A justiça divina que parece injusta aos homens - Estudo Bíblico sobre a Parábola dos Trabalhadores na Vinha


Mateus 20.1-16

Introdução

É verdade que, muitas vezes, cristãos recém-convertidos demonstram um zelo e dedicação muito maiores do que o observado em crentes antigos, principalmente os que foram educados desde a infância na igreja.

O novo na fé está encantado com o que descobriu, maravilhado com tudo o que aprende, grato pelo que recebeu e alegre pelos novos relacionamentos. O convívio com os crentes o deixa muito contente e ele não perde por nada as reuniões da igreja.

Mas também é verdade que, às vezes, o crente mais antigo se ressente da presença e do espaço ocupado pelo novato, como que reivindicando direitos adquiridos com a sua antiguidade e supondo ter por isso mais méritos.

A parábola dos trabalhadores na vinha traz o ensino de Cristo acerca da graça de Deus, que é dispensada por sua livre vontade, sem observar qualquer suposto ou alegado mérito humano.

1 - ENTENDENDO A PARÁBOLA

Jesus evoca uma situação comum do cotidiano, para trazer mais um ensino acerca do reino de Deus. Mas para entender a parábola é necessário voltar para seu contexto imediato.

Pouco antes de contar a parábola, Jesus foi surpreendido por um jovem com a seguinte pergunta: "que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?" (Mt 19.16). 

Durante o diálogo, o jovem tentou justificar sua salvação no fato de ser conhecedor e observador dos mandamentos (Mt 19.17-20).

Porém, Jesus que conhecia o coração daquele jovem, sabia que era rico e que nutria um amor por suas riquezas. Daí, o que lhe faltava era abrir mão desse amor idólatra e voltar-se totalmente para Deus (Mt 19.21-22 cf. 1Tm 6.10; Cl 3.5).

Depois que o jovem rico saiu de sua presença, Jesus ensinou algo a seus discípulos, dizendo: "Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. 

E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus" (Mt 19.23,24).

Essa dificuldade deve-se ao apego que o homem natural tem às riquezas. Então surge a pergunta: "Sendo assim, quem pode ser salvo?" (Mt 19.25). 

Diante dela, Jesus esclarece verdades sobre a salvação, apontado para a graça de Deus (Mt 19.26). O ápice desse esclarecimento encontra-se na parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16).

Os detalhes da parábola

Nessa parábola, alguns detalhes precisam ser pontuados. Primeiramente, Jesus assemelha o reino a uma situação comum, um homem, dono de uma vinha, que vai à praça da cidade procurar diaristas para o trabalho na colheita (v. 1). 

Com isso, Jesus focaliza a atitude desse homem como sendo o centro da parábola. Todos os acontecimentos irão girar em torno dele.

O segundo detalhe a ser pontuado diz respeito aos homens na praça. Ao contrário do que possa parecer os homens que estavam na praça não eram pessoas desocupadas ou vagabundas. Eram trabalhadores diaristas à espera de uma oportunidade para trabalhar na colheita de uvas, que acontecia lá pelo mês de setembro. 

Como nessa época do ano, na Palestina, o amanhecer se dá por volta das seis da manhã, provavelmente, muitos já estavam ali muito antes mesmo do sol nascer.

Outro detalhe diz respeito às vezes que o fazendeiro foi à cidade e contratou trabalhadores. Isso acontece cinco vezes no texto (Mt 20.1,3,5,6). 

Na última vez, há uma preocupação do fazendeiro com os trabalhadores que ficaram desocupados durante o dia inteiro (v.6). Ele sabia que, se não trabalhassem, não teriam com o que se sustentar. Por isso, manda aqueles homens para sua vinha.

Por fim, o último detalhe é o mais impressionante. O fazendeiro manda seu administrador efetuar o pagamento começando pelos últimos, indo até os primeiros (v.8). Os que começaram a trabalhar por último receberam o mesmo valor recebido por aqueles que suportaram "a fadiga e o calor do dia" (v. 12).

A resposta do fazendeiro aos que murmuravam, por causa do pagamento, é a conclusão da parábola (vs.13-15). 

Em seu argumento, há dois princípios importantes para a parábola: justiça (v. 13) e soberania (v. 15). A justiça se cumpriu quando cada um recebeu aquilo que havia sido combinado. Ninguém recebeu nem mais nem menos.

Portanto, os que reclamaram não tinham esse direito. Por outro lado, o fazendeiro era soberano sobre aquilo que lhe pertencia. Ele livremente agiu sobre o que era seu e pagou o que quis aos trabalhadores, que chegaram por último à vinha.

Essa parábola deve ser entendida da seguinte maneira: No reino, a recompensa de todos é a graça de Deus. 

O que é impossível para o homem quanto à salvação, só se torna possível pela ação de Deus em buscar o homem para si. Ninguém é merecedor de nada mais do que a salvação garante.

Tanto os que foram chamados nos dias de Jesus, ou nos dias de Lutero ou nos dias que nos procederão, receberão a mesma recompensa. 

Pois o entrar no reino depende de Deus e não da capacidade humana. Essa compreensão da parábola deve fazer com que os cristãos reflitam sobre duas verdades:

2 - NO REINO DE DEUS SOMOS SERVOS

Entre os discípulos de Jesus havia certa inveja. Tudo era motivo para uma discussão e competição entre eles. Algumas dessas situações se tornaram emblemáticas. Vejamos um exemplo.

Em Mateus 18.1-5, eles discutiam quem seria o maior no reino. O texto não nos diz quem foi o pivô da discussão. Vale ressaltar que esse texto está no contexto da transfiguração.

Possivelmente, a grandeza da visão tenha deixado Pedro, Tiago e João envaidecidos (Mt 17.1). Em meio à celeuma, os discípulos perguntaram a Jesus quem seria o maior no reino.

A resposta do Senhor foi: "Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus" (Mt 18.2-4).

Segundo Hendriksen, o sentido das palavras de Jesus foi o seguinte: "Vocês estiveram discutindo sobre quem seria o maior no reino dos céus, como se estivessem convictos de já se acharem nele e de já se acharem destinados à sua futura manifestação e glória. Se vocês, porém, permanecem em seu presente estado de mente e coração, em que cada um de vocês se sente ansioso para ser maior que seus companheiros e de dominar sobre eles, serão excluídos, então com toda certeza nem mesmo entrarão nele".

Essa discussão não tem sentido no reino de Deus, por um motivo: ninguém está no reino por seu próprio poder ou força, mas pela graça de Deus. A situação de todos nós antes de Cristo era a mesma, independente de termos cometido ou não este ou aquele pecado. 

Pecado é pecado, e o salário do pecado é sempre o mesmo, a morte. Mas, o dom gratuito de Deus também é o mesmo para todos, a vida eterna em Cristo (Rm 6.23).

Paulo disse, de maneira acertada, que todos nós estávamos mortos em nossos delitos e pecados, atendendo as inclinações da nossa própria carne (Ef 2.1-3). 

Estávamos, portanto, em pé de igualdade em nossa vida de pecado. Porém, a graça foi derramada igualmente sobre os eleitos de Deus.

Como o fazendeiro chama trabalhadores para a vinha, em vários momentos diferentes e dá a cada um o mesmo salário, assim é o Senhor, que agracia seus servos com a mesma graça salvadora, na mesma quantidade e efeito.

No reino todos são servos. Todos têm deveres iguais quanto à salvação, ainda que os galardões sejam diferentes e segundo as obras em nome de Cristo (Mt 10.41,42; Mc 9.41; Lc 6.35; 1Co 3.8; Hb 10.35; Ap 22.12).

A salvação é igual para todos os eleitos. Sendo assim, ninguém tem o direito de exigir de Deus algo mais. Ou ainda, se colocar acima de seus irmãos com o propósito de dominá-los, segundo seus pensamentos e ideais. Atitudes como essas são inaceitáveis no reino de Deus.

3 - SER CHAMADO PARA O REINO E ESTAR NO REINO

A palavra final de Jesus na parábola é algo inquietante:"... os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos" (Mt 20.16).

A atitude apresentada por alguns trabalhadores era imprópria. Eles eram incapazes de compreender que o fazendeiro havia sido tão gracioso com eles quanto foi com os que trabalharam apenas uma hora.

Todos poderiam ter voltado para casa sem dinheiro para suas despesas. O questionamento desses trabalhadores foi uma tentativa de obscurecer a bondade do fazendeiro. Porém, deixou transparecer um caráter egoísta, invejoso e mesquinho. 

Por isso, o fazendeiro considerou que tais pessoas não podiam trabalhar para ele. Sendo assim, ele disse aos que murmuravam: "toma o que é teu e vai-te" (v.14).

Para Simon Kistemaker, a intenção de Jesus com a expressão "os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos" é mostrar que no reino de Deus a igualdade é regra para todos. 

Logo, os que não aceitam essa condição estão em desacordo com um princípio básico do reino. Daí, a fala final: "porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos".

Uma realidade esquecida por muitos cristãos é que nem todos os que são chamados para o reino, são escolhidos para estar nele. 

É possível que pessoas compartilhem em parte de determinados dons celestiais, provem a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro (Hb 6.3,4), sem, contudo pertencerem de fato ao reino. O exemplo clássico foi Judas Iscariotes. Ele estava entre os doze discípulos (Mt 10.1-4).

Recebeu as instruções para o ministério (Mt 10.5-42). Ele estava entre os setenta que voltaram felizes de sua missão, ao ver o poder de Satanás sendo subjugado pelo poder de Deus (Lc 10.13-16). Mas era ladrão (Jo 12.6), filho da perdição (Jo 17.12) e traiu seu amigo e senhor (Mt 10.4; Mt 26.14-16,50).

O chamado externo do evangelho é legítimo e destinado a todos. Por isso, o evangelho deve ser oferecido a todos indistintamente (Mt 24.14; Mc 16.15; Ez 18.23; 1 Tm 2.4). Ainda que o chamado externo da parte de Deus seja sincero para todas as pessoas, é eficaz somente nos eleitos.

Anthony Hoekema define o chamado externo como "a oferta da salvação em Cristo a pessoas, junto com um convite para aceitar a Cristo em arrependimento e fé, para que recebam o perdão dos pecados e tenham a vida eterna".

Não nos compete distinguir quem é quem. Tal separação será feita no último dia (Mt 13.49,50).

Cabe à igreja, como agência do reino, anunciar o evangelho, receber e batizar os convertidos, ensinando-os no caminho do Senhor e disciplinar os faltosos, num exercício fiel da autoridade das chaves (Mt 28.19; Mc 16.15; Mt 18.15-20; Mt 16.19).

A não ser que a pessoa demonstre ser impenitente e contumaz em pecar, todos que vêm à igreja devem ser considerados parte do reino e tratados como tal. Cabe ao Senhor conhecer e separar os seus.

Isto deve alertar-nos para a necessidade de uma autoavaliação, quanto ao verdadeiro interesse de estarmos ligados ao reino. Esperar retribuição diferenciada ou desejo de sobrepor-se aos demais é uma evidência de que a graça de Deus não faz sentido na vida da pessoa.

CONCLUSÃO

Diante dessas verdades, somos chamados a uma atitude sincera de arrependimento para com Deus e para com o próximo.

Jesus afirmou que: "Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar" (Mt 18.6).

Não podemos impedir as pessoas que se acheguem para o trabalho na vinha do Senhor. Aquilo que eu penso não deve prevalecer sobre meu irmão, mas, sim, o que a Bíblia diz. Meu irmão é meu co-servo e não um escravo.

Quando compreendermos essas vaidades e nos tornarmos facilitadores no reino dos céus, e não obstáculos para os sedentos, veremos uma revolução espiritual acontecendo em nossos dias. O avivamento tão desejado pela igreja do Senhor, se tornará realidade.

Aplicação

  • Consciente da graça de Deus em sua vida, como você pode colocá-la em prática no relacionamento com seu irmão em Cristo?
  • Você se considera merecedor da graça de Deus? Por quê?

Autor: REV. GLADSTON PEREIRA DA CUNHA


Lista de estudos da série

1. Como Deus resgata você do abismo – Estudo Bíblico sobre a Ovelha Perdida
2. O perigo mortal de não perdoar o próximo – Estudo Bíblico sobre o Credor Incompassivo
3. O amor escandaloso que você não merece – Estudo Bíblico sobre o Filho Pródigo
4. Como o começo pequeno vira um sucesso gigante – Estudo Bíblico sobre o Grão de Mostarda
5. O que vale mais do que toda a sua fortuna – Estudo Bíblico sobre o Tesouro Perdido
6. Por que quem muito deve muito ama – Estudo Bíblico sobre os Dois Devedores
7. Por que sua fé não está dando frutos? – Estudo Bíblico sobre o Semeador
8. O que Deus vai cobrar de você no final – Estudo Bíblico sobre os Talentos
9. A justiça divina que parece injusta aos homens – Estudo Bíblico sobre os Trabalhadores na Vinha
10. Como influenciar o mundo sem ser contaminado – Estudo Bíblico sobre o Sal da Terra
11. Quando a paciência de Deus chega ao limite – Estudo Bíblico sobre a Figueira Estéril
12. O convite urgente que ninguém pode recusar – Estudo Bíblico sobre a Grande Ceia
13. Como não ser pego de surpresa na volta de Cristo – Estudo Bíblico sobre o Servo Vigilante

Semeando Vida

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