Mateus 6:2-18
Afirma o Rev. Caio Fábio, em um artigo, que somos a "Geração que desaprendeu a orar", e cuja piedade está grandemente comprometida pela ausência de práticas de devoção que fortalecem a fé.
Talvez não sejamos apenas uma geração que desaprendeu a orar, mas que não sabe, também, jejuar, e não exercita a misericórdia. Somos, talvez, uma geração desprovida de devoção, prática essencial e vital para a vida no Reino.
O Senhor Jesus, em Mateus 5-7, leva seus discípulos a um monte e passa a orientá-los quanto à cidadania do Reino dos Céus. Inicialmente, ensina sobre o caráter cristão (Mt 5.1-12); depois, sobre a vocação do cristão (Mt 5.13-16); depois, sobre a justiça do cristão (Mt 5.17 - 6.1); e, quando chegamos a Mateus 6.2-18, Jesus ensina sobre a devoção do cristão, o conjunto de práticas que fortalecerão, alimentarão e sustentarão uma espiritualidade verdadeira.
Jesus trata de três questões somente: misericórdia (no gesto de dar esmola), oração e jejum. A igreja precisa redescobrir sua espiritualidade e resgatar, a partir destas três realidades, a devoção cristã.
1 - MISERICÓRDIA: UMA ESPIRITUALIDADE INTEGRADA COM O PRÓXIMO
O Dr. John Stott, em seu livro "Contracultura Cristã" (ABU Editora), afirma a respeito da esmola que "a questão não é tanto sobre o que a mão está fazendo (passando algum dinheiro ou cheque), mas o que o coração está pensando enquanto a mão age.
Há três possibilidades:
- Ou estamos querendo o louvor dos homens;
- Ou preservamos o nosso anonimato, mas silenciosamente nos congratulamos pelo que fizemos;
- Ou apenas estamos desejosos da aprovação do nosso Pai Celestial, imitando seus feitos para conosco.
A palavra grega "esmola", no versículo 2, significa um ato de misericórdia. Considerando que Deus é misericordioso ("benigno até para com os ingratos e maus"), o Seu povo deve, também, ser bom e misericordioso.
Jesus esperava que seus seguidores fossem generosos. Mas, Jesus não está preocupado com a generosidade apenas, e sim com as motivações, com os pensamentos escondidos no coração.
A devoção sincera e eficaz do exercício de misericórdia é realizada com o intuito da aprovação de Deus. Os fariseus esmolavam para aparecer diante do povo; os fariseus atuais, para aplacar a consciência, também.
Oséias 6:6
Misericórdia quero e não sacrifício.
Para muita gente, espiritualidade nada tem a ver com o próximo. Mas, a parábola do Bom Samaritano desmistifica isso, ao mostrar que o zelo religioso destituído de misericórdia não tem valor (Lc 10.25-37).
Jesus pergunta: "Qual desses homens foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da lei: O que usou de misericórdia".
Ensinando sobre a verdadeira religião e o serviço a Deus, Jesus diz ainda: "Amarás o Senhor teu Deus... e ao teu próximo como a ti mesmo".
Aquele que fecha os olhos para seu próximo e ignora seu semelhante, jamais desenvolverá uma espiritualidade sadia; pois a espiritualidade autêntica só é possível com gestos de misericórdia, que integram o próximo com a nossa fé.
2 - ORAÇÃO: UMA ESPIRITUALIDADE DEPENDENTE DE DEUS
Quando Jesus discorre sobre a devoção do cristão, Ele destaca o valor da oração. Não apenas no gesto de orar, mas na motivação que leva o homem a se prostrar perante Deus.
O Dr. John Stott destaca: "O que Ele diz sobre os hipócritas parece ótimo à primeira vista: 'gostam de orar'.
Mas, infelizmente, não é da oração que eles gostam, nem do Deus a quem supostamente estão orando. Nada disso; eles gostam de si mesmos e da oportunidade que a oração pública lhes dá de se exibirem perante os outros".
Para Jesus, por detrás da piedade de muita gente espreita-se o orgulho, o desejo de se projetarem e a ambição pelo aplauso. Infelizmente, o farisaísmo religioso não está morto na atualidade.
Para Jesus, a oração era a oportunidade de se estreitar a comunhão interna com Deus, e de se manifestar diretamente a dependência do Senhor.
O teólogo Leonardo Boff afirma: "A oração não é o primeiro ato que um homem faz. Antes da oração, há um choque existencial. Só então eclode a oração como experiência resultante da consciência da fraqueza e da necessidade de dependência do Pai".
Jesus, então, ensina aos seus discípulos a orar. Vemos na oração do "Pai Nosso" (que erradamente é chamada por muitos de oração dominical e que, na verdade, é a oração de todo dia):
- Os três primeiros pedidos demonstram uma preocupação com as coisas que são de Deus: o Nome, o Seu governo e a Sua vontade;
- Na segunda parte, o adjetivo passa de seu para nosso; é quando passamos das coisas de Deus, para preocuparmos com as que nos são próprias: o pão (necessidades materiais), perdão de pecados (necessidades espirituais), tentação e mal (necessidades morais).
A oração cristã, então, revela-se teocêntrica, inteligente e integral. Manifesta uma espiritualidade dependente de Deus.
3 - JEJUM: UMA ESPIRITUALIDADE QUE DISCIPLINA O EGO
Os fariseus jejuavam "duas vezes por semana": às segundas e quintas-feiras. João Batista e seus discípulos também jejuavam regularmente, mas os discípulos de Jesus não jejuavam (Mt 9.14; Lc 5.33).
Por que, então, nesses versículos do Sermão do Monte, Jesus não só esperava que seus seguidores jejuassem, mas, também, deu instruções sobre como fazê-lo? Inclusive Jesus, enquanto jejuava e orava no deserto, foi tentado pelo diabo (Mt 4.1,2). Eis aqui uma passagem ignorada por muitos.
O Dr. John Stott, sobre isso afirma: "Suspeito que alguns de nós vivemos nossa vida cristã como se esses versículos tivessem sido arrancados das Bíblias. A maioria dos cristãos destaca a necessidade da oração diária e da contribuição sacrificial, mas poucos insistem no jejum".
O Cristianismo evangélico, em particular, cuja ênfase característica está na religião interior, do coração e do espírito, tem dificuldade em render-se a uma prática física exterior, como o jejum.
No Sermão do Monte, Jesus nos disse como jejuar, pressupondo que o faríamos. Porém, a prática farisaica do jejum foi condenada pelo Senhor. Alguns jejuam para auto-promoção ou evidência de espiritualidade. A finalidade do jejum não é essa.
O propósito do jejum não é fazer propaganda de nós mesmos, mas disciplinar-nos, expressando a nossa humildade diante de Deus e a nossa preocupação com os outros que estão passando necessidade (Is 58).
Por arrependimento ou por oração, por auto-disciplina ou por amor solidário, temos boas razões bíblicas para o jejum.
Se o exercício de misericórdia destaca uma espiritualidade integrada com o próximo, a oração uma espiritualidade inteligente e dependente de Deus, o jejum revela-nos a necessidade de se cultivar uma espiritualidade de quebrantamento e auto-disciplina. Essas três práticas de devoção resgatam o valor da espiritualidade na vida do cristão.
DISCUSSÃO
1. Se a oração, o jejum e a misericórdia são enfatizados por Jesus, por que a igreja não busca um equilíbrio na prática de sua espiritualidade?
2. Quais devem ser as motivações corretas para o cristão desenvolver a prática do jejum, da oração e da misericórdia?
Autor: REV. CARLOS DE OLIVEIRA ORLANDI JÚNIOR
Lista de estudos da série
1. A armadilha infalível da fé como um produto – Estudo Bíblico sobre a Comercialização do Evangelho2. O segredo para uma fé que não desmorona – Estudo Bíblico sobre a Reflexão na Palavra
3. O que realmente significa ter vida espiritual? – Estudo Bíblico sobre as Bases da Espiritualidade
4. O guia definitivo para uma fé equilibrada – Estudo Bíblico sobre Razão e Emoção
5. Meditação cristã sem os mitos orientais – Estudo Bíblico sobre o Poder do Silêncio
6. As 3 práticas esquecidas que revolucionam sua fé – Estudo Bíblico sobre Devoção Cristã
7. Você sabe por que a alegria cristã é inabalável? – Estudo Bíblico sobre a Verdadeira Alegria
8. Seu corpo não é inimigo da sua espiritualidade – Estudo Bíblico sobre o Corpo na Fé Cristã
9. A incrível verdade sobre a arte que Deus aprova – Estudo Bíblico sobre Arte e Adoração
10. O alerta urgente de Deus sobre a natureza – Estudo Bíblico sobre Fé e Ecologia
11. Cuidado com o que você usa para representar sua fé – Estudo Bíblico sobre Símbolos Sagrados
12. A prova de fogo que revela a fé verdadeira – Estudo Bíblico sobre Integridade Espiritual
13. Sua espiritualidade transforma ou aprisiona? – Estudo Bíblico sobre uma Fé Integral
