Mateus 5.13
Introdução
Estamos presenciando um novo período da história da humanidade. Os especialistas denominam este período de pós-modernidade.
Isso porque este novo período tem rompido os padrões que eram considerados inalienáveis, tanto para a igreja quanto para a sociedade.
Viver na pós-modernidade requer dos cristãos uma reflexão séria acerca de seus conceitos e valores.
Essa reflexão deverá levar-nos a solidificar nosso entendimento acerca da Palavra, assim como fornecer a base necessária para o cumprimento da vontade de Deus.
Um dos pontos mais significativos dessa reflexão é: Como ser relevante num mundo em transformação?
Como pregar o evangelho sem desvalorizá-lo? Encontramos a resposta para essas questões no sermão do Monte, quando Jesus afirmou: "vós sois o sal da terra" (Mt 5.13).
1 - ENTENDENDO A PARÁBOLA
Quando Jesus comparou os discípulos com o sal, ele o fez no contexto do sermão do monte. O sermão do monte é a descrição do estilo de vida que os cidadãos do reino de Deus deveriam adotar para si (Mt 5.1-7.29).
Ao afirmar que os discípulos são o sal da terra, o objetivo de Cristo era descrever como deveria ser o relacionamento deles com o mundo. Sendo assim, Jesus aponta para um relacionamento em que o cristão tem que influenciar o mundo e não ser influenciado.
Para entender o emprego da figura do sal é preciso entender quais são as suas aplicações. Em nossos dias, o sal é um tempero usado em praticamente todas as casas.
É um produto barato que encontramos em qualquer mercearia ou supermercado. Mas nos dias de Jesus, o sal era algo muito precioso devido à dificuldade de extração.
Na Judéia, sua extração dava-se pela evaporação das águas do Mar Morto. Soldados romanos recebiam sal como parte de seus soldos, daí a palavra salário.
O sal também era usado como um meio de preservação de determinados alimentos, como a carne. Portanto, o bom sal deveria impedir a deterioração dos alimentos.
Jesus compara o cidadão do reino com o sal, tendo em mente essa utilidade. Simon Kistemaker afirma que "assim como o sal tem a característica de impedir a deterioração, assim também os cristãos devem exercer uma influência moral na sociedade em que vivem. Por suas palavras e atos devem restringir a corrupção espiritual e moral".
Jesus foi contundente ao questionar acerca de como lhe restaurar o sabor do sal insípido (v.13). Isso é algo impossível, não há como fazê-lo. Com isso, Jesus aponta para a possibilidade do sal perder o seu poder, tornando-se inútil em suas aplicações (Mt 5.13).
O sal perder o seu sabor e suas propriedades é impensável para nós. Mas, o sal retirado das imediações do Mar Morto era muitas vezes contaminado por outros compostos químicos, que se formavam da evaporação da água.
Essa contaminação fazia o sal perder o seu sabor e, principalmente, a propriedade de preservação. Além de perder a propriedade de preservação, o sal adquiria uma propriedade destrutiva, a ponto de transformar um solo produtivo em uma terra estéril e sem vida.
Atento para essa possibilidade, Jesus adverte seus discípulos. No relacionamento com o mundo, eles têm o dever de influenciar sem serem influenciados.
Eles têm de transformar e não serem transformados. A partir desse entendimento do cerne da parábola, é preciso analisar como ela se aplica à evangelização.
2 - EVANGELIZANDO PELA INFLUÊNCIA
Temos muitas vezes dissociado a prática da evangelização da vida diária. É muito comum nos envolvermos em programas específicos de evangelização e dizermos: "Hoje nós vamos sair para evangelizar", como se evangelizar fosse apenas distribuir folhetos ou realizar um culto ao ar livre, ou seja, atividades isoladas.
Evangelizar é algo que está profundamente associado ao modelo de vida que Cristo deixou para a sua igreja, sendo parte integrante do chamado cristão (Mt 28.19; Mc 16.15; Jo 15.16).
Toda tentativa de dissociação da vida diária da prática da evangelização constitui-se numa afronta à vontade de Deus. O cristão deve evangelizar por meio de sua influência positiva em seu lar, trabalho, clube social, etc.
Onde quer que haja um cristão deve existir ali uma anunciação constante do evangelho redentor de Cristo. Isso não quer dizer que soemos bitolados ou alienados. Com certeza, isso agravaria o estigma que pesa sobre nós, o de sermos enjoados, chatos e fanáticos.
É preciso resgatar aquela maneira de viver dos cristãos da igreja de Atos que gerava admiração, simpatia e crescimento numérico da comunidade (At 2.47).
Nossas atitudes contra o pecado, a injustiça e o erro são portas para falarmos de Cristo e do seu evangelho. Afinal, a mensagem do evangelho é uma mensagem de salvação que aponta também para uma mudança de vida e de pensamentos.
A mensagem do evangelho possui respostas para o problema do pecado, mas também possui respostas às questões relacionadas à moral, à ética, à política, à economia, etc. (Ef 4.20 - 5.2).
Ao apresentarmos os conceitos cristãos, estamos apresentando o evangelho e desmistificando o que o mundo está acostumado a encarar como evangelho. Agindo assim, estaremos influenciando o meio em que vivemos e fazendo Cristo conhecido de todos.
3 - A IGREJA SECULARIZADA
Como cristãos, devemos estar atentos para o perigo da secularização, que ocorre quando a igreja assume valores e padrões mundanos. O apóstolo Paulo é enfático com a igreja de Roma sobre esse perigo, quando afirma: "... não vos conformeis com este século" (Rm 12.2).
João Calvino, comentando esse texto, afirma que Paulo está proibindo os cristãos de se conformarem ao mundo, de assumir e imitar o caráter e a conduta daqueles que não abraçavam o evangelho de Cristo.
Podemos aplicar a ideia de contaminação do sal à ideia de conformação do cristão ao mundo. Isso parece absurdo para alguns cristãos. "Um cristão não pode ser influenciado pelo mundo," alguém poderá dizer.
Infelizmente, temos de ser sinceros ao admitir que a secularização tem fustigado a igreja ao longo dos séculos.
A igreja muitas vezes deixou de influenciar para ser influenciada. Alegadamente em nome de Deus, produziram-se verdadeiros massacres, além de muita miséria e desgraça.
Em vez de conter a degradação da sociedade, em fases tenebrosas de sua história, a igreja disseminou o erro e a corrupção. Graças a Deus, sempre houve o remanescente fiel que guardou a fé em Cristo e no evangelho.
Mesmo apesar dos erros da igreja, esse remanescente tinha seus olhos voltados para o autor e consumador da fé.
A Reforma do século 16 foi a ação do sal, por meio do princípio da preservação. Com a Reforma, a sociedade europeia pode ouvir de novo a pura Palavra de Deus.
Mas a igreja sempre volta a se encantar com o presente século. Isso é um sinal de que o mundo está contaminando parte da igreja, a mesma que deveria influenciar positivamente o mundo.
São as portas do inferno que não suportarão as investidas da igreja, e não o contrário (Mt 16.18).
Creio que a igreja deve ser contemporânea, usando a linguagem atual para transmitir as verdades eternas do evangelho, sendo relevante ao momento que a humanidade tem vivido. Porém, isso não pode ser pretexto para uma secularização.
CONCLUSÃO
Diante dessa realidade, precisamos como cristãos rever nossa relação com o mundo. Estamos influenciando ou sendo influenciados? Sob o pretexto de ser relevantes no mundo, estamos negociando os valores de Cristo ou resguardamos tais valores?
É preciso reaprender a influenciar o mundo com um testemunho vivo, autêntico e impactante, que demonstre o poder salvador e restaurador do evangelho (Rm 1.16).
Aplicação
- Para você, a evangelização faz parte do seu dia-a-dia? Como?
- Como você tem reagido às crises econômicas e políticas de nosso país? Tem apenas participado do coro que culpa as autoridades ou aponta para a resposta bíblica à crise?
- Em seu relacionamento com pessoas, elas encontram em você um referencial, com uma opinião diferenciada e coerente?
- Você tem conseguido influenciar o seu meio, seja ele qual for?
Autor: REV. GLADSTON PEREIRA DA CUNHA
Lista de estudos da série
1. Como Deus resgata você do abismo – Estudo Bíblico sobre a Ovelha Perdida2. O perigo mortal de não perdoar o próximo – Estudo Bíblico sobre o Credor Incompassivo
3. O amor escandaloso que você não merece – Estudo Bíblico sobre o Filho Pródigo
4. Como o começo pequeno vira um sucesso gigante – Estudo Bíblico sobre o Grão de Mostarda
5. O que vale mais do que toda a sua fortuna – Estudo Bíblico sobre o Tesouro Perdido
6. Por que quem muito deve muito ama – Estudo Bíblico sobre os Dois Devedores
7. Por que sua fé não está dando frutos? – Estudo Bíblico sobre o Semeador
8. O que Deus vai cobrar de você no final – Estudo Bíblico sobre os Talentos
9. A justiça divina que parece injusta aos homens – Estudo Bíblico sobre os Trabalhadores na Vinha
10. Como influenciar o mundo sem ser contaminado – Estudo Bíblico sobre o Sal da Terra
11. Quando a paciência de Deus chega ao limite – Estudo Bíblico sobre a Figueira Estéril
12. O convite urgente que ninguém pode recusar – Estudo Bíblico sobre a Grande Ceia
13. Como não ser pego de surpresa na volta de Cristo – Estudo Bíblico sobre o Servo Vigilante
