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Existência de Deus


Sobre existência de Deus, dizem alguns que é matéria de fé, que a razão não leva ninguém a descobrir que há um Deus criador e mantenedor de tudo. 


Estudamos, [certa vez], em classe, o soneto "Deus" de Bocage. Diz o soneto: 

"Os milhões de áureos lustres coruscantes, que estão da azul abóbada pendendo, o sol e a que ilumina o trono horrendo, dessa que amima os ávidos amantes. As vastíssimas ondas arrogantes, serras de espuma contra os céus erguendo, a leda fonte humilde o chão lambendo, lourejando as searas flutuantes. O vil mosquito, a provida formiga, a rama chocalheira, o tronco mudo, tudo que há Deus a confessar me obriga. E para crer num braço autor de tudo, que recompensa os bons, que os maus castiga, não só da fé, mas da razão me ajudo".

Nesse belíssimo soneto Bocage usa de muitas metáforas e outras figuras de linguagem que muito contribuem para despertara curiosidade e aguçar o raciocínio e de leitor. 

Os áureos lustres coruscantes são os astros, as estrelas que parecem 11 candelabros de ouro pendurados no firmamento que ele chama de azul abobada. O trono horrendo é a noite e a que ilumina esse trono é a lua que amima os ávidos amantes. Alguém já disse que a noite foi feita para o amor. 

As ondas do marque a força da tempestade parecem querer atingir os céus com os seus vagalhões. A alegre fonte irrigando o chão com humildade, para contrastar com a fúria das ondas, amadurecendo as searas, as plantações que flutuam como ondas sob a força do vento - searas flutuantes. 

O desprezível mosquito - até ele -; a previdente e providente formiga que, segundo a fábula armazena no verão para se garantir no inverno; o animado e o inanimado - rama chocalheira e tronco mudo.

Tudo isso é na realidade o sujeito do verbo obrigar. Ele resume todos os elementos que compõem o sujeito no pronome indefinido "tudo" que o obriga a confessar que existe Deus.

Essa constatação o poeta fez, não foi aplicando a fé mas aplicando unicamente sua razão. E para crer num braço autor de tudo. Aqui o poeta usa uma figura chamada metonímia, em que se toma a parte (braço) pelo todo (Deus). Ele não crê só no braço, mas no Ser todo, a exemplo do rapaz que pede a mão da namorada em casamento. Ele pede a mão, mas não quer só a mão. 

Refere-se ainda ao senso de justiça, muito próprio dos seres humanos - que recompensa os bons com o bem e castiga os maus com o mal. E conclui que, para crer na existência de Deus, de um Deus poderoso e justo, ele se vale, se beneficia também da razão - não só da fé, mas da razão me ajudo. Bonito, não é?

Esse soneto nos leva também a pensar nessa maravilha de universo que nos cerca e a concluir que tudo isso não pode ser obra do acaso, a menos que troquemos o nome de Deus pela palavra acaso.

Quem tem razão é o salmista que há milênios escreveu: "disse o néscio no seu coração, não há Deus".

E você, leitor, que não é néscio, você é sábio pelo menos para concordar com o salmista, com Bocage e comigo. Existe um Deus criador de tudo, Senhor de todos, a quem devemos obedecer e servir e a quem devemos amar acima de todas as coisas.

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Samuel Barbosa é pastor jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 1960. Posteriormente graduou-se em Letras, Pedagogia, Supervisão Escolar e Especialização em Língua Portuguesa com produtiva carreira acadêmica. Pastoreou as igrejas presbiterianas de Apiaí, Correias e Itararé entre 1961 e 1962. Foi pastor da Igreja Presbiteriana de Itararé durante 32 anos até sua jubilação. Presidiu o Presbitério de Itapetininga por 22 anos e é pastor emérito das Igrejas Presbiterianas de Itararé e Itaberá. 
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