Enfrentando as provas (1)


Tiago 1.2-11

Todos, indistintamente, passam por provações. As provações nos abatem, quebram nosso orgulho e nos fazem refletir sobre tudo o que há em nossa vida. Contudo, nem sempre sabemos lidar corretamente com elas. O texto de Tg 1.2-11 nos ensina preciosas lições a respeito disso. 

Essa foi escrita por volta da década de 40 para cristãos que haviam sido espalhados por causa da perseguição movida pelos judeus. Tiago, o meio irmão de Jesus quando a escreveu essa epístola tinha em vista dar uma série de orientações para cristãos que sofriam com diversos problemas. 

Sua grande maioria era de pobres e sofriam discriminação por causa disso, além de enfrentarem perseguições por causa da fé. No entanto, também eram imaturos em função da falta da prática da palavra de Deus. Tiago, ciente da situação escreve para confortá-los, fortalece-los e orientá-los em várias áreas da vida.

No capítulo 1.1-20 o autor demonstra como o cristão deve proceder nas mais diversas provas da vida. Aprendemos nesses versículos importantes princípios sobre esse o modo como o cristão deve se portar na crise. Vejamos. 


1. Veja as provas como motivo de alegria (vv.2- 4)

“Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes”.

Tiago ensina nesse primeiro versículo que o cristão deve ter alegria na tribulação. Ele se refere não apenas à alegria, mas “toda alegria”. Ele não está proibindo o choro e a dor decorrentes da crise. O que Tiago quer ensinar é que seus leitores deveriam sofrer humildemente, com paciência e sem duvidar da providência de Deus. 

Mas porque eles deveriam se alegrar com as tribulações?

Primeiro, no v. 3, Tiago mostra que o fim da tribulação é testar a fé (“provação da fé”). Seria na crise que seus leitores perceberiam se a fé era genuína. 

Em segundo lugar, no v.4 esse processo produz perseverança. Literalmente quer dizer “debaixo de”. A ideia é de alguém que permanece com um peso sobre as costas e está disposto a carrega-lo até o fim apesar do esforço e da dor.

Em terceiro lugar, Tiago, no v.4, fala que a perseverança, uma vez completada os tornaria perfeitos e íntegros e nada deficientes, isso quer dizer “maduros”. Nesse estágio, os cristãos estariam prontos para encarar as tribulações de forma correta.

Portanto, o motivo para se ter alegria nas provações é certeza de que através delas nossa fé é testada, nossa perseverança é aperfeiçoada e nossa maturidade é alcançada. Diante disso, algumas perguntas surgem em relação às nossas crises. 

Temos enfrentado as crises apenas lamentando ou entendendo que através delas, Deus visa aperfeiçoar a nossa fé? Temos crido que na tribulação Deus zelará por nós ou temos duvidado de sua providência? 


2. Ore a Deus com fé por sabedoria (vv. 5-8)

“Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos”.

Um dos problemas dos leitores de Tiago era a falta de sabedoria em lidar com as provações. Essa sabedoria não é conhecimento intelectual, mas é aquela expressa em Tg 3.17. “A sabedoria do alto é antes de tudo pura; depois pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera”. 

Tiago estimula os cristãos a pedirem por essa sabedoria com base no fato de que Deus atende essa oração sem impor condições. Contudo, Tiago mostra como se deve pedir por sabedoria.

A oração por sabedoria, de acordo com v.6, deve ser feita com fé em nada duvidando (hesitando, questionando). Quem duvida é como uma onda agitada que é levada pelo vento. Tiago deixa claro no v.7 que quem duvida, não alcançará o favor de Deus. Quem duvida é como homem de ânimo dobre (v.8), ou seja, é como uma pessoa que tem dois rostos e cada um olha para uma direção. Seus olhos não estão direcionados para Cristo. 

Portanto, um dos problemas para não saber lidar com a tribulação é a falta de sabedoria. No entanto, há esperança, pois Deus concede abundantemente sabedoria aos que lhe pedem. A partir disso surgem algumas questões. 

De que maneira temos lidado com nossas provações? Como você temos lidado com elas conforme o seu entendimento ou segundo a orientação que você recebe na Bíblia? Se em algum momento você entendeu que lhe tem faltado sabedoria em lidar com suas crises de que maneira tem tentado resolver isso? Tem pedido a Deus por sabedoria com fé ou tem perdido a esperança que receberá essa sabedoria? “Deus deseja inteireza de coração, firmeza de propósito, um coração consagrado e devotado a ele. É a este que o Senhor Jesus atenderá”.


3. Nossa riqueza não está nesse mundo (vv.9-11)

O irmão, porém, de condição humilde glorie-se na sua dignidade, e o rico, na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva. Porque o sol se levanta com seu ardente calor, e a erva seca, e a sua flor cai, e desaparece a formosura do seu aspecto; assim também se murchará o rico em seus caminhos. 

Um dos problemas vivenciados pelos cristãos para quem Tiago escreve é que muitos deles eram pobres e sofriam nas mãos dos ricos. Os ricos não pagavam o salário corretamente, emprestavam dinheiro aos pobres e estes quando não podiam pagar, eram arrastados para os tribunais. Os ricos enriqueciam cada vez mais à custa dos pobres. Diante disso, Tiago dá conselhos importantes: 

Primeiro, eles deveriam se gloriar na sua dignidade. Dignidade aqui significa exaltação. Está relacionada com o fato de serem filhos de Deus. Portanto, a maior riqueza deles era terem a filiação divina e serem herdeiros do reino. 

Segundo, no v. 10, os pobres deveriam estar atentos para o fato de que os ricos incrédulos, apesar de ocuparem uma posição exaltada, estavam numa condição de abatimento diante de Deus.

Terceiro, (vv. 10, 11) os pobres deviam se lembrar de que o esplendor do poder dos ricos era tão passageiro quanto a formosura das flores. Portanto, os pobres deveriam aguardar a manifestação da justiça do Senhor. 

O ensino aqui é que a verdadeira exaltação de uma pessoa não está atrelada à sua condição social, mas no fato de ser filho de Deus e por aguardar o cumprimento de suas promessas.

Podemos tirar algumas lições importantes dessa passagem. São elas:

1ª. Nossa causa está diante do supremo juiz que julgará com perfeição todos os que injustamente nos fazem sofrer. 

2ª. A segurança e esperança do crente não estão fundamentadas na condição de possuir, mas sim de ser possuído por Deus.

3ª. A verdadeira alegria do homem não está ancorada nas posses, mas sim na salvação da ira de Deus que está por vir. 

4ª. O consolo do crente não está naquilo que ele pode fazer com suas posses, mas naquilo que Cristo fez por Ele na cruz; morreu por seus pecados.


Conclusão

Todos, indistintamente, passam por lutas nas mais diversas áreas e a Bíblia nos mostra como devemos proceder. Segundo ela, devemos enxergar as provas como motivo de alegria. Além disso, precisamos pedir sabedoria para lidar com o sofrimento. Finalmente, devemos entender que nossa verdadeira riqueza não está neste mundo. Que a graça de Deus seja sobre nós e assim, saibamos lidar com as crises que vêm sobre nós.

------------------------------------
Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

Tecnologia do Blogger.