A relação dos filhos com a disciplina de Deus


Hebreus 12.4-13

O texto de Hebreus foi, provavelmente, uma homilia escrita e enviada para judeus que haviam convertido ao cristianismo. Por isso, o autor preocupa-se em deixar claro que as cerimônias do AT não eram mais necessárias visto que elas apontavam para Cristo. Uma vez que Cristo se manifestou, tais cerimônias não tinham mais a necessidade de serem observadas.


Nessa obra, o autor também dá orientações sobre a seriedade do pecado e sobre como aqueles cristãos deveriam enfrentar e até mesmo interpretar o sofrimento. É dentro dessa orientação que está inserido o texto de Hb 12.4-14. É nele que o autor fala um pouco sobre a relação que os filhos de Deus devem cultivar especialmente no que se refere à disciplina. 

Vejamos o que o autor ensina:

1. Como filhos, não podemos menosprezar a disciplina do Senhor (v. 5b) 
“Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado. Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe”.

O texto inicia falando sobre a necessidade da resistência ao pecado tal como um boxeador resiste aos golpes recebidos mesmo sangrando muito. A seguir, o autor cita Pv 3.11-12. Aqui ele usa a expressão “não menospreze” o que significa que aqueles cristãos deveriam enxergar a disciplina com um ato vindo de Deus. 

E por que Deus disciplina? Primeiro, porque Ele nos ama. “Porque o Senhor corrige a quem ama” (v.6b). Segundo, porque Ele é pai – “O Senhor vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige”? (v.7).

Desse modo, a disciplina é um privilégio que Deus concede àqueles aos filhos a quem Ele ama. Ela não é estendida aos que não pertencem a Deus. Note o v. 8: “Se estais sem correção [...], logo sois bastardos e não filhos”. Aqueles que não são filhos de Deus receberão o julgamento. Por outro lado, os filhos de Deus recebem correção. 

Para ilustrar esse princípio, o autor usa o exemplo dos pais que disciplinavam seus filhos no v. 9. “Tínhamos nossos pais segundo a carne que nos corrigiam”. Se eram subordinados aos pais, tanto mais deveriam se submeter à disciplina de Deus (v. 9). Nesse ponto, o autor tinha em mente que a disciplina podia vir tanto com a vara quanto com a simples instrução na lei. 

Considerando essas coisas, entendemos como pode vir a disciplina. Primeiro, ela pode vir na forma de adversidades, de dor e de provação. Segundo, de acordo com o v.9 ela também pode vir na confrontação e instrução através da Escritura e da pregação. 

Independentemente de como vem a disciplina, seja através da aflição, seja através da Palavra, devemos aceita-la. Por mais confrontador que seja a pregação, por mais dolorida que seja a aflição, por mais difícil seja aceitar essas coisas, é preciso entender que a disciplina (independente de sua forma) parte do Deus de amor. 

Nossos pais, por mais bem intencionados que fossem, em alguns momentos erraram na correção. Em alguns momentos, a correção veio com ira. Em outros, a correção veio branda demais. Existem até os casos em que a correção simplesmente não aconteceu. Mas a correção que vem de Deus é perfeita porque parte de um Deus perfeito. Por isso, devemos aceita-la porque não ocorre por acaso. Além disso, é a evidência de que somos filhos de Deus, portanto, amados.


2. Como filhos, devemos reconhecer o propósito didático da disciplina (v. 11)
"Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.

Conforme já foi dito, a disciplina é um processo doloroso. O que o autor pretende é ensinar seus leitores que tinha a repreensão de Deus tinha um propósito muito claro. Por isso, ele demonstra os motivos da disciplina. Quais são eles? 

Em primeiro lugar, no v. 9 o escritor mostra que quando nos sujeitamos à disciplina de Deus nos é garantida a vida. Ou seja, a disciplina visa nos proteger da morte gerada pelo pecado.

Em segundo lugar, no v. 10 o autor demonstra que a disciplina tem como propósito nos conduzir a uma vida de santidade. Ele escreve: “a fim de sermos participantes de sua santidade”. Em suma, Deus ao nos disciplinar, objetiva nos tornar como Ele, ou seja, a refletirmos sua imagem.

Em terceiro, o autor resume o propósito da disciplina no v.11 - produzir um fruto pacífico. O que vem a ser isso? A disciplina visa tornar a pessoa pura, pacificadora, amável, compreensiva, cheia de misericórdia, de bons frutos, imparcial, sincera (Tg 3.17). Enfim, o fruto da disciplina, é uma pessoa que é imitadora de Deus (Ef 5.1).

Portanto, independentemente da maneira como a disciplina se manifesta, seja pela dor ou pela simples instrução, ela tem um propósito bem definido por Deus. O objetivo da disciplina é impedir a morte, nos conduzir a uma vida de santidade através de bons frutos.

Quando vir o sofrimento, as doenças ou uma palavra dura, ao invés de perguntar: “Por que isso?” Creia que isso é produto do amor de Deus e de sua filiação. Reconheça, apesar do sofrimento que ele tem como objetivo transformá-lo segundo a imagem do Senhor. 

Conclusão
Ninguém gosta de ser disciplinado. A dor, o sofrimento, o confronto nos tiram da zona de conforto. No entanto, somos orientados a respeito do modo como devemos nos comportar. Como filhos, devemos entender que a disciplina parte de Deus por isso não devemos menosprezá-la. Como filhos, devemos entender que ela tem um propósito. 

A disciplina é fruto do amor do Senhor, e de nossa filiação. Ela visa transformar nosso caráter, fortalecer nossa fé, nos capacitar para a produção de bons frutos, nos aproximar de Deus. Enfim, visa fazer com que pareçamos mais com o Senhor. Que entendamos e sejamos gratos apesar da dor.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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