2 Coríntios 8.1-15
De acordo com o Mapa das Organizações da Sociedade Civil (IPEA, 2024), o Brasil registra mais de 897 mil organizações da sociedade civil ativas, incluindo associações, fundações e entidades religiosas voltadas para causas como ecologia, direitos humanos, mulheres, combate ao racismo, crianças em vulnerabilidade, saúde (incluindo HIV/AIDS), povos indígenas e muitas outras.
O texto bíblico tomado por base para este estudo, também nos fala de solidariedade. É preciso entender que o Evangelho de Cristo é essencialmente solidário, como veremos no presente estudo.
Análise do texto
Conforme comentários da Bíblia Sagrada Edição Pastoral, referentes ao texto, no ano 48 houve grande fome na Judéia e em Jerusalém (At 11.28), por causa da colheita fraca do ano precedente, que tinha sido sabático, no qual os judeus não semeiam, para que a terra possa descansar.
Para atender à situação, organizou-se uma ajuda econômica em favor dos cristãos de Jerusalém.
Por isso, Paulo aconselha as Igrejas de Corinto e de sua província a realizarem a coleta que já haviam decidido fazer (I Co 16.1-4). E salienta que essa ajuda material é graça de Deus, muito maior para quem oferece do que para quem recebe.
O texto nos apresenta, portanto, uma inspirativa mobilização solidária. O belo exemplo dos cristãos da Macedônia e o próprio exemplo de Cristo, devem nos despertar para atender às recomendações paulinas concernentes à solidariedade cristã.
1. A SOLIDARIEDADE CRISTÃ VAI ALÉM DA MERA TEORIA
No versículo 11 Paulo anima os coríntios, dizendo: "completai agora a obra começada, para que, assim como revelastes prontidão no querer, assim a leveis a termo."
Solidariedade é algo que não pode ficar apenas no discurso, no papel ou na intenção. Teoria apenas não resolve; é preciso levar a termo a consciência da necessidade de ação, transformando os sentimentos em atos e as intenções em realidade.
Atualmente, não é pequeno o número de pessoas que têm levantado a bandeira da solidariedade, mas que, na verdade, falam muito e fazem pouco.
Alguns se autodenominam porta-vozes dos fracos e marginalizados, defensores dos direitos humanos, defensores das minorias, chegam a integrar grupos e organizações humanitárias e, no entanto, não saem da teoria.
Podem ser comparados aos fariseus que Jesus censura "porque dizem e não fazem"(Mt 23.3). Costumam ter planos perfeitos, discursos inflamados e uma aparente misericórdia, mas falta-lhes a ação. Felizmente nem todos são assim.
Há também demonstrações autênticas de solidariedade. A parábola descrita em Lucas 10.25-37 retrata muito bem esta realidade. É preciso distinguir dos oportunistas, as pessoas verdadeiramente comprometidas com causas solidárias.
Com certeza, entre as quase de 900 mil organizações e Igrejas que buscam promover a solidariedade, há muita gente séria e consciente do compromisso.
Numa alusão ao texto bíblico, pode-se dizer que ainda há muitos "samaritanos". Será que é na proporção de uma em cada três pessoas, como ocorre no texto?
2. A SOLIDARIEDADE CRISTÃ OBEDECE ALGUNS CRITÉRIOS BÁSICOS
Há alguns critérios que devem ser observados por aqueles que se sentem desafiados e despertados para um viver solidário.
As ideias contidas nos três itens subsequentes são emprestadas do volume 1 de "Auxílios Homiléticos", produzido pela Secretaria de Pastoral de Consolação e Solidariedade, do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI).
Os critérios básicos que devem determinar a ação solidária são:
2.1. Conforme a voluntariedade
"Se há boa vontade, será aceita..." (v. 12). Paulo fundamenta este ato solidário na boa vontade e prontidão dos macedônios em ajudar (v. 11). A voluntariedade dos macedônios foi tão grande que insistiram na possibilidade de participar daquele ato solidário (vv. 1-4).
2.2. Conforme a possibilidade
"Conforme o que o homem tem..." (v.12). Os macedônios estavam experimentando um estado de profunda pobreza (v.2). Mas quando lhes foi colocada a situação dos irmãos da Judéia, buscaram responder a essa necessidade deles de acordo com as suas possibilidades (v.3).
No versículo 11 Paulo apela aos Coríntios para que sejam solidários conforme as suas posses. O que é ressaltado pelo apóstolo não é a quantia, o valor da contribuição, mas a efetiva participação de cada um, fazendo o que está ao seu alcance.
2.3. Conforme a necessidade
"Suprindo a vossa abundância... a falta daqueles"(v.14). Diante da necessidade dos crentes da Judéia, os macedônios abriram seus corações para suprir, fazendo de tal forma que, ao participarem da coleta, estavam permitindo uma distribuição igualitária dos recursos.
A solidariedade considera não apenas quanto é possível dar, mas também quanto é preciso dar.
A seguinte conclusão é apresentada pela referida publicação do CLAI: "O atendimento solidário tem na voluntariedade a sua força motriz, na possibilidade o desprendimento e a alegria, no atendimento da necessidade a igualdade estabelecida".
No desenvolvimento de nosso compromisso solidário devemos ser autênticos, sensíveis e sinceros para conosco mesmos, observando sempre os critérios da voluntariedade, da possibilidade e da necessidade.
Observando estes critérios básicos, a solidariedade será sempre viável e possível, e, certamente, atingirá o seu fim maior como veremos no próximo tópico.
3. A SOLIDARIEDADE CRISTÃ PROMOVE O IDEAL PERMANENTE DE IGUALDADE
Nos versículos 13 a 15 é defendido claramente o ideal de igualdade. O assunto focalizado no texto é a questão da pobreza que assolava a Judéia. Entretanto, a igualdade promovida pela solidariedade não está restrita apenas ao problema exposto no texto.
Ela abrange toda a dimensão humana em seus variados aspectos.
Portanto, o compromisso solidário inclui a luta em favor dos segmentos oprimidos da sociedade, tais como os negros, os índios, os sem-terra, as mulheres marginalizadas, os menores carentes e tantos outros excluídos.
Com a afirmação de que a solidariedade cristã promove o ideal permanente de igualdade, defendemos que a ação solidária não pode ser paliativa, isto é, de eficácia apenas momentânea.
Ela visa estabelecer uma condição de vida estável marcada pela dignidade, onde não há lugar para discriminação, prepotência, apatia e opressão. Esta é a idéia semeada pela Campanha coordenada pelo sociólogo Herbert de Souza intitulada: "Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida".
A preocupação não é apenas matar a fome e combater a miséria, mas acima de tudo, promover a dignidade da vida humana, cujo sinal comprobatório é a igualdade.
Conforme o ensino de Jesus em Lucas 22.24-30, o Reino de Deus é lugar de igualdade. Na proposta de Jesus, este ideal é tão desafiante quanto simples: "o maior entre vós seja como o menor"(Lc 22.26).
Naturalmente, a encarnação deste ideal fará com que o maior não seja tão grande e o menor tão pequeno.
Em sua pregação, João Batista desafiava as multidões à prática da solidariedade que promove a igualdade (Lc 3.10-14).
Os primeiros cristãos perceberam logo a viabilidade desta proposta; o ideal de igualdade foi implantado e, como consequência, "nenhum necessitado havia entre eles..."(At 4.32- 35).
Vivendo em uma sociedade que advoga o modo de vida individualista, o consumismo insaciável, a insensibilidade diante dos problemas sociais e a substituição da realidade pela fantasia, o cristão é desafiado a valorizar o ser humano.
É preciso demonstrar solidariedade de forma prática, criteriosa e idealista, pois os clamores têm sido grandes e não há mais o que esperar.
Autor: ENEZIEL PEIXOTO DE ANDRADE
