Enfrentando as provas (2)


Tiago 1.12-20

Na meditação passada tratamos sobre esse mesmo tema desenvolvido por Tiago que escreveu para cristãos dispersos que passavam por muitas lutas, no entanto eram imaturos espiritualmente. Um de seus objetivos era ensiná-los como deveriam lidar com as provas da vida. 

Na primeira parte de nossa exposição Tiago ensinou que para lidar com as provas da vida o cristão deve: 1) Ver as provas como motivo de alegria; 2) orar com fé por sabedoria; 3) Entender que nossa riqueza não é desse mundo. 

Tiago continua o desenvolvimento desse tema, dando outros importantes conselhos para os crentes a fim de que esses soubessem como deveriam lidar com as provas da vida. Vejamos: 

1. Faça distinção entre provação e tentação (vv. 12-15). 
“Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam. Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”.

Tiago aqui estabelece um contraste marcante entre provação e tentação. Segundo ele, Deus envia as provações com o objetivo de nos fazer crescer. Porém, para que esse crescimento ocorra, o cristão deve suportar a provação com perseverança, ou seja, deve carrega-la até o final. Quem assim fizer será realmente feliz e receberá a coroa da vida, ou seja, a vida eterna. 

No campo inverso da provação está a tentação. O teólogo holandês Gehardus Vos escreveu: Por trás da provação existe um desígnio bom, enquanto que por trás da tentação existe um desígnio mau. O que ocorria é que certos cristãos diziam que Deus os tentava. Tiago, então mostra que isso não é possível. Primeiro, porque Deus não é tentado por ninguém, ou seja, Deus jamais desejaria fazer o que é mau. Em segundo, porque Deus não induz ninguém para fazer o mal. 

Se Deus não tenta ninguém, onde está a fonte da tentação humana? Em nós mesmos! Tiago escreve que “cada um é tentado pela sua própria cobiça”. Ele descreve como a cobiça age no cristão. Ela “o atrai e “seduz”. O verbo “atrair” tem o sentido de “enganar” e o verbo “seduzir” vem de uma palavra grega que significa “isca”. A cobiça é uma isca, um engano! Parece algo bom, mas não é. Parece um caminho direito, mas é um caminho de morte (Pv. 14.12).

Finalmente essa cobiça é ilustrada como uma mulher. Ela se relaciona com o homem e fica grávida do pecado. Quando esse filho nasce, ele mata o próprio pai – ser humano.

A partir disso, aprendemos lições bem importantes:

1.1. Às vezes pecamos em nossas provações (tentando resolver as coisas de nosso jeito, duvidando, murmurando e até blasfemando). Contudo, o pecado cometido durante as provações são de inteira responsabilidade nossa e não de Deus que enviou a provação. 

1.2. A provação sempre terá como objetivo torna-lo mais parecido com Cristo. A tentação sempre terá o intuito de distorcer a imagem de Cristo de sua vida. 

1.3. A provação sempre terá como objetivo aproximá-lo de Deus. A tentação sempre terá como missão afastá-lo do Senhor. 

2. Não se engane a respeito do caráter de Deus (vv.16-18). 
“Não vos enganeis, meus amados irmãos. Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas”.

Tiago, para assegurar que nenhum mal pode proceder de Deus, faz uma breve exposição sobre o caráter bom e santo de Deus. Primeiramente, ele deixa claro: “não vos enganeis” o bem procede somente de Deus. O bem vem do céu que simboliza a habitação de Deus. Isso é um contraste com o mal. Este não vem do céu, mas debaixo (de nós mesmos v. 14 – cobiça). 

O bem procede do Pai das luzes - uma referência à criação. Como criador dos luzeiros, Deus é o pai das luzes. Ao contrário do sol, lua e estrelas, Deus não muda nem varia. A mudança do sol em especial se via pelo deslocamento de sua sombra que era lançada no relógio solar. Diferentemente disso, a bondade e o propósito de Deus em nos abençoar permanecem firmes. 

Ele fala desse bem através de duas expressões. “boa dádiva” e “dom perfeito”. Por boa dádiva, Tiago se refere a todas as bênçãos que recebemos, tanto espirituais (eleição, predestinação, adoção, libertação e perdão dos pecados, selo do Espírito – Ef 1.3-14) quanto as materiais (vestes, alimentos – Mt 6.25-34). Por “dom perfeito” ele indica que tudo o que Deus nos concede é completo, ou seja, não falta nada. 

Tiago fala de outro bem que Deus fez: “ele nos gerou pela palavra da verdade”. Ele se refere ao novo nascimento que ocorre quando o homem crê em Jesus mediante a pregação do evangelho. Deus executa esse novo nascimento com um propósito – nos separar para Ele (separação indicada pela frase: “para que fôssemos como que primícias de suas criaturas” v. 18). Deus separa esse homem tal como um agricultor separa os melhores frutos da colheita ou tal como um criador separa as melhores ovelhas do rebanho. Aqueles que creem em Cristo são a parte das criaturas que Deus tomou para si. 

Com base nessa exposição de Tiago a respeito do caráter imutável de Deus, aprendemos lições preciosas.

2.1. Nunca duvide do fato de que Deus deseja o seu bem. Ele sempre concederá aquilo de que precisa. Além disso, conforme já vimos, por trás da provação há sempre um bom desígnio.

2.2. Não dê ouvidos à voz que sopra aos seus ouvidos dizendo: “Deus não é mais o mesmo com você”! Deus nos diz: “Porque eu, o SENHOR, não mudo” (Ml 3.6).

2.3. Você está seguro nas mãos de Cristo. Deus o separou para ser posse exclusiva Dele. 

3. Ouça mais e fale menos (vv.19-20). 
“Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus”.

Aqui Tiago dá sua última instrução a respeito do procedimento correto dos cristãos sob o fogo da provação. Primeiramente ele ensina que aqueles cristãos deveriam estar prontos (“rápidos”) para ouvir a palavra de Deus. Tiago faz essa exortação porque as provações poderiam desanimar aquelas pessoas de frequentarem os cultos. Mas principalmente, porque eles eram meros ouvintes profissionais dos sermões. O princípio aqui então é: Ouvir, apreender, refletir e praticar. 

Em segundo lugar, Tiago fala que eles deveriam ser “tardios” para “falar” e para “irar”. “Tardio” quer dizer vagaroso. O motivo para ser vagaroso é que na angústia, os cristãos acabam falando coisas das quais se arrependem depois. O motivo para ser vagaroso na ira é que a ira do homem não “produz a justiça de Deus”. Um cristão irado dificilmente toma decisões que reflitam a justiça de Deus ou que glorifiquem o Deus justo. Isso porque a ira do homem, via de regra, vem misturada com ódio, rancor, desejo de vingança. “A raiva humana não produz o que Deus aprova (BLH).” 

A partir dessas orientações, aprendemos importantes princípios.

3.1. Não apenas ouça os sermões, dedique-se em aprender com eles e aplicá-los em sua vida. O que mais precisamos na crise é direção e nada mais eficaz que a Palavra de Deus.

3.2. Não seja impulsivo em suas palavras. Elas podem ferir as pessoas, fazer você pecar e entristecer o Espírito que habita em você. 

3.3. Não seja impulsivo em sua ira. Elas podem criar contendas desnecessárias entre você e seu próximo. “O iracundo levanta contendas, e o furioso multiplica as transgressões” (Pv 29.22).

Conclusão. 
Todos, sem exceção, passam por provações. Nossa aprovação nesse teste depende da maneira como lidamos com ele. Tiago ensina importantes princípios para sabermos lidar com as crises. Em primeiro lugar, faça distinção entre provação e tentação.

Provação vem de Deus, tentação, basicamente de nós mesmos. Em segundo lugar, não se engane com o caráter de Deus. Ele é bom e Dele procede todo o bem. Finalmente, ouça mais e fale menos. Que o Senhor em sua graça nos habilite para enfrentarmos corretamente as provações e assim sermos aperfeiçoados.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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