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Paradoxo (2)


Tenho sede. Quem disse isso foi o mesmo que havia dito; "quem tiver sede venha a mim e beba... aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte que salte para a vida eterna". 

Paradoxo? contradição? Jesus se declara a fonte de água viva e se oferece para mitigar a sede da mulher samaritana e de tantos quantos quisessem beber da água da vida e, agora na cruz implora: "tenho sede"?


Contradição? Paradoxo? Não. Apenas mais uma evidência da diferença entre Deus e os homens. Deus se dispõe a satisfazer todas as necessidades mais profundas do homem e atende-o materialmente, dando-lhe todas as condições de sobrevivência neste mundo. 

O homem que recebe de Deus tantas manifestações de amor e da cuidados, quando chamado a atender um pedido de Deus se recusa! O homem Jesus está na cruz e tem sede. O único que pode atendê-lo é o homem, que tem a água à sua disposição. 

A sede espiritual que todo homem tem, só Cristo pode satisfazer, ninguém mais, nem mesmo quem se arroga o direito de declarar santo um homem pecador, por mais virtuoso que tenha sido em sua vida. 

Só Cristo pode satisfazer a sede de amor, de paz, de felicidade e de salvação. "Em nenhum outro nome há salvação porque também debaixo do céu nenhum outro nome é dado entre os homens pelo qual devamos ser salvos". Quem disse isso foi o apóstolo Pedro. 

E o homem que podia atender à solicitação de um moribundo, negou-lhe a água no momento mais dramático de sua vida! Quando a gente pensa nisso sente- se envergonhado de pertencer à mesma humanidade que negou um lugar para o Cristo nascer, obrigando-o a nascer numa estrebaria, e que agora lhe nega água para mitigar-lhe a sede no momento extremo de sua vida.

Mas a humanidade não aprendeu a lição. Há algum tempo os jornais publicaram uma notícia estarrecedora - ladrões armados estavam roubando marmitas de boias-frias. Mas o que continham essas marmitas? Arroz, feijão e um ovo frito!

É o fim do mundo. Num país de oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados de terras produtivas, haver roubo de marmitas! Um dos assaltantes declarou ao delegado que fazia aquilo para garantir a única refeição do dia!

Tenho sede, continua Jesus a dizer pela boca dos necessitados; tenho fome continua Jesus a clamar através de seus irmãos "mais pequeninos", segundo suas próprias palavras. E o que é que a humanidade faz? Nega o pão a quem te fome e água a quem tem sede!

No caso de Jesus foi ainda pior. Substituíram a água, que Ele pedia, por vinagre para aumentar-lhe ainda mais a sede! Maldade do coração não convertido. Ao lado da cruz havia muita gente disposta a dar água a Jesus, mas não tinham autoridade para isso. 

Há muita gente querendo ajudar a quem necessita, mas são necessitados também! Jesus continua a dizer: "dai-lhes vós de comer" ou "tenho sede". E o homem continua a negar-lhe o pão e a água, negando as condições mínimas de vida aos pobres e aos necessitados por quem Cristo também morreu.

Há uma história que conta o episódio da crucificação. Quando Jesus diz "tenho sede", a esposa de um centurião, condoída com o sofrimento de Jesus, tenta chegar-lhe aos lábios um cântaro de água. O centurião, porém num gesto de ódio, quebra o cântaro com um golpe de espada, derramando a água na frente de Jesus.

Jesus então diz a esse homem, apontando para a cruz! "O meu calvário termina ali, mas tu terás de caminhar muito até que te compenetres da verdade". A partir desse momento o centurião não podia mais morrer. Atravessa os séculos tentando morrer, mas inutilmente. 

Vem a primeira grande guerra mundial e ele teve a oportunidade de morrer, quando num gesto de amor e caridade se ofereceu para ficar num campo de concentração em lugar de um prisioneiro para salvar toda a família do prisioneiro. Só então consegue morrer. 

Paradoxo. Num gesto de ódio, centenas de anos antes conseguiu, como castigo a imortalidade. Depois de séculos, por um ato de amor recupera sua natural mortalidade! Finalmente morreu no campo de concentração.

Só goza paz com Deus aquele a quem Jesus disser naquele dia "vinde benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo, porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber".

E aos que negaram pão a quem tinha fome e água a quem tinha sede? Qual o destino que espera esses ímpios? E a todos aqueles que disseram a Pilatos: "o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos"? 

A sentença de Jesus a toda essa gente será tremenda: "apartai-vos de mim, malditos para o fogo eterno destinado ao diabo e seus anjos, porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber". O Deus que não pode mentir é quem fez essa afirmação. Mateus 25:31-46.

De que lado estará o prezado leitor? Pense um pouco. Sempre se pode mudar, sempre se pode corrigir o que está errado, pois errado é, conscientemente, continuar errando. 

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Samuel Barbosa é pastor jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 1960. Posteriormente graduou-se em Letras, Pedagogia, Supervisão Escolar e Especialização em Língua Portuguesa com produtiva carreira acadêmica. Pastoreou as igrejas presbiterianas de Apiaí, Correias e Itararé entre 1961 e 1962. Foi pastor da Igreja Presbiteriana de Itararé durante 32 anos até sua jubilação. Presidiu o Presbitério de Itapetininga por 22 anos e é pastor emérito das Igrejas Presbiterianas de Itararé e Itaberá. 
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