Não julgueis (2)


Jesus recomenda: "não julgueis". (Mateus 7:1)

Como entender essa recomendação? Como vou exercer meu-livre arbítrio, se é que o tenho, se eu não exercer o meu direito de julgar antes de fazer minha livre opção. Se vou comprar um produto qualquer entre dois da mesma qualidade, eu tenho que julgar qual o que está em melhores condições, qual merece minha preferência.


Mas não é a esse tipo de julgamento que Cristo se refere. Ele fala do julgamento do próximo. A recomendação é contra a mania de cada um querer ser dono da verdade. Só eu é que estou certo. O outro sempre está errado. 

A recomendação é contra o pré-juízo que fazemos do próximo. Todo pré-juízo traz prejuízo e não é nosso papel julgar quem quer que seja. O julgamento do próximo compete só a Deus que o conhece bem e pode julgá-lo sem o perigo de cometer injustiça. 

Um julgamento correto só pode ser feito com pleno conhecimento de causa. Ninguém conhece perfeitamente ninguém. O homem desconhece até a si mesmo. Só uma pessoa com pleno conhecimento do objeto é que pode julgar esse objeto.

Nós entendemos as coisas mais corriqueiras de maneira errada. Tiramos conclusões erradas a respeito das coisas e das pessoas. Muitas vezes a gente se surpreende com atitudes de pessoas conhecidas que pensávamos jamais serem capazes de agir desta ou daquela maneira. 

Para julgar o próximo precisamos estar "sem pecado" para podermos atirar a primeira pedra. O único que pode fazer isso e, quando o faz é para perdoar, não para condenar, é Jesus: "Nem eu te condeno, vai e não peques mais", disse Ele à mulher adúltera.

Esta semana eu tive a surpresa de verificar como a gente não conhece as pessoas. Atitude inadmissível a um cristão, mas nem neste caso eu posso julgar. Cada um tem suas razões que só a própria pessoa conhece.

Ouvi uma anedota que ilustra bem como as pessoas se enganam ao julgar o próximo. Um homem muito pobre escreveu uma carta a Deus pedindo mil reais para poder resolver um problema imediato. Sobrescritou o envelope: Ao Senhor Deus - CÉU. Botou a carta no correio. 

Ao fazerem a triagem da correspondência e, curiosos, os funcionários foram ver o que a carta continha. Tomando conhecimento do pedido, resolveram ajudar o pobre homem. Fizeram um rateio entre os demais fun-cionários da agência, mas conseguiram apenas oitocentos reais. 

Colocaram o dinheiro no envelope e mandaram para o remetente. Ao recebera carta com o dinheiro, o pobre homem ficou muito contente e, num gesto de agradecimento, olhou para o céu e disse: Senhor Deus, eu sei que o Senhor ia me ajudar e sei também que o senhor me mandou o milote de que eu precisava, só que aquela cambada lá do correio me afanou duzentão.

É. Não julgueis porque no julgamento podemos cometer injustiças desse tipo. Diz um provérbio chinês que nós não podemos apontar um dedo contra uma pessoa porque nesse simples gesto temos três dedos apontados contra nós mesmos. Faça o gesto e verifique!

Sobre o julgamento do próximo vale atentar para o que diz o apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos 2:1: "porque és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que seja porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas o outro; pois tu que julgas fazes o mesmo". - Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra. Jesus acabou com a euforia dos acusadores da mulher e as pedras foram caindo, mas rente aos pés dos acusadores.

Outra razão para atendermos a recomendação de Jesus é o fato de nós só podermos julgar baseados naquilo que vemos e nem sempre o que vemos corresponde à realidade. Sugestivo é o quadro que observado de longe, parece representar um monge de mãos postas em atitude de oração, diante de uma Bíblia aberta. 

Observado de perto, porém, mostra um homem com uma capa preta com capuz, espremendo um limão numa terrina retangular. Quanta gente há que aparenta uma santidade que não tem. Exteriormente se apresenta como santo, mas vive a espremer limão na vida do próximo (olha aí a ilustração viva do que estou tratando - eu já estou julgando. Mas é só para ilustrar).

O bom mesmo é atender a recomendação de Jesus - não julgueis. Deixar o julgamento para o próprio Cristo fazer, pois sendo Deus ele não julga pela periferia, mas pelo centro. Não julga pela casca, mas pelo cerne. O apóstolo Paulo, numa ocasião em que estava sendo julgado pelos crentes da Igreja de Corinto, disse: "a mim pouco se me dá de ser julgado por vós, quem me julga é o Senhor". Jesus afirma: "mas Deus conhece os vossos corações". (Lucas 16:15). 

Só Ele pode julgar.

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Samuel Barbosa é pastor jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 1960. Posteriormente graduou-se em Letras, Pedagogia, Supervisão Escolar e Especialização em Língua Portuguesa com produtiva carreira acadêmica. Pastoreou as igrejas presbiterianas de Apiaí, Correias e Itararé entre 1961 e 1962. Foi pastor da Igreja Presbiteriana de Itararé durante 32 anos até sua jubilação. Presidiu o Presbitério de Itapetininga por 22 anos e é pastor emérito das Igrejas Presbiterianas de Itararé e Itaberá. 
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