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Estado de espírito



Estado de espírito. Quem já ouviu essa expressão para indicar diferentes circunstâncias que a pessoa vive? 


Já se disse mesmo que a idade ou mais especificamente, a velhice é um estado de espírito. Pode até ser que seja mesmo, mas o físico não sabe disso. Para o físico velhice é velhice mesmo. Muitas pessoas idosas caem no ridículo de fazer coisas incompatíveis com a sua idade só para mostrar que estão "em forma". Ilusão pura. 

Razão tinha o salmista quando sentenciava: "a duração da nossa vida é de setenta anos e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos o melhor deles é canseira e enfado".

Contudo o estado de espírito tem muita força sobre o nosso ser como um todo. Dependendo do estado de espírito a pessoa pode gozar um momento ou sofrer o mesmo momento.

É fácil perceber-se o estado de espírito de uma pessoa. É só estudar as reações da pessoa diante das circunstâncias mais variadas. O estado e espírito de uma pessoa que sai para fazer uma viagem de carro, nesse trânsito louco, é diferente do estado de espírito de uma pessoa quando está chegando ao destino. O estado de espírito de um trabalhador é um no dia em que ele recebe o seu salário e é outro no fim do mês.

Em 1950 saí de minha casa para estudar em um colégio interno, em Jandira, um lugarzinho perto de São Paulo. Deixei minha família, meus amigos, meu emprego, minha Igreja e fui enfrentar o desconhecido. 

Nos primeiros dias, após minha chegada, e antes que tivesse me alojado definitivamente, sofri uma intoxicação alimentar que quase me matou. Tive que voltar às pressas, e doente, para minha cidade para me tratar. 

Passado o perigo voltei ao "Conceição" como era carinhosamente chamado, pelos estudantes, o Instituto José Manuel da Conceição. Sob o peso da solidão o meu estado de espírito não era lá essas coisas, e nesse estado e espírito compus a poesia: 

A DOR
Estava ali, tristonha à minha frente
Ruína de uma vida mal vivida
Donzela de olhar indiferente
Deixando em cada gesto uma ferida

Ninguém supunha ao ver tal desventura.
Que atrás daquele rosto escaveirado
Houvesse a lembrança que tortura
De alguém que feliz foi no passado

Seu nome? Perguntei penalizado
Onde mora, o que faz e quem espera?
E ela, seu olhar já desvairado
Respondeu-me e contou quem ela era

Eu sou a dor, não vivo só no mundo
E se demonstro grande abatimento
É pra enganar, de fato bem no fundo
Eu me rio do humano sofrimento

Saí dali correndo espavorido
Procurando fugir de tal visão
E então percebi estarrecido
Que a malvada alcançou meu coração

E desde aquele instante malfadado
Em que a dor de mim se apoderou
Eu vivo a chorar amargurado
Um mundo de ilusão que se acabou.

O tempo passou, conheci novos amigos. Entrei em contato com os livros. Comecei aprendendo um pouco de Álgebra, Português, Latim, Grego, Inglês, Francês, Psicologia, Lógica, Geografia, História, etc. Meus horizontes se alargaram e eu pude ver que ninguém vive completamente só, neste mundo. Sempre há "alguém" que vela por nós, que nos protege, que nos anima.

Sete anos passados depois que meu estado de espírito me inspirou a escrever A DOR, o mesmo espírito, agora em estado diferente, me inspirou a escrever outra poesia que representava, não só o cair da tarde, mas também a despedida daquela escola querida que nos abrigou por sete anos: 

PRECE
A tarde é bela, a noite se aproxima
E eu cansado do labor do dia
Busco em Jesus aquilo que me ensina
Transformar o cansaço em alegria

Minha alma em prece sincera e comovente
Se eleva ao trono do celeste amor
E lá encontra as provas bem patentes
Da graça infinda do meigo Salvador

Feliz o homem que goza essa vantagem
De como Jesus falar a todo instante
E dEle haurir as forças e a coragem
Que sobre o mal o tornam triunfante

Ó Cristo eterno, aceita a gratidão
Desta minha alma fraca e sem valor
E não retires a tua forte mão
De sobre mim, tão frágil pecador

E quando enfim chegar aquele dia
De com Jesus, feliz eu habitar
Minha alma cantará com alegria
E exaltará seu nome, sem cessar.

Sobre estado de espírito já sentenciava Salomão: "o coração alegre aformozeia o rosto, mas pela dor do coração o espírito se abate".

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Samuel Barbosa é pastor jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 1960. Posteriormente graduou-se em Letras, Pedagogia, Supervisão Escolar e Especialização em Língua Portuguesa com produtiva carreira acadêmica. Pastoreou as igrejas presbiterianas de Apiaí, Correias e Itararé entre 1961 e 1962. Foi pastor da Igreja Presbiteriana de Itararé durante 32 anos até sua jubilação. Presidiu o Presbitério de Itapetininga por 22 anos e é pastor emérito das Igrejas Presbiterianas de Itararé e Itaberá. 
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