Uma das mais antigas e mais presentes manifestações culturais da raça humana é a arte. A música (instrumental e/ou vocal), a dança, o teatro, a escultura, a pintura, o artesanato, a literatura (poesia e prosa), e, mais recentemente, o cinema, são alguns exemplos de arte.
A arte está, de um modo ou de outro, presente em praticamente todos os momentos da vida humana. Aliás, uma das diferenças básicas entre o ser humano e os animais, é que estes não produzem arte.
É claro que não há acordo entre as pessoas sobre o que é considerado artisticamente belo e o que não é. Esta é uma questão bastante complicada, que não será trabalhada no presente estudo.
Antes, o que aqui se pretende é apresentar o esboço de uma teologia bíblica da arte, para entender como ela pode vir a ser um auxílio na prática da espiritualidade.
Pois como cristãos, entendemos que Deus é o maior artista do universo. Textos como o Salmo 104, apresentam a criação e sustentação do universo como manifestação da arte divina. Efésios 2.10 diz que os salvos pela graça são "feitura" de Deus. A palavra que é traduzida por "feitura" significa, literalmente, "poema".
É muito interessante que o apóstolo Paulo utilize uma palavra ligada às artes para referir-se à salvação. Biblicamente falando, criação e salvação são obras de arte de Deus.
Sendo a arte tão importante aos olhos de Deus, Seus filhos e Suas filhas não podem deixar de estudar este tema. Não apenas estudar o tema, mas colocá-lo em prática, para a glória de Deus.
1 - A ARTE É DOM DE DEUS
Tiago 1:17
Toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.
Com certeza, o texto de Tiago refere-se, também, à arte.
A Bíblia fala sobre diferentes tipos de arte, como dança (Êx 15.20; Lc 15.25), escultura (Êx 25.10-40), artesanato qualificado (Êx 31.1-11), poesia (os Salmos), conto (Jz 9.7-21; as parábolas de Jesus), e outros mais.
Comentando sobre a arte nas Escrituras, o Dr. Calvin Seerveld (professor no Instituto de Estudos Cristãos em Toronto, Canadá), diz que os artistas da Bíblia"... cantavam com júbilo ao Senhor e louvavam o nome de Deus com a obra artística das suas mãos, sem medo de violar o mandamento proclamado no Sinai que proibia a manufatura de imagens tolas que pudessem levar o povo à idolatria".
Isto porque "Deus quis que a vocação artística fosse exercida como um aproveitamento obediente e edificante de matérias, sons, formas, paisagens, palavras, gestos e outras coisas semelhantes que Ele colocou sob os cuidados dos homens e das mulheres".
É importante nesta reflexão a respeito da arte em perspectiva cristã, a apresentação deste pressuposto: Deus é a fonte da inspiração artística, que deve ser utilizada para a glória dele.
João Calvino entendia que a beleza da natureza é um espelho da glória de Deus. O reformador era de opinião que a arte é um presente de Deus à humanidade, com o objetivo de ajudar a reconhecer que o que é belo é um tipo de revelação geral de Deus.
Na mesma linha da tradição teológica reformada, merece destaque o teólogo e estadista holandês Abraham Kuyper que, em 1898, disse que a arte tem a tarefa mística de trazer à mente dos que crêem em Cristo uma idéia sobre a beleza perdida (no Éden) e o brilho perfeito que há de vir (no novo céu e nova terra).
Algumas vezes, acontece de algum artista se converter a Jesus, tornar-se membro de uma igreja, e abandonar sua prática artística. A conversão deve incluir, também, a arte. Um(a) artista que se converte deve utilizar sua arte no serviço de Cristo. É importante resgatar a prática da arte, dom de Deus, para a glória de Deus.
2 - A ARTE DEVE SER INTERPRETADA À LUZ DA REVELAÇÃO BÍBLICA
Como os cristãos devem se relacionar com a arte? Como devem Interpretar as manifestações artísticas com as quais têm contato? A tais perguntas não é fácil de responder.
O que os cristãos não podem fazer é partir para os extremos - considerar toda manifestação artística como demoníaca, ou, pelo contrário, como sagrada.
A verdade não está em nenhum dos extremos. É particularmente preocupante a demonização da cultura que alguns evangélicos fazem, quando ensinam que toda e qualquer arte é demoníaca. Quem faz assim, dá ao diabo mais importância do que ele merece.
A graça de Deus, que é muito mais poderosa que toda a força do diabo, pode redimir a arte para o serviço do Senhor.
Os líderes da Reforma Protestante do século XVI ensinavam que se podem classificar os elementos da cultura, em geral, em três categorias:
- o que é bom
- o que é mau
- o que é neutro
Aplicando esse princípio protestante às artes, pode-se dizer que há manifestações artísticas que são santas, como hinos de louvor ao Senhor. Outras são malignas, como as músicas cantadas em rituais de candomblé.
E há um sem número de manifestações artísticas que são neutras. Alguns evangélicos fazem uma verdadeira demonização da cultura popular (o que inclui a arte), e ensinam que toda arte é diabólica. Isso não é verdade.
Há expressões de arte, tanto a considerada erudita, como também a considerada popular, que podem ser usadas pelos cristãos, sem que estes tenham medo de estar pecando.
A revelação bíblica apresenta princípios úteis para a interpretação das formas e conteúdos artísticos. Quanto a isso, podem-se apresentar dois princípios, que ajudam na tarefa da interpretação da arte:
A arte concorda com o ensino bíblico? - A Palavra de Deus é a verdade (Jo 17.17). Se qualquer expressão de arte comunica o que é verdadeiro e justo, então, concorda com o ensino bíblico.
O povo de Deus na antiga aliança conhecia este princípio. Quando Salomão foi construir o templo em Jerusalém, contou com a ajuda do rei Hirão de Tiro, e seus servos.
Eles não eram Israelitas, mas eram artífices peritos (I Rs 5.1-12). Daí aprende-se um princípio salutar de interpretação da arte, útil para o povo de Deus em qualquer situação da história.
A arte inspira o louvor ao Senhor? - Artista é a pessoa que tem sensibilidade o bastante para descobrir nos elementos mais simples da existência, matéria-prima para construir algo belo. A arte que produz inspiração para louvar o Criador e Sustentador do universo, é boa. Se a arte não se enquadra nestes parâmetros, deve ser repudiada.
3 - A ARTE DEVE SER INSTRUMENTO DE AUXÍLIO PARA A PRÁTICA DA ESPIRITUALIDADE
Finalmente, é bom pensar em como a arte pode tornar-se auxílio para quem quer aprofundar-se na vida de espiritualidade.
A arte, como já foi visto, ocupa grande espaço na Bíblia. O ponto de vista bíblico, em geral, sobre a arte é positivo. Tão positivo que as manifestações artísticas continuarão a existir no novo céu e na nova terra (II Pe 3.13).
Comentando Apocalipse 15.2,3, Francis Schaeffer diz que "a arte não pára na porta do céu. Formas artísticas são levadas direto para dentro do céu".
Por isso, é preciso aprender a realizar, por exemplo, liturgias mais bem trabalhadas, elaboradas com mais arte.
Expressões artísticas como poesia, teatro, coreografia, ornamentação do local de culto, fotografia, recursos de vídeo, e mesmo a música, devem ser tratadas com criatividade e bom gosto, para inspirar melhor os fiéis à adoração.
Naturalmente, deve-se ter coragem para ousar, equilibrada com bom senso para não ferir a sensibilidade dos que são mais resistentes a tudo que é novo e, portanto, diferente.
A arte estará presente na glória, após a segunda vinda do Senhor Jesus. Então, não pode estar fora de nossas vidas, nos-sos cultos e da nossa prática da espiritualidade hoje.
DISCUSSÃO
1. Além das poucas expressões artísticas que a Igreja já utiliza, que outras podem ser utilizadas para o enriquecimento da liturgia e o fortalecimento da espiritualidade cristã?
2. A igreja tem sabido aproveitar as habilidades artísticas de seus membros? Cite exemplos.
Autor: REV. CARLOS RIBEIRO CALDAS FILHO
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