Paradoxo (1)


Há dias um aluno me perguntou o significado da palavra paradoxo. Paradoxo é uma opinião contrária às demais opiniões; à opinião comum, "casa de ferreiro, espeto de pau" é um paradoxo. A opinião comum é de que o espeto tinha que ser de ferro, mas vem alguém e diz que é de pau!

Se a gente observar bem o que acontece na vida de cada dia das pessoas a gente vai verificar que o paradoxo é muito mais comum do que se pensa. 

Eu me lembro de que, em tempos idos, um cantor apresentou-se num teatro cantando a Balada do Vietnã. Era um libelo contra tudo que acontecia no Vietnã condenado à fome, à miséria, à pobreza, à vida miserável que vivia aquela gente e um apelo a que todos ajudassem os vietnamitas. 

Levou o pessoal às lágrimas. Depois saiu do teatro e entrou num carrão de luxo e foi acabar a noite em uma boate, completamente esquecido dos vietnamitas. Isso é paradoxal.

Um pai proibir o filho de fumar, quando ele próprio, o pai, fuma é paradoxal porque contraditório.

Conta-se que uma dama da alta sociedade russa foi assistir a uma ópera. A peça representada era sobre uns camponeses que passavam frio trabalhando no campo sob a neve. A dama chorou o tempo todo com dó dos camponeses. 

Terminada a ópera, enxugou as lágrimas, empoou o rosto e saiu do teatro. Na boleia do seu coche o cocheiro estava entanguido de frio, sob a neve que caía. Como é paradoxal: chorar diante de uma encenação e não se comover com a realidade ali, diante de seu nariz!

O governador do estado carregar no colo, as crianças de uma favela em campanha política, quando os filhos de seus próprios funcionários passam fome - outro paradoxo. O governo do estado gasta [mais] salários mínimos com cada presidiário, delinquente preso, quando o trabalhador ganha um salário mínimo para viver com a família! 

E que dizer da luta para a elevação do salário mínimo [onde o governo alega] a impossibilidade [aumentar mais] porque o consumo por parte do trabalhador vai alimentar a inflação? Quem ganha salário mínimo não tem em que consumir, a não ser que o governo não queira que o trabalhador compre nem feijão nem arroz!

Muitos moços defendem a liberdade, mas vivem escravizados aos vícios! Uma grade maioria dos cristãos não acredita no que Cristo ensinou, não acredita nas doutrinas claramente ensinadas por Jesus! Isso é paradoxo. Cristão que nega na prática as doutrinas do evangelho! O cristão deve viver como cristão. O importante é como viver, mais importante ainda do que como morrer. Ser forte é ser livre de mente e de espírito.

Deve haver coerência entre a vida e a palavra. Muitos querem ser cristãos de acordo com o ambiente em que se encontram, imitadores do camaleão que muda de cor de acordo com o ambiente em que está. A palavra Camaleão é de origem latina, de stelio, onis, lagarto. Daí vem a palavra estelionatário que quer dizer enganador. Jesus já ensinava sobre a coerência na vida e a palavra: "seja o vosso falar sim, sim e não, não".

Mas eu estou me lembrando de uma afirmação aparentemente paradoxal do apóstolo Paulo: "...quando estou fraco aí então é que sou forte". Ele diz ainda que sente prazer nas fraquezas, nas injurias, nas perseguições, na angústia por amor de cristo. 

Depois de declarar tudo isso é que ele diz que quando está fraco então é que está forte. Tudo isso parece tão contraditório, mas não é. É bom se sentir fraco? Paulo acha que sim e, pensando bem, ele te razão. Quando uma pessoa se sente fraca ela busca força, no caso do apóstolo, comunhão com Deus, a força que vinha de sua fé. Há o perigo da pessoa pensar que é forte, que não precisa buscar força em lugar nenhum, sem perceber que essa autoconfiança é um sintoma de fraqueza!

Quando uma pessoa percebe que não precisa mais de auxílio, de orientação, de conselho, às vezes é porque chegou a um estado de extrema fraqueza, de inanição mesmo, e por isso nem "médico" procura mais. O fim é a morte.

A falência do cristianismo começa quando o cristão não quer ser diferente dos que não são. O cristão é diferente. Ele é cristão e deve viver como cristão, cumprindo a vontade de Jesus Cristo, vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana, como diz um padre francês na obra "A Hora dos Leigos". 

Somos todos iguais? Sim, mas com uma grande diferença, somos cristãos, comprometidos com Jesus Cristo e representamos o seu pensamento no mundo. O cristão deve ser alguém em quem Cristo confie. A fé deve ser recíproca. Eu creio em Cristo e devo viver de tal modo que Ele também creia em mim. 

Pensemos um pouco no seguinte trecho registrado pelo apóstolo João: "Estando Ele em Jerusalém, durante a festa da Páscoa, muitos viram os milagres que Ele fazia e creram nele, mas Jesus não confiava neles, pois a todos conhecia. Ele não necessitava de que alguém testificasse respeito do homem, pois Ele sabia o que havia no coração do homem"

Eis aí um grande paradoxo. Cristão que crê em Cristo, em quem Cristo não crê. 

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Samuel Barbosa é pastor jubilado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 1960. Posteriormente graduou-se em Letras, Pedagogia, Supervisão Escolar e Especialização em Língua Portuguesa com produtiva carreira acadêmica. Pastoreou as igrejas presbiterianas de Apiaí, Correias e Itararé entre 1961 e 1962. Foi pastor da Igreja Presbiteriana de Itararé durante 32 anos até sua jubilação. Presidiu o Presbitério de Itapetininga por 22 anos e é pastor emérito das Igrejas Presbiterianas de Itararé e Itaberá. 
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