidade de vida fica explicada por estes versículos: 'e já estamos numa vida nova, já não devemos tratar ninguém com os critérios do mundo velho'.
Este 'nós' não se refere somente a Paulo, mas a todos os cristãos. As normas que o orientam são aquelas que valem para todos os cristãos.
Ele reivindicava e exortava a que as pessoas se relacionassem de acordo com os novos critérios de uma nova vida". Esses critérios são regulados pelo amor de Cristo que nos constrange.
2.2. Reconciliados para ministrar reconciliação
Nos versículos 18 e 19, a abordagem de Paulo se volta para um problema bastante prático da vida.
Os coríntios que tinham acolhido falsos ministros e negligenciado o apóstolo Paulo, relutavam em acolhê-lo. Paulo salienta que uma nova vida, fruto da reconciliação com Deus, é chamada a ministrar reconciliação entre os homens.
Essas palavras precisam ser bem aprendidas na atualidade, onde muitos crentes são "ministros" da discórdia, da confusão e da difamação. Seus lábios bajuladores estão a destilar o veneno do engano e a promover intrigas na Igreja de Deus.
Deus tem confiado à sua Igreja o ministério da reconciliação, que se caracteriza pela proclamação da Palavra da reconciliação (v. 19).
A Palavra que desafia ao amor, ao perdão e à reaproximação que é possível só em Cristo. O Senhor Jesus, na oração do "Pai Nosso", aplicou bem este princípio, ensinando aos seus: "Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores".
2.3. Embaixadores da exortação
No versículo 20, Paulo afirma: "De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio". O verbo que Paulo emprega na expressão "somos embaixadores", significa, essencialmente, "ser mais velho ou o mais velho".
O biblista Colin Kruse, quanto a isto, afirma: "O fato extraordinário a respeito da embaixada desenvolvida por Paulo é seu relacionamento com a atividade de Deus como quem promove a reconciliação".
Paulo queria enfatizar que aqueles que são enviados por Deus, precisam ser recebidos e acolhidos como embaixadores, por meio de quem Deus ministra reconciliação.
A nova vida em Cristo, habilita o crente não apenas a ministrar, mas também a colaborar nesta obra de reconciliação com Deus, através da sua vida e proclamação.
Autor: CARLOS DE OLIVEIRA ORLANDI JÚNIOR
