2 Coríntios 6.14 a 7.1
Será que é possível viver neste mundo sem se relacionar com as pessoas ímpias ou incrédulas? Será que toda associação com os incrédulos é prejudicial para a vida cristã?
Existe um princípio de que o ser humano é um "ser social", ele não é uma "ilha". A forte tendência humana é de se viver agregado ou associado, viver em comunidade. Certa vez o próprio Cristo orou, dizendo: "Não peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal" (Jo 17.15).
O cristão é um ser social e possui a missão de proclamar o Evangelho a toda a criatura, de ser luz do mundo, mas sem se contaminar com aquilo que provém do reino das trevas.
Ele vive no meio dos ímpios, mas não vive na prática da impiedade. Ele é convocado por Deus para viver de modo santo, ou seja, separado do mundo e consagrado a Deus.
O próprio termo santidade indica ou significa "separação", "distanciamento", "corte". A recomendação petrina é a seguinte: "Sede santos, porque eu sou santo" (I Pe 1.16).
E sobre esta vida de santidade que este estudo bíblico se ocupa.
Análise do texto
Este texto em análise, possui alguns problemas, pois o assunto da carta é bruscamente alterado; há um corte brutal, sendo que a sequência é alterada, pois Paulo estava falando da autenticidade do seu apostolado e agora o assunto é a resistência contra o mundo pagão.
Há comentaristas que chegam até a questionar se esta perícope (texto em foco) é de Paulo.
Quando Paulo recomenda aos coríntios para não se colocarem em jugo desigual (6.14), certamente ele está fazendo referência aos mandamentos do Antigo Testamento em Deuteronômio 22.10 e Levítico 19.19.
A ideia é que existem certas práticas pecaminosas que são essencialmente distintas e incompatíveis com a vida cristã, e por isso devem ser rejeitadas. É impossível que a pureza do cristão e a contaminação do mundanismo estejam unidos, ou sejam a mesma coisa.
Quando ele fala no verso 18 sobre o relacionamento entre o Pai e o Filho, ele passa esta ideia, pois o filho de Deus é aquele que apresenta as afeições do Pai, sendo que o filho de um Pai Santo possui um alto padrão a ser mantido.
Ao perguntar: "que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos?", Paulo estava se lembrando do episódio no qual Manassés introduziu uma imagem no templo de Deus (II Rs 21.1-9), sendo mais tarde destruída totalmente pelo rei Josias (II Rs 23.3ss).
Portanto, o recado principal que o apóstolo quer dar é para que os Fiéis não se misturem com as práticas daqueles que possuem uma conduta ímpia.
Sabe-se que muitos naqueles dias haviam voltado para o paganismo e o relacionamento com esses está sendo condenado, pois a vida de santidade é incompatível com as práticas pecaminosas.
Aqui no texto há, também, um forte apelo para que não exista comunhão com aqueles que vivem na prática do pecado, e sim, que se busque uma vida de santificação no temor de Deus (7.1).
Para enfatizar o seu pensamento, Paulo utiliza as seguintes palavras: "sociedade", "comunhão", "harmonia", "união" e "ligação". Estas palavras apontam na mesma direção de que nenhuma associação íntima com aqueles que estão envolvidos com atitudes pecaminosas deve ser observada na vida dos que desejam a santificação.
O estudo pretende apresentar alguns aspectos desta Santidade à luz do texto em análise.
1 - A VIDA DE SANTIDADE É INCOMPATÍVEL COM AS PRÁTICAS PECAMINOSAS
Está clara, no texto em apreço, a incompatibilidade entre crentes e incrédulos, justiça e iniquidade, luz e trevas, Cristo e maligno, santuário de Deus e ídolos, apresentando, assim, uma linha divisória entre aquilo que pertence a Deus e o que não pertence.
O desejo de Paulo é que os cristãos de Corinto não retornassem às práticas anteriores, ou seja, da vida sem Cristo. Sua advertência é quanto às associações com os pagãos, os quais levam às práticas idólatras e induzem à imoralidade. Ele já havia dito que quem está em Cristo é nova criatura: as coisas antigas já passaram (II Co 5.17).
Há algumas atitudes ímpias com as quais o cristão não deve se envolver. A ideia principal está relacionada, portanto, com os atos pecaminosos e não com as próprias pessoas. E assim que Deus ensina ou age: Ele ama os pecadores, mas odeia o pecado.
A Igreja precisa ir ao encontro dos perdidos, dos incrédulos, dos marginalizados, dos excluídos, mas sem se envolver com as suas atitudes pecaminosas. A vida de santidade é, pois, incompatível com as práticas tão comuns encontradas nos incrédulos.
Jesus viveu neste mundo e se relacionou com muitas pessoas pecadoras, blasfemas e incrédulas, mas não se associou com as suas práticas. Jesus viveu sem pecado (I Pe 2.21,22).
O apóstolo João define o pecado e diz que quem vive na prática do pecado, não conhece a Deus (I Jo 3.4-6,9).
E interessante observar que vários Provérbios apontam para esta incompatibilidade entre os atos pecaminosos e os praticados por uma vida santa, que pertence de verdade a Deus (Pv 4.14; 22.24; 23.6; 24.1 e 28.7).
2 - A VIDA DE SANTIFICAÇÃO EXIGE DETERMINAÇÃO
No versículo 17, Paulo recomenda ao cristão, de modo enfático a se retirar do meio dos incrédulos, a se separar, a não tocar em coisas impuras. Esta é uma alusão ao texto de Isaías 52.11.
Agir deste modo, exige muita determinação e coragem por parte dos cristãos. Paulo deseja que os cristãos sejam maduros e bem conscientes dos princípios e valores bíblicos, para que não venham a manchar a sua vida de santidade. Aqui está um grande desafio.
O exemplo de Daniel ilustra bem esta questão, pois ele e os companheiros, numa demonstração de coragem e submissão à vontade de Deus, resolveram firmemente a não se contaminarem com as iguarias do rei (Dn 1.8).
Neste sentido, aos Efésios foi dito: "E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as" (Ef 5.11). Assim, também, Paulo recomendou ao seu filho na fé - Timóteo (II Tm 3.1-9).
Percebe-se que alguns membros de Igreja não têm tido esta determinação e acabam se amoldando às paixões carnais. São aqueles que demonstram vergonha para testemunhar, acomodação, e encaram tudo como sendo comum e normal.
Mas uma vida de santificação é aquela que não se adapta ou se amolda às práticas mundanas, mas procura firmemente demonstrar a luz de Cristo em todos os lugares e circunstâncias.
3 - A VIDA DE SANTIDADE PRECISA SER CADA VEZ MAIS APERFEIÇOADA
No final desta perícope, já no capítulo 7.1, está o chamamento paulino para que esta vida de santidade seja cada vez mais aperfeiçoada. Ele diz: "...aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus".
A santificação é uma ordem divina ao seu povo (Lv 11.44,45; Hb 12.14; I Pe 1.16). Ela se constitui num processo que não pode ser interrompido. Mas, quando há uma associação profunda com os incrédulos, esse processo é prejudicado. No Salmo 1° encontramos importante recomendação nesse sentido.
Sabe-se ainda que, mediante a santificação progressiva, o cristão vai assumindo a própria natureza divina, conforme ela é vista no Filho (Rm 8.29).
É preciso deixar claro que a vida de santidade não é apenas uma neutralização do chamado "velho homem", mas um revestimento do "novo homem", num compartilhamento do seu amor, de sua justiça, de sua bondade, de sua graça; enfim, de tudo quanto o Senhor Deus é moralmente.
A comprovação desta vida de santidade aperfeiçoada a cada dia, evidencia-se na manifestação do fruto do Espírito (Gl 5.16-26).
Assim sendo, aqueles que buscam constantemente esta vida de santificação, estarão aptos para desempenhar um trabalho frutífero (II Tm 2.21).
Mas, aquele que se polui com muitos males e com associações erradas, não conseguirá realizar grandes obras no desempenho de suas atividades.
Autor: REV. ANDERSON SATHLER
