Julgamento (2)


Uma das coisas mais difíceis com que nos deparamos na vida é o julgamento que temos de fazer, de coisas ou de pessoas e nós estamos julgando a toda a hora, mesmo sem saber estamos diante de circunstâncias que exigem de nós um julgamento, às vezes com tempo de meditar sobre as decisões tomadas, outras vezes sem tempo de refletir sobre as decisões a tomar.


Qualquer decisão que tomamos é o resultado de um julgamento. Todo ato de escolha é um ato de julgamento.

Há dias no supermercado observei uma senhora tirando uma cebola podre de um saquinho e pondo uma cebola boa de outro saquinho no lugar da podre. Ela estava exercendo um julgamento. Ela estava pagando por cebolas boas, então o supermercado não tinha o direito de colocar uma cebola ruim entre as boas; creio que essa é uma atitude que, se imitada por todos, talvez acabasse com o abuso de se misturar produtos ruins junto a produtos bons, vendendo tudo pelo mesmo preço.

Quando tomamos um caminho em lugar de outro, nós estamos julgando um melhor do que outro. O professor vai corrigir uma prova de um aluno, ele vai julgar o aluno em função do que o aluno apresentou como resultado da aprendizagem daquela matéria; o julgamento é, pois necessário, inevitável mesmo.

Contudo, quando se trata de julgar uma pessoa, seu comportamento, suas atitudes, seus motivos, há que se ter muito cuidado para não se fazer injustiça. Jesus muito sábio e conhecedor dos costumes dos homens de julgar o próximo, deixa registrada, no seu belíssimo sermão da montanha, uma advertência: "Não julgueis".

O julgamento humano é muito relativo porque o homem não é absoluto. O homem julga pelo que vê, pelas aparências e as aparências enganam. Não só estamos sempre julgando como também estamos sendo julgados pelos outros. Qualquer injustiça de que somos vítimas, deve ser um alerta para que evitemos fazer injustiças com os outros.

Outras vezes julgamos baseados em boatos ouvidos de outros. Uma notícia que ouvimos não deve ser espalhada, nem julgada, sem que antes façamos uma verificação da procedência ou não do fato noticiado.

Agora mesmo atendi um chamado no telefone; era um senhor querendo comprar um carro, que segundo ele ouviu, eu estava querendo vender. No caso não houve nenhuma consequência porque desfeito o engano, tudo se resolveu, mas pode haver consequências irremediáveis de um julgamento baseado apenas no que a gente ouve.


É preciso muito cuidado ao julgarmos um fato de que não temos nenhuma certeza comprovada. Outras vezes julgamos baseados apenas em deduções que "julgamos" lógicas, muitas vezes julgamos lógico o que na realidade é ilógico.

Jesus conta uma parábola em que o Senhor de vários servos vai viajar e antes de sair distribui talentos aos seus empregados, a fim de que eles trabalhem e apliquem bem o seu dinheiro. Um que recebeu um só talento, quando da prestação de contas, disse o seguinte: "... Senhor, eu conhecia-te que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste e, atemorizado escondi o teu talento, aqui tens o que é teu".

Ele deduziu logicamente, que não valia a pena empregar o dinheiro recebido e foi condenado exatamente por isso. "... respondeu o Senhor: mau e negligente servo, sabes que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei, devias ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse receberia o meu com os juros".

Tinha razão Jesus quando recomendou: "Não julgueis", quando se trata de julgar pessoas ou procedimentos de pessoas convém pensar um pouco mais. Fazendo isso, vamos descobrir que nós também cometemos os mesmos erros. Jesus justifica sua advertência dizendo: "Para que não sejais julgados".

Uma vez perguntaram a um sábio quantas vezes a gente deve refletir para julgar. Ele disse: se for para condenar deve-se refletir cem vezes, mas se for para perdoar, uma vez apenas basta, porque erra quem condena sem hesitar, mas erra muito mais que hesita em perdoar.

Outra ocasião disseram a um senhor: - fulano está falando mal do senhor para todo mundo. Ele respondeu: não tem importância eu só vou me preocupar quando todo mundo estiver falando mal de mim para ele.

Observando bem o conselho de Jesus quanto ao julgamento do próximo, creio que uma boa medida é seguir o seguinte princípio: devo ser intransigente comigo mesmo e tolerante para com o próximo. Assim evitamos o pré-juízo, mesmo porque todo pré-juízo traz prejuízo.

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Samuel Barbosa é pastor jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 1960. Posteriormente graduou-se em Letras, Pedagogia, Supervisão Escolar e Especialização em Língua Portuguesa com produtiva carreira acadêmica. Pastoreou as igrejas presbiterianas de Apiaí, Correias e Itararé entre 1961 e 1962. Foi pastor da Igreja Presbiteriana de Itararé durante 32 anos até sua jubilação. Presidiu o Presbitério de Itapetininga por 22 anos e é pastor emérito das Igrejas Presbiterianas de Itararé e Itaberá. 
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