Como Deus resgata você do abismo - Estudo Bíblico sobre a Parábola da Ovelha Perdida

Lucas 15.4-7

Introdução

Quando falamos em evangelização, estamos tratando de um tema vital para a igreja. Não é possível falar de igreja sem falar em evangelismo, assim como é impossível falar de evangelismo sem falar no papel da igreja.

Porém, podemos estar perdendo nossa visão do papel evangelizador da igreja. Nossa preocupação pode estar mais voltada para fornecer um serviço de qualidade aos que já são membros da comunidade.

Podemos estar mais preocupados em manter os que estão no aprisco, do que em resgatar os perdidos. Assim, o que acaba ocorrendo é uma aplicação de esforços e recursos naquilo que é apenas uma parte do trabalho da igreja.

A parábola da ovelha perdida tem muito a nos ensinar acerca do nosso papel.

1 - ENTENDENDO A PARÁBOLA

Esta parábola foi registrada por Mateus e por Lucas. Os evangelistas apresentam o mesmo conteúdo com algumas variações que, porém, não comprometem a harmonia dos relatos. A grande diferença está no contexto em que cada um registra a parábola.

No registro de Mateus, os discípulos questionavam o Mestre acerca de quem era o maior no Reino dos Céus (Mt 18.1). Em Lucas, Jesus responde à crítica feita pelos fariseus e escribas, acerca dele se assentar com publicanos e pecadores (Lc 15.1,2).

O contexto diferente registrado pelos evangelistas, implicará em aplicações diferentes.

A parábola em Mateus

Simon Kistemaker advoga que, em Mateus, a ênfase de Jesus está nos "pequeninos" (Mt 18.14). Pequeninos são aqueles que receberam o Reino dos Céus e "cuja fé mantém a simplicidade das crianças".

Segundo Jesus, quem fizer um destes pequeninos tropeçar, merece morrer (Mt 18.6). Sendo assim, nenhum daqueles pequeninos poderia ser desprezado, quanto ao cuidado espiritual que deveria receber (Mt 18.10).

O que Jesus está ensinando é que Deus tem uma preocupação pastoral em relação àquelas criancinhas na fé que, devido a tropeços colocados por outros, tendem a afastar-se do rebanho. Por isso, a atitude da igreja deve ser como a do pastor, que deixa as 99 ovelhas para resgatar a que se perdeu.

A parábola em Lucas

Já em Lucas, Jesus enfatiza os pecadores, pessoas que estão totalmente afastadas de Deus (Lc 15.1,2). Cristo conta três parábolas, sendo que em todas algo se perdeu: a ovelha (Lc 15.3-7), a dracma (Lc 15.8-10) e o filho (Lc 15.11-32).

Em Lucas, Jesus não apresenta a ovelha perdida como um pequenino na fé que se extraviou, mas ele considera como uma pessoa que precisa de arrependimento (Lc 15.7).

A ovelha perdida não respondia mais ao chamado do pastor, nem mesmo saía de seu lugar. Foi necessário o pastor ir ao seu encontro e colocá-la em seus ombros e levá-la para junto do rebanho (Lc 15.5).

Aplicações distintas

Portanto, a parábola da ovelha perdida, dependendo da narrativa, possui aplicações distintas. Em Mateus se aplica aos novos na fé, enquanto que em Lucas aos de fora da fé.

A primeira aplicação se refere ao cuidado da igreja com os recém-convertidos que se afastam da comunidade. A segunda aplicação se refere à necessidade de buscar os perdidos.

O objetivo desta lição é tratar da segunda aplicação, no que diz respeito a pregar o evangelho às pessoas que estão longe da comunidade dos discípulos de Jesus.

O valor de uma ovelha

Para entendermos a dimensão exata da parábola, alguns detalhes precisam ser verificados. Em nosso mundo, marcado por uma tendência de valorização de números e estatísticas, talvez disséssemos que perder uma ovelha em cem é uma perda aceitável.

Nos dias de Jesus, isso era um grande prejuízo. Ao contrário do que possamos imaginar, possuir cem ovelhas não fazia de alguém um homem rico. Pelo texto, percebe-se que era o proprietário que cuidava pessoalmente de seu rebanho (Lc 15.4).

Ele sabia que uma ovelha a menos lhe faria muita falta. Nisso Jesus ensina o valor individual em relação ao valor coletivo. Foi esse valor que levou o pastor a buscar sua ovelha.

Ao comparar os pecadores à ovelha perdida, Jesus está falando do seu valor como pessoa. Em nada eram menores ou inferiores aos fariseus e escribas (Lc 15.2). Jesus demonstrou por meio dessa história que sua missão era resgatar os perdidos (Mc 2.17; Lc 19.10).

Jesus queria que os fariseus e escribas entendessem que não eram melhores que ninguém. Ao mesmo tempo, queria que seus discípulos entendessem que sua missão seria buscar os perdidos, assim com seu Mestre, sabendo que todos têm valor para Deus.

Tendo em mente esses pontos, algumas considerações precisam ser feitas.

2 - EVANGELIZAR É RESGATAR PECADORES PARA DEUS

Quando Jesus disse "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura" (Mc 16.15), ele não estava sendo exagerado. Ele foi específico em seu direcionamento para seus discípulos.

Todas as pessoas precisam ouvir o evangelho, pois é pela pregação que as pessoas chegam à fé em Cristo (Rm 10.17). Ao mandar seus discípulos por todo o mundo, Jesus estava ampliando a primeira comissão, na qual ele os mandou para as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 10.5,6). A segunda comissão implica que todas as ovelhas perdidas precisam ouvir a pregação do evangelho.

Evangelização é multiplicação

Paulo entende que a evangelização é um processo de multiplicação, em que os que foram resgatados precisam resgatar outros.

Foi justamente isso que ele afirmou ao escrever ao Coríntios:

2 Coríntios 5:18-20
Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio.

Acerca disso, Calvino afirma que o evangelho tem como propósito lembrar-nos que, "embora sejamos, por natureza filhos da ira, a questão entre nós e Deus pode ser resolvida e podemos ser recebidos por ele em sua graça".

Talvez não pensemos nisso com frequência, mas Deus concedeu à igreja um ministério sublime no meio da humanidade: anunciar que o caminho está aberto ao trono da graça (Hb 4.16 cf. Hb 10.19-22). Este caminho é o próprio Cristo e sua obra redentora (Jo 14.6).

Tornamo-nos cooperadores de Deus na tarefa de resgatar os perdidos, tal qual o pastor que sai a procura da ovelha que se perdeu.

3 - EVANGELIZAR É FALAR A TODAS AS PESSOAS

Temos desmerecido pessoas devido ao seu comportamento, seu vestuário, sua aparência, etc. Por isso, a evangelização tem se tornado elitista em muitas comunidades. Procuramos os "bonzinhos" e não queremos nada com os "pecadores".

Esse é um tremendo erro, pois a Palavra nos adverte que "todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm 3.23). Por isso mesmo, Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11). Todos os sem Deus estão mortos em seus delitos e pecados, independente de ser um pai de família honrado ou um traficante e homicida. Todos precisam do evangelho de Cristo.

Sempre que julgamos as pessoas por sua aparência ou por outra categoria qualquer, estamos sendo legalistas assim como o foram os fariseus e os escribas.

O exemplo de Pedro

Pedro, em seu legalismo, não teria acompanhado os emissários de Cornélio. Foi preciso que Deus lhe desse uma visão e lhe falasse diretamente (At 10.9-20). E Pedro somente reconheceu que Deus não faz acepção de pessoas depois que Cornélio compartilhou com ele a experiência pessoal que tivera com Deus (At 10.34).

O exemplo dos fariseus

Os fariseus condenavam os publicanos por causa da sua profissão. Estes eram judeus, mas trabalhavam como cobradores de impostos para o império romano. Por isso, eram considerados traidores, ladrões e pessoas de moral questionável. Uma pessoa honrada não podia ter qualquer relacionamento com publicanos, muito menos compartilhar com eles uma refeição, como Jesus fazia (Lc 5.30).

O exemplo de Jesus

Mas Jesus não fez qualquer acepção contra os publicanos. Ele comia com eles (Lc 5.30), pousava em suas casas (Lc 19.5) e tinha um publicano entre os seus discípulos (Mt 10.3; Lc 5.27).

Os evangelhos informam que Cristo, em seu ministério, lidou com mulheres com reputação socialmente questionada (Lc 7.39; Jo 4.16-18; Jo 8.1-11). Em nenhum momento ele foi conivente com o pecado delas, mas as amou como pessoas.

Ao contrário dos homens que as tratavam como objeto e as odiavam, Jesus chegou a afirmar que as meretrizes precederiam a muitos no Reino de Deus (Mt 21.31).

Deus ama os pecadores

Por mais que seja difícil aceitarmos isso, Deus ama os pecadores, apesar de odiar o pecado deles. Deus não tem prazer na morte dos ímpios, pois sabe como será sua eternidade sob sua ira. Ele deseja que estes se arrependam e se convertam (Ez 33.11; 1Tm 2.4).

Porém, parecemos experimentar uma espécie de "complexo de Jonas". Queremos ver o fogo da ira de Deus destruir os pecadores. Quando isso não acontece, ficamos irados contra Deus (Jn 4.1).

Amamos mais o nosso conforto pessoal e espiritual do que as pessoas que estão morrendo sem Deus e sem o conhecimento do evangelho (Jn 4.6). Parece que não nos alegramos em ver o Senhor restaurando vidas. Não compartilhamos com ele e seus anjos a alegria de ver um pecador se arrependendo de seus pecados (Lc 15.7,10). Ficamos tristes em perder a nossa comodidade, assim como Jonas (Jn 4.5-11).

Quando se dispõe a pregar o evangelho, a igreja está tornando conhecido o amor de Deus para com toda a classe de pessoas, motivo pelo qual ele enviou o seu Filho Unigênito (Jo 3.16).

CONCLUSÃO

Percebemos em nós mesmos uma atitude bem diferente daquela observada nos crentes da igreja apostólica. Parece que perdemos nossa visão evangelizadora. O objetivo de resgatar os perdidos deu lugar à manutenção daqueles que já foram salvos.

Podemos nos contentar em fazer da igreja um clube social. A preocupação pode estar direcionada a fornecer aos membros um serviço de qualidade. Eles têm de estar confortáveis na igreja. Seus filhos têm de ter um ambiente agradável. Cada vez mais, nos especializamos em atender os "sãos" e somos incapaz de cuidar dos "doentes", ao contrário do que fez e ensinou Jesus.

Aplicação

Qual é a sua preocupação como cristão: a sua comodidade espiritual ou o resgate de vidas perdidas? Você tem procurado testemunhar a pessoas que lidam com dependência química, que estão em situação de prostituição? Como lidar com essas pessoas?

Autor: REV. GLADSTON PEREIRA DA CUNHA


Lista de estudos da série

1. Como Deus resgata você do abismo – Estudo Bíblico sobre a Ovelha Perdida
2. O perigo mortal de não perdoar o próximo – Estudo Bíblico sobre o Credor Incompassivo
3. O amor escandaloso que você não merece – Estudo Bíblico sobre o Filho Pródigo
4. Como o começo pequeno vira um sucesso gigante – Estudo Bíblico sobre o Grão de Mostarda
5. O que vale mais do que toda a sua fortuna – Estudo Bíblico sobre o Tesouro Perdido
6. Por que quem muito deve muito ama – Estudo Bíblico sobre os Dois Devedores
7. Por que sua fé não está dando frutos? – Estudo Bíblico sobre o Semeador
8. O que Deus vai cobrar de você no final – Estudo Bíblico sobre os Talentos
9. A justiça divina que parece injusta aos homens – Estudo Bíblico sobre os Trabalhadores na Vinha
10. Como influenciar o mundo sem ser contaminado – Estudo Bíblico sobre o Sal da Terra
11. Quando a paciência de Deus chega ao limite – Estudo Bíblico sobre a Figueira Estéril
12. O convite urgente que ninguém pode recusar – Estudo Bíblico sobre a Grande Ceia
13. Como não ser pego de surpresa na volta de Cristo – Estudo Bíblico sobre o Servo Vigilante

Semeando Vida

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