O que Deus vai cobrar de você no final - Estudo Bíblico sobre a Parábola dos Talentos

Mateus 25.14-30

Introdução

A igreja contemporânea perdeu o foco acerca da vinda de Cristo. Parece que mais uma vez, o povo de Deus julga demorado o cumprimento da promessa (2Pe 3.9). Como consequência, o "ide e pregai" (Mc 16.15) tem sido esquecido.

Na igreja apostólica, o senso da volta iminente de Cristo era o motivador para a evangelização. A convicção que a evangelização estava diretamente relacionada à vinda de Cristo e a consumação do reino de Deus (Mt 24.14), fez de cada cristão um evangelista e missionário, a fim de que a vinda de Cristo pudesse ser apressada (2Pe 3.12).

Além disso, havia um senso de dever pessoal quanto à evangelização. Em Atos dos Apóstolos, encontramos toda a igreja contando com a simpatia do povo, porque estava envolvida com o povo, a quem testemunhava o evangelho com amor e entusiasmo (At 2.46,47). 

Todos eram responsáveis pela evangelização, não somente os apóstolos. Cada casa era um lugar a partir de onde se difundia o evangelho (At 5.42).

Creio que essa responsabilidade quanto à evangelização era fruto da interpretação correta dos ensinos de Jesus. Nisto, creio que a parábola dos talentos teve papel fundamental. Daí a necessidade de estudá-la melhor.

1 - ENTENDENDO A PARÁBOLA

Segundo Jesus, um homem decidiu ausentar-se de seu país. Porém, antes de sair em viagem, chamou seus empregados de confiança e lhes entregou os seus bens (Mt 25.14). 

A maneira oriental, aquele homem tomou seus empregados como sócios. Estes haveriam de gerenciar seus bens enquanto viajava.

Aquele homem conhecia seus servos e suas capacidades, sabia que podiam negociar com seus bens e alcançar lucro. 

Ele então dividiu oito talentos entre os três servos. "A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro, um, a cada um segundo a sua própria capacidade; e, então, partiu" (Mt 25.15).

Os talentos a que Jesus se refere não são os dons naturais ou até mesmo espirituais que uma pessoa possui. Jesus está falando acerca de dinheiro. Talento era o nome da moeda vigente. Um talento era equivalente a 6.000 denários. O salário diário de um trabalhador braçal era um denário.

Vejam o seguinte quadro comparativo:

Talentos Recebidos Valor em denários Tempo para ajuntar o valor
5 30.000 82 anos
2 12.000 32 anos
1 6.000 12 anos

Diante deste quadro, percebemos que Jesus não está tratando de quantias irrisórias, mas parte de uma fortuna que um homem conseguiu juntar durante a sua vida. 

Temos que perder a ideia de um servo indo aos banqueiros com cinco moedas. Bem como, a imagem do servo enterrando um moedinha. Estamos falando de fortunas.

Cada servo saiu a lidar com o que recebera. Os dois primeiros investiram aquilo que lhes fora confiado. Ambos obtiveram um lucro de 100% sobre o valor investido (Mt 25.16,17). Foi um bom investimento.

Porém, o que recebera um talento preferiu enterrá-lo (Mt 25.18). Isto era algo comum naqueles dias na antiga Palestina. O receio de guerras e ladrões levava pessoas a enterrar seus tesouros ou parte deles, para evitar que fossem roubados em suas casas.

Jesus afirma que passou um longo tempo até a volta do senhor (Mt 25.19), Ele deu ênfase ao retorno e não ao tempo até o retorno. Esta foi a mesma ênfase dada em outras parábolas (Mt 24.45-51; Mc 13.28-37; Lc 18.11-27).

Jesus queria que seus discípulos estivessem certos de sua vinda, na qual consumaria o seu reino e acertaria contas com seus servos, retribuindo a cada um segundo as suas obras (Mt 16.27), assim como fizera o senhor na parábola.

O acerto de contas

A parábola continua com Jesus narrando o acerto de contas. Os dois primeiros foram considerados fiéis (Mt 25.21,23). A fidelidade de ambos é verificada no fato de devolverem ao senhor tanto o capital quanto o lucro (Mt 25.20,22).

Nenhum dos dois guardou para si absolutamente nada. Eles sabiam que tudo pertencia ao seu senhor. Para Kistemaker, o senhor responde de acordo com a fidelidade demonstrada pelos servos.

A recompensa que esses servos receberam denota o reconhecimento da sua fidelidade por parte do senhor. Eles foram elogiados por suas atitudes empreendedoras. Foram considerados servos dignos de confiança. 

Receberam novas obrigações. E, por fim, foram convidados para assentar-se à mesa ("entrar no gozo") com seu senhor, num banquete que simbolizaria a comunhão e a intimidade da qual os servos participariam dali em diante (Mt 25.21-23).

Já o terceiro servo, em sua displicência e irresponsabilidade inventou "uma justificativa para a sua própria deserção do dever", tendo "a audácia de acusar seu senhor de ser duro, isto é, inflexível, rigoroso, inclemente, severo, alguém que exige mais do que tem o direito de exigir" (Mt 25.24,25).

Como já dissemos, o homem rico da história aponta para a pessoa de Cristo. Por isso, essa acusação não pode estar correta. 

Ela está maculada pelo erro e maldade do servo. Por seu próprio caráter ele vê a justiça de seu senhor como severidade e brutalidade. É uma tentativa de lançar a culpa da sua inatividade sobre o seu senhor.

Temos que perceber que a resposta do senhor baseia-se na desculpa oferecida pelo servo (Mt 25.26). 

A desculpa é desmascarada e a verdade vem à tona. O caráter do senhor é generoso, pois deu a três de seus servos a possibilidade de serem seus sócios nos negócios (Mt 25.15).

Ao repartir sua fortuna, ele o fez como quem semeia. Quem semeia tem o direito de colher. Portanto, ele estava colhendo o que semeara, estando como dono no seu direito de cobrar o lucro.

Quando o servo declara que estava entregando tudo o que pertencia ao senhor, ele está mentindo (Mt 25.25). Ele não entregou aquilo que poderia ter lucrado. O senhor lhe deu um talento para ser multiplicado, não enterrado.

Assim, o servo privou o seu senhor dos juros que poderiam ter se acumulado, caso tivesse ele negociado com os banqueiros (Mt 25.27). Ele foi negligente com o seu papel, pois o seu coração era mau (Mt 25.26).

A atitude do senhor é castigar o mau servo (Mt 25.28-30). A primeira parte do castigo implica em perder aquilo que lhe foi dado. Por isso, o talento lhe é tirado como fim da sociedade proposta pelo senhor (Mt 25.28).

Kistemaker sugere que "até o que tem lhe será tirado", deve ser atendido como a atitude do senhor em tentar "recuperar o que, de direito, lhe pertencia, isto é, os lucros esperados". Para isso, as propriedades do servo lhe teriam sido tomadas.

Quanto a isso, Hendriksen afirma que o verdadeiro sentido do verso v.29 é: "o homem que, por meio do uso diligente das oportunidades de serviço que Deus lhe deu, se dedica ao Senhor para, pela graça divina, amar e ajudar a outros e, ao agir assim, se tem enriquecido, continuará nesse curso se tornando mais e mais profundamente rico. Em contrapartida, à pessoa que se tem empobrecido porque nunca se deu a si mesma, mesmo o pouco que uma vez possuiu lhe será tirado".

E, depois de tudo isso, o servo mau ainda é lançado para fora, nas trevas (Mt 25.30). Em vez de participar do banquete, esse servo é privado dele. Não haverá alegria, mas choro e ranger de dentes. Não haverá comunhão, mas sim distância.

Com esse entendimento da parábola, é possível fazer algumas considerações:

2 - DEUS REQUER FIDELIDADE

Quando falamos em evangelização, estamos falando de uma responsabilidade que pertence a todos os servos do Senhor (Mt 28.19,20; Mc 16.15; Jo 15.16; At 10.40-42; 1Pe 2.9).

O apóstolo Paulo tinha tanta convicção dessa verdade, que expressou: "Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!" (1Co 9.16). 

Essa era a sua responsabilidade como despenseiro (1Co 9.17). E nas palavras do próprio apóstolo, "o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel" (1Co 4.2).

Deus requer que sejamos fiéis ao nosso chamado cristão (1Pe 2.9). Ele nos legou o evangelho, um tesouro precioso que precisa ser anunciado a todas as nações da terra (Mt 24.14). O foco deve estar na proclamação às pessoas da salvação que Deus propôs em Cristo Jesus, seu filho (Jo 3.16; 17.3).

Cada cristão deve fazer a sua parte. Cada qual deve ser encontrado fiel. É fácil pensar em fidelidade coletiva, porém é difícil pensar em fidelidade individual. 

Se cada qual assumir o compromisso de ser fiel na proclamação do evangelho, a igreja experimentará uma nova era e os frutos aparecerão.

A fidelidade que Deus deseja ver em nós se manifesta por meio dos frutos que produzimos. Na parábola do semeador, a semente que caiu em terra boa, produziu a cem, a sessenta e a trinta por um (Mt 13.8,23). 

Fomos chamados para produzir frutos (Jo 15.16). A proporção que Deus quer ver-nos produzindo é alta, assim como foi com os servos que negociaram os talentos (Mt 25.15,16).

Não há como ser fiel sem pregar o evangelho. Não há como ser fiel, sem dar frutos. Isto é algo improvável e impossível.

3 - MOTIVAÇÃO PARA EVANGELIZAR

Jesus deixou claro em sua parábola que o senhor rico demorou muito tempo, mas depois voltou (Mt 25.19). Como vimos, a sua demora não é a ênfase central, mas sim a certeza de seu retorno (Jo 14.3, At 1.11).

A vinda de Cristo é uma certeza. Porém, aparentemente, muitos cristãos não pensam nessa verdade como deveriam. 

Vivemos nos últimos dias. A consumação do reino de Cristo está próxima. E, nem mesmo os sinais da vinda do Senhor têm sensibilizado o coração de muitos de seus servos.

A parábola dos talentos é contada no contexto do sermão profético de Cristo, quando ele falou acerca das últimas coisas (Mt 24.3-14). 

Jesus declara que a sua vinda será precedida por uma multiplicação da falsa religiosidade (vs. 4,5,11), por uma confusão social e política de proporções internacionais (vs. 6-8), por incidentes naturais graves (v. 7) e por um aumento da iniquidade (vs. 9,10,12).

Não é preciso ser um profundo estudioso da Palavra para saber que isso está acontecendo. Basta apenas ler os jornais ou ligar a TV. Mas, por que isso não faz a igreja se sensibilizar e assumir seu compromisso de pregar o evangelho?

Tomando o exemplo do servo negligente podemos chegar a algumas respostas. Primeira resposta é: Temos uma visão errada acerca de Deus. Achamos que ele é mau e vingativo. Entendemos sua justiça como a manifestação da sua ira em vingança.

Não somos capazes de perceber que o amor é parte da personalidade de Deus, portanto, "toda a sua atividade é atividade amorosa" (1 Jo 4.8, Jo 3.16,). Sendo assim, até a manifestação da justiça é baseada no amor. Deus é amor e justiça ao mesmo tempo (Sl 50.6, Lc 11.42).

O que muitos fazem é lançar sobre Deus seus próprios erros e pecados, criando uma imagem corrompida de quem de fato ele é. 

Temos medo do encontro com o Senhor, logo não queremos pensar no seu retorno. Este tipo de atitude é próprio de quem não conhece a Deus. Um conceito errado implica numa atitude errada em relação a ele.

A segunda resposta é: Achar que o Senhor não cumprirá sua promessa. Depois de tanto tempo, o servo achou que seu senhor não voltaria. Estamos pensando isto também (2Pe 3.4-6).

Porém, o propósito de Deus quanto à salvação dos seus eleitos ainda não se concretizou, por isso Cristo ainda não voltou (2Pe 2.9). Isto implica que há muito serviço a ser feito.

A motivação cristã para a pregação do evangelho não pode ser baseada em conclusões erradas acerca de Deus. Deve estar baseada sim, na certeza de que o nosso Senhor está voltando. O medo não deve ser o motivo para servirmos a Deus, mas, o nosso amor a ele.

E quando voltar, ele espera encontrar-nos para acertar as contas. Ele quer ver os frutos que produzimos, as vidas que alcançamos para ele. Ele quer contemplar o fruto do penoso trabalho de sua alma sendo multiplicado (Is 53.11).

CONCLUSÃO

A parábola dos talentos nos ensina a aproveitar todas as oportunidades que temos para fazer a vontade de Deus, a fim de multiplicar aquilo que ele próprio nos confiou.

Cada cristão precisa tomar a atitude em relação ao dever de pregar o evangelho. Somos todos chamados para evangelizar.

Temos essa ordem divina em nossos corações. Por isso, devemos estar atentos ao retorno do Senhor, como motivador do nosso trabalho, sabendo que o Senhor quer encontrar-nos fiéis.

Assim, quando se manifestar o nosso Eterno Senhor, haveremos de receber a bênção maior de estar em sua companhia para sempre, desfrutando da sua comunhão bendita.

Aplicação

  • Temos levado o evangelho de Cristo às pessoas?
  • Ou estamos protelando o nosso dever?
  • Somos fiéis ao nosso chamado para levar o evangelho?
  • Ou estamos delegando este dever aos pastores, missionários e evangelistas?

Autor: REV. GLADSTON PEREIRA DA CUNHA


Lista de estudos da série

1. Como Deus resgata você do abismo – Estudo Bíblico sobre a Ovelha Perdida
2. O perigo mortal de não perdoar o próximo – Estudo Bíblico sobre o Credor Incompassivo
3. O amor escandaloso que você não merece – Estudo Bíblico sobre o Filho Pródigo
4. Como o começo pequeno vira um sucesso gigante – Estudo Bíblico sobre o Grão de Mostarda
5. O que vale mais do que toda a sua fortuna – Estudo Bíblico sobre o Tesouro Perdido
6. Por que quem muito deve muito ama – Estudo Bíblico sobre os Dois Devedores
7. Por que sua fé não está dando frutos? – Estudo Bíblico sobre o Semeador
8. O que Deus vai cobrar de você no final – Estudo Bíblico sobre os Talentos
9. A justiça divina que parece injusta aos homens – Estudo Bíblico sobre os Trabalhadores na Vinha
10. Como influenciar o mundo sem ser contaminado – Estudo Bíblico sobre o Sal da Terra
11. Quando a paciência de Deus chega ao limite – Estudo Bíblico sobre a Figueira Estéril
12. O convite urgente que ninguém pode recusar – Estudo Bíblico sobre a Grande Ceia
13. Como não ser pego de surpresa na volta de Cristo – Estudo Bíblico sobre o Servo Vigilante

Semeando Vida

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