1 Coríntios 14:15
Em seu livro "Um Projeto de Espiritualidade Integral", o Rev. Caio Fábio recorda que a espiritualidade humana é um dos fatos mais incontestáveis demonstrados na história.
Antropólogos e arqueólogos, à medida que pesquisam e fazem incursões nas culturas humanas - sejam elas as mais primitivas, rudimentares, ou não - se deparam invariavelmente com as marcas do sagrado, com os altares para rituais e os signos de adoração.
Todas estas coisas demonstram o desejo latente na alma do homem, pelo espiritual e sagrado.
A grande questão, todavia, não é mais com a comprovação da espiritualidade humana, mas, sim, em como ela pode ser desenvolvida pelo homem neste terceiro milênio, em plenitude, de maneira integral, harmonizando razão, emoção e sensibilidade.
1 - O LEGADO HISTÓRICO DA ESPIRITUALIDADE
Para pensarmos uma espiritualidade do terceiro milênio, precisamos ter conhecimento, ainda que de forma breve, do legado histórico-espiritual ao qual estamos vinculados.
Três correntes de espiritualidade se destacam entre outras tendências, pela influência histórica na vida do homem moderno, e na compreensão da fé. O Rev. Caio Fábio assim as caracteriza:
a) Intimista-Oriental - Talvez seja a mais antiga forma registrada de espiritualidade na história. Essa corrente que emana do Oriente é caracterizada pela perspectiva inclusivista. Ou seja, é intimista, pois se trata de uma espiritualidade voltada para a interiorização do ser, com auto-domínio, meditações e arrebatamentos solitários, de incursões contemplativas. Nessa espiritualidade, pouco ou mesmo nenhum espaço há para o social.
b) Legalista-Judaica - "Tornou-se uma atitude no sentido de transformar o vínculo com Deus na forma de um comportamento intocável, legalista e intransigente", afirma o referido autor. Esta corrente emana da compreensão judaica-veterotestamentária de espiritualidade.
Não que o Velho Testamento aponte nessa direção legalista e intransigente, mas o judaísmo antigo assim o codificou em termos de uma expressão de espiritualidade. Nesse sentido, o importante é fazer e agir, demonstrando um comportamento padronizado e desprezando por completo a interioridade distinta de cada um.
c) Dicotômica-Grega - Essa corrente tem esse nome, pois, ao contrário do que alguns pensam, ao invés de fundamentar-se no "Panteão" ou mesmo na "Mitologia", essa espiritualidade tem o seu legado originário a partir dos "anti-religiosos": os filósofos gregos.
Homens cuja sensibilidade gerou um raciocínio e uma espiritualidade singular. Suas reflexões, em sua grande parte, divorciavam o material do espiritual, a razão da emoção, o sagrado do profano. Também era abstrata, na medida em que prendia-se demasiadamente a conceitos, e quase nunca os transportava para o plano da realidade da vida.
Essas três correntes históricas, ainda hoje, fomentam grande parte da compreensão a respeito da espiritualidade humana; ora exageradamente legalista - sem qualquer esboço de sensibilidade; ora puramente dicotômica e abstrata - revelando-se extremamente conceituosa e racional; ora tremendamente intimista - arrebatando alucinadamente as emoções sem qualquer vínculo com a mente.
O homem em busca de uma espiritualidade sadia precisa fundir numa mesma fé estas três perspectivas: a razão, a emoção e a sensibilidade.
2 - ESPIRITUALIDADE DA RAZÃO
Deus é um ser inteligente. Fez o homem dotado de capacidade racional, com a possibilidade de reflexão, análise e memória. Essa faculdade, que é exclusiva do homem na criação, não pode ser desprezada na manifestação da fé.
Conforme o Salmo 77 uma pessoa pode exercitar sua fé e reavaliar suas crises espirituais a partir do uso lúcido da razão. Asafe despeja, nesse texto, suas indagações e incompreensões, fruto de uma mente reflexiva das situações da vida. Ele diz:
Salmo 77:7-9
Rejeita o Senhor para sempre? Acaso não tornará a ser propício? Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou as suas promessas? Esqueceu-se Deus de ser benigno?
O que também é admirável no texto, é que uma mente perspicaz em indagar, é também lúcida para relembrar a história, rever conceitos e fatos, e superar obstáculos, ainda que espirituais. Asafe dizia:
Salmo 77:11,14
Recordo os feitos do Senhor e me recordo das tuas maravilhas... tu és o Deus que operas maravilhas.
Já o apóstolo Paulo afirma que o culto vivo, santo e agradável a Deus é racional (Rm 12.1,2). Um outro fator relacionado ao uso das faculdades mentais é a criatividade. A ausência de criatividade nas celebrações da vida e no ensino da fé evidencia um fato: uma fé que não exercita a razão.
O que hoje se expressa em muitos lugares em nome da fé e da vida espiritual é algo ridículo, medíocre e alienante, desprovido de qualquer lucidez. São resquícios da influência grega, dicotômica e abstrata que separa o racional da fé, o material do espiritual, o lugar santo do lugar profano.
Como seres inteligentes e criativos, imagem e semelhança de Deus, expressamos nossa espiritualidade a partir da razão.
3 - ESPIRITUALIDADE COM EMOÇÃO
O Senhor Jesus, quando questionado por alguns religiosos dos seus dias, respondeu sobre o que de fato é servir a Deus:
Marcos 12:30
Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força.
O Senhor, em momento algum, despreza, em detrimento do entendimento, da força e da alma, o que se passa no coração.
O coração é a sede (simbólica) das emoções e sentimentos. E vemos na Palavra uma certa preocupação quanto à emoção sendo expressada de maneira sadia. Conforme Neemias 2.1,2, o rei Artaxerxes percebe a tristeza estampada no rosto do seu copeiro e afirma: "Por que está triste o teu rosto, se não estás doente? Tem de ser tristeza do coração."
Jesus também manifestava seus sentimentos sem qualquer tipo de constrangimento. No pátio do templo, vendo a exploração mercadológica da fé, irou-se e expulsou com um azorrague os cambistas (Mc 11.15-19). Quando chegou a Betânia e viu Lázaro, seu amigo, sepultado, "Jesus chorou" (Jo 11.1-46).
O salmista também celebra sua fé e expressa com sinceridade diante de Deus suas emoções:
Salmo 42:5
Por que estás abatida, ó minha alma? por que te perturbas dentro em mim?
Salmo 122:1
Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor.
O Salmo 126 é um verdadeiro turbilhão de alegria, riso e lágrimas.
De igual forma à razão, Deus criou o ser humano com emoções, dotado da capacidade de sorrir, alegrar-se, chorar, entristecer-se, irar e pacificar. Porém, no decorrer da história, a igreja esterilizou no seu culto a participação do coração, aniquilou na sua espiritualidade tudo que se relacionasse à emoção.
Assim sendo, a invasão das seitas e filosofias orientais no mundo ocidental deve-se, em grande parte, a essa tendência intimista, valorizando a interioridade e resgatando o sentimento. Porém, com trauma do emocionalismo barato, forçado e apelativo, os cristãos reformados caíram noutro extremo igualmente perigoso. O grande desafio no 3° milênio é redescobrir a emoção sem cair no emocionalismo.
4 - ESPIRITUALIDADE AGUÇADA PELA SENSIBILIDADE
Quando pensamos em espiritualidade e sensibilidade, trazemos à mente uma mesma realidade que é comum a ambas - a estreita ligação com a alma. Uma espiritualidade sadia leva o homem a uma percepção e sensibilidade maiores quanto à vida e às necessidades do próximo.
E quando a alma está grandemente tocada pela sensibilidade, o que se desenvolve a partir daí é uma espiritualidade verdadeira, sincera.
Quando lemos Gênesis 4, vemos Caim nutrindo em sua alma um instinto assassino e destruidor para com Abel, seu irmão. Deus lhe fala ao coração; insensível à voz de Deus, ele mata seu irmão, com frieza e indiferença. Deus, então, pergunta a Caim: "Onde está Abel, teu irmão?" Nada poderia expressar mais o ódio e a insensibilidade, do que a resposta de Caim: "Acaso sou eu tutor de meu irmão?"
A respeito disso, o teólogo Leonardo Boff afirma: "O cinismo de uma sociedade insensível e a desesperança em face à indiferença, matam a fé, e a resignação torna o homem mudo diante de Deus".
Contrariamente ao que vemos atualmente, Jesus, em seu ministério, relacionou-se de maneira extremamente sensível com as pessoas: ora evidenciando compaixão para com algum enfermo; ora perdoando pecados de gente injustiçada; ora identificando-se com os excluídos. Jesus era alguém acessível: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei".
De acordo com Atos 23.11, Paulo estava encarcerado e só. Abatido pelas situações e longe de todos, ele começa a esmorecer. Deus, porém, sensível ao seu estado, aparece-lhe ao lado e diz: "Coragem".
Quantas pessoas precisam de alguém que apenas lhes dê uma palavra de encorajamento, de conforto e ânimo! Mas, a igreja tem estado insensível e indiferente. "Manifestar pesar não é, senão, um gesto humano; mitigá-lo com compaixão é um dom divino" (A. Mam).
DISCUSSÃO
1 - Quando é que a emoção na vida da igreja passa a ser prejudicial?
2 - O que a igreja pode fazer para manter o equilíbrio entre razão, emoção e sensibilidade?
Autor: REV. CARLOS DE OLIVEIRA ORLANDI JÚNIOR
Lista de estudos da série
1. A armadilha infalível da fé como um produto – Estudo Bíblico sobre a Comercialização do Evangelho2. O segredo para uma fé que não desmorona – Estudo Bíblico sobre a Reflexão na Palavra
3. O que realmente significa ter vida espiritual? – Estudo Bíblico sobre as Bases da Espiritualidade
4. O guia definitivo para uma fé equilibrada – Estudo Bíblico sobre Razão e Emoção
5. Meditação cristã sem os mitos orientais – Estudo Bíblico sobre o Poder do Silêncio
6. As 3 práticas esquecidas que revolucionam sua fé – Estudo Bíblico sobre Devoção Cristã
7. Você sabe por que a alegria cristã é inabalável? – Estudo Bíblico sobre a Verdadeira Alegria
8. Seu corpo não é inimigo da sua espiritualidade – Estudo Bíblico sobre o Corpo na Fé Cristã
9. A incrível verdade sobre a arte que Deus aprova – Estudo Bíblico sobre Arte e Adoração
10. O alerta urgente de Deus sobre a natureza – Estudo Bíblico sobre Fé e Ecologia
11. Cuidado com o que você usa para representar sua fé – Estudo Bíblico sobre Símbolos Sagrados
12. A prova de fogo que revela a fé verdadeira – Estudo Bíblico sobre Integridade Espiritual
13. Sua espiritualidade transforma ou aprisiona? – Estudo Bíblico sobre uma Fé Integral
