Quem é o cristão (de acordo com Judas)


muitas formas de definição no cristianismo, no entanto é na Bíblia que encontramos uma explicação mais precisa a respeito disso. Um exemplo para essa afirmação se encontra da carta de Judas que foi irmão de Tiago e meio irmão de Jesus.


As pessoas para quem ele escreveu possivelmente eram judeus convertidos que haviam sido dispersos pelo Império Romano. Naquelas igrejas existiam falsos mestres que se infiltravam nas igrejas e se fingiam de crentes. Esses homens ensinavam que a graça de Cristo permitia ao homem viver de forma libertina.

Judas chamou esses homens de sonhadores alucinados (v. 8), pois afirmavam que tinham sonhos e revelações dadas por Deus. Eles difamavam as autoridades (v.8), não conheciam a verdade (v.10) e ganhavam dinheiro com o ministério deles (v.11).

Essas pessoas já haviam promovido divisões nas igrejas (v.19). É por causa da presença dessas pessoas que faz com que Judas se dirigisse àqueles irmãos através dessa carta para preveni-los contra os falsos mestres.

Nos vv. 1,2 é parte introdutória da carta, muito comum naquele contexto. Nessa parte, a carta era iniciada com a identificação do autor, dos destinatários. Contudo, nas cartas apostólicas, os escritores incluíam seus conceitos teológicos. Nesse caso, Judas demonstra nessa parte inicial sua concepção a respeito de quem é o cristão. Sendo assim, quem é o cristão segundo esses versículos?

1. O cristão é servo (v.1)
“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago”.

Judas era o meio irmão de Jesus, no entanto, porém ele não se identifica como tal, antes, se identifica como “servo” Dele. Ele não ostentou o fato de ser meio irmão do Messias, pelo contrário, usou a mesma palavra que os apóstolos usavam para si conforme o costume da época – “servo” (Rm 1.1; Tt 1.1; Tg 1.1; 2 Pe 1.1; Ap 1.1).

Para Judas e para os apóstolos, Jesus era o Senhor, portanto, a única relação com Ele era de servo. Judas, portanto, era, literalmente, servo de seu meio irmão, Jesus que, ao mesmo tempo, era o Deus encarnado. Isso ensina uma lição importante sobre a condição do cristão diante de Deus e de Cristo. O cristão é servo, portanto, não deve fazer nada senão aquilo que é ordenado por Cristo. 

Foi essa a concepção de João Batista quando disse: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30). Há não poucos cujo objetivo é ser glorificado pelos homens por aquilo que fazem em nome de Deus.

Desde há muito tempo, são muitos os que se fazem valer dos títulos, cargos, influências para conquistarem o que desejam e acabam se esquecendo de que nada são, senão servos de Cristo (se de fato forem crentes). Judas poderia ter ostentado o fato de ser meio irmão de Cristo, mas não o fez. 

Além disso, hoje, infelizmente, há aqueles que têm tentado inculcar nas pessoas a idéia de que Deus está subordinado às vontades e caprichos humanas e que Deus é um mero garçom que está pronto para atender os mais sórdidos pedidos com um simples estalar de dedos. Por conta desses erros, lembremos: “O servo nunca é maior que o seu Senhor”.

2. O cristão é chamado por Deus (v.1). 
Ao identificar os destinatários, Judas se referem a eles como: “aos chamados”. Aqui, Judas usa um termo muito comum entre os autores do Novo Testamento quando se referiam aos cristãos. A expressão “chamados” indica que os cristãos foram chamados e capacitados por Deus para responderem positivamente ao “convite” para fazerem parte do povo de Deus.

De acordo com a Escritura, ser cristão não é uma decisão pessoal que o homem toma como se ele fosse competente pra fazer isso. Pelo contrário, é o resultado daquilo que Deus faz no interior do homem que o leva a crer e confessar a Cristo.

Paulo escreveu: “Ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1 Co 12.3). Jesus já havia ensinado: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto” (Jo 15.16).

Isso elimina qualquer pretensão do homem bater no peito e arrogantemente dizer que é cristão. Essa condição é fruto da graça de Deus exclusivamente. Não é resultado da sua condição, social, do fato de ser filho de crente, nascido na igreja e intelecto elevado. É fruto da graça, e, por isso, o cristão deve ser humilde e grato pela benevolência de Deus.

3. O cristão é amado em Deus (v.1).
Judas adiciona outro elemento que caracteriza seus destinatários: “amados em Deus”. O amor de Deus pelos seus filhos é constante, imutável, incondicional e soberano. Não há nada que possa separar os filhos de Deus de Seu grande amor.

Paulo escreveu: “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8.38,39)”.

Diante dessa maravilhosa revelação, cabe ao cristão apenas confiar nesse amor. Não é necessário sentir algo, mas crer. Por outro lado, podemos contemplar o amor de Deus de várias formas: Por meio de Cristo, por meio da criação, por meio da provisão diária, pelo cuidado de Deus, por meio da igreja, por meio da liberdade de culto que temos em nosso país. Todas essas coisas demonstram o grande amor com o qual Deus nos amou.

4. O cristão é guardado em Cristo (v.1) 
Judas fornece outra característica do cristão ao se referir aos seus destinatários como “guardados em Jesus Cristo”. Através dessa expressão e diante da presença de tantos falsos mestres, Judas quer lembrar seus leitores de que aqueles que foram chamados e amados por Deus também seriam guardados por meio de Cristo até o fim. Sendo assim, terão suas almas guardadas, terão sua salvação garantida e não serão seduzidos pelos falsos ensinos. 

Quão tremenda é essa promessa. Em Cristo somos protegidos por Deus de modo que nada poderá fazer nossa alma perecer. O salmista já havia expresso essa confiança com as seguintes palavras: “O SENHOR te guardará de todo mal; guardará a tua alma” (Sl 121.7). 

Jesus declarou: “E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.39). Mais a frente, Jesus garantiu a seguinte promessa para suas ovelhas: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28).

A segurança de nossa alma, portanto, não está fundamentada em nós, na religiosidade, mas no poder de Deus que não somente nos transformou, como também tem nos guardado e nos ressuscitará no último dia para que vivamos eternamente com Deus. Por conta disso, descansemos naquele que criou todas as coisas e tem nossa vida segura em suas mãos.

Conclusão
Há muitas definições sobre o cristianismo. Porém, é nas Escrituras que encontramos uma definição mais precisa a respeito de quem é o cristão. Conforme o v. 1 de Judas, o cristão é aquele que é servo, que foi chamado por Deus, que é amado e guardado por Deus.

Que sempre nos lembremos disso e conforme escreveu o próprio Judas no v. 2, que a misericórdia de Deus nos sustente em tempos de dificuldades. Que sua paz nos conceda calma quando o mal se apresentar diante de nós e que o amor do Senhor nos proteja nos momentos de perigo.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013. Pós-graduando em docência do ensino superior, pela Universidade Paulista.

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