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Considerações sobre o dízimo


No livro de Provérbios nós lemos: “Honra ao SENHOR com os teus bens e com as primícias de toda a tua renda” (Provérbios 3.9).

A história sobre a composição desse livro não estranha a nós. Trata-se de uma compilação de pensamentos sucintos sobre princípios presentes em toda Escritura. No texto em questão, o pensamento relembra sobre a lei dada por Deus a respeito do dízimo.

Falar de dízimo nos dias de hoje não é uma tarefa fácil. Isso por causa de diversas razões. Citamos algumas:


1) A teologia da prosperidade que distorce o sentido do dízimo fazendo dele um instrumento de barganha, onde Deus “se obriga” a conceder o dobro ou triplo daquilo que lhe foi entregue. 

2) Confusão, visto que por conta desse ensinamento, muitos ficam sem entender exatamente qual é a finalidade do dízimo.

3) Repulsa na sociedade exatamente por reprovar a abordagem que esses falsos pastores fazem em relação ao dízimo. Consequentemente, há o risco de generalização no sentido da sociedade acreditar que todas as igrejas fazem parte do mesmo movimento liderado por esses falsos pastores. 

4) Receio por parte das igrejas sérias em falar sobre o assunto por temer serem confundidas com as demais denominações que distorcem o sentido do dízimo.

5) A crise que se instalou sobre o Brasil, onde o desemprego tem sido cada vez maior e não há, a curto prazo, expectativa de que o país se recupere.

Entretanto, mesmo diante desse cenário, é necessário que nos lembremos de alguns princípios que estão diretamente relacionados com a prática de devolver a Deus aquilo que lhe pertence – o dízimo.

A seguir, portanto, abordaremos de forma sucinta os ensinamentos da Escrituras ligados com a ordem do dízimo. Para fazermos isso, precisamos fazer a seguinte pergunta: Por que eu devo ser dizimista? 

Vamos às respostas.

1. Porque é uma ordem. 
O texto lido em Provérbios ensina: “Honra ao Senhor”. Em Malaquias 3.10, famoso texto conhecido sobre assunto diz: “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro” (Ml 3.10). Em Mateus 23.23, Jesus adverte os religiosos da época que se orgulhavam de entregar o dízimo, mas não praticavam a justiça e a misericórdia.

Nessa repreensão Cristo diz:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” 

De maneira bem simples o que Jesus diz é: Vocês devem tanto observar o mandamento do dízimo quanto praticar a justiça a misericórdia e a fé. 

Portanto, o primeiro elemento que deve nos motivar a entregar o dízimo é o fato de que se trata de uma ordem. De acordo com o que cremos, a Bíblia é nossa única regra de fé e prática. Além disso, devemos ter em mente que a obediência à palavra do Senhor é a maior prova de amor que podemos dar a Ele.

Por isso, Jesus disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). Mais a frente Cristo afirma: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). 

2. Porque é um voto.
Outro elemento que se relaciona com a prática do dízimo é o voto. Talvez, você que é membro da Igreja Presbiteriana do Brasil possa fazer a seguinte pergunta: Em que momento eu fiz um voto de que seria dizimista?

A resposta é simples. Por ocasião de sua profissão de fé lhe foram feitas as seguintes perguntas: 

1) Credes que as Escrituras Sagradas do Antigo e Novo Testamento são a Palavra de Deus e a única regra de fé e prática dada por ele à sua igreja? 2) Estais agora sinceramente arrependidos do mal que tendes feito diante de Deus e resolvidos a fazer uso diligente de todos os meios de graça por ele ordenados para o bem do seu povo, e a seguir os preceitos de sua lei, deixando de fazer o que ele vos proíbe em Sua Palavra? 

Quando você respondeu afirmativamente a essas perguntas, você assumiu um compromisso público com Deus. Portanto, você fez um voto. Na Bíblia consta o mandamento do dízimo, logo se há uma promessa em observar o que a Escritura determina, logo deve-se obedecer o preceito do dízimo.

Sendo assim, é bom que se lembre também do que a Escritura diz a respeito da seriedade dos votos. Em Eclesiastes nós lemos: “Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes” (Ec 5.4).

3. Porque é uma forma de reconhecimento de que Deus tem sido nosso provedor.
O texto de Provérbios mostra que o Senhor deve ser honrado com as primícias de nossa renda. Ora, se há renda, é porque Deus, que dono do ouro e da prata, tem nos concedido as condições necessárias para trabalharmos e recebermos dignamente nosso salário.

Em suma, Ele tem sido o nosso provedor. Portanto, como tal, Ele deve ser engrandecido, louvado, honrado por tamanha manifestação de bondade. É bom que nos lembremos disso especialmente nessa crise onde muitos estão desempregados e outros nem mesmo têm tido condições de trabalhar por alguma doença. 

4. Porque é uma forma de engajamento no serviço prestado a Deus.
Quando nos deparamos com texto Malaquias, Deus dá a seguinte orientação: “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa” (Ml 3.10). A finalidade dos dízimos no AT era:

A) O sustento dos levitas que se dedicavam em cuidar do santuário (Nm 18.21);

B) O sustento dos sacerdotes que eram responsáveis pelos sacrifícios e outras funções (Ne 12.44); C) Para o socorro dos órfãos e viúvas (Dt 26.13).

Nos dias de hoje, qual é a finalidade dos dízimos? Aquisição de material de educação cristã, evangelização, pagamento dos impostos e outras taxas, manutenção do templo, pagamento do pessoal que se dedica integralmente no trabalho da igreja (secretaria, faxineira e obreiros de modo geral). 

Nesse sentido, aquele que cumpre com seu voto devolvendo aquilo que pertence a Deus contribui para que a igreja dê continuidade ao seu trabalho de serviço. Sem a fidelidade, a educação cristã e a evangelização não funcionam como deveriam, a manutenção do templo fica comprometida.

As taxas e impostos podem não ser pagos o que comprometeria vertiginosamente a credibilidade da igreja. E o pessoal que se dedica ao trabalho da igreja, pode ser, eventualmente dispensado por falta de condições. Portanto, é necessário que fique claro que a fidelidade é determinante para o trabalho da igreja.

5. Porque é uma expressão de confiança em Deus.
Após falar sobre a finalidade do dízimo em Malaquias, Deus faz uma promessa: “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida” (Ml 3.10).

A situação vivenciada pelo povo na época desse texto era desesperadora. O povo havia retornado do exílio e não obedecia a ordem sobre o dízimo. Como consequência, houve grande seca, por isso a terra não produzia.

Não havendo produção, não havia alimento, além do prejuízo financeiro. A seca, portanto, era uma forma de repreensão de Deus por conta da desobediência à lei sobre o dízimo. Nesse contexto, Deus faz uma promessa: Ao trazerem o dízimo, Ele derramaria chuvas fazendo com que a terra seca passasse a produzir. Deus aqui desafia seu povo à confiança Nele.

Esse mesmo ensino se faz presente nos dias de hoje. Muitos, por conta da crise, tem resolvido economizar. Está correto! O problema é que um dos itens que são cortados do orçamento é o dízimo. Não é assim que devemos proceder, pois não é isso que a Escritura ensina.

Precisamos fazer o que compete a nós. Nossa função é obedecer ao Senhor e descansar em Sua providência. Nesse tempo de crise, devemos nos lembrar do que Cristo disse em Mt 6. Nos vv .25,26 Cristo disse:

“Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?”

No v. 31, Ele continua:

“Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? 

Finalmente, Ele conclui nos vv. 33,34:

“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal”. 

Portanto, não façamos da crise, uma desculpa pra não sermos fiéis. Confiemos em Deus e em sua provisão.

Conclusão
Não podemos deixar de falar de dízimo, pois o mesmo é bíblico e deve ser ensinado. Temos várias razões para sermos fiéis.

Citamos aqui cinco. São elas: Porque é uma ordem; porque é um voto que fizemos; porque é uma forma de reconhecimento que Deus tem sido nosso provedor; porque é uma forma de engajamento no serviço prestado a Deus; porque é uma expressão de confiança a Deus.

Portanto, não sejamos omissos, não sejamos desobedientes, não sejamos instáveis. Pelo contrário, sejamos operosos, obedientes e perseverantes. Deus, certamente, honrará aqueles que assim procederem.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013. Pós-graduando em docência do ensino superior, pela Universidade Paulista.

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